2.1.14

Migração

Mesmo as migrações cibernéticas são importantes de vez em quando , e para renovar e arejar um bocado o blog muda de endereço e de formato .  Além disso quero ver se faço uma coisa mais séria ,  organizada e disciplinada . Não vou apagar este blog porque não me custa nada mantê-lo aqui mas todos os  posts desde 2007 continuam  disponíveis no arquivo  novo . 

 Votos de um bom 2014 ,  encontramo-nos no novo ninho da Ave de Arribação


1.1.14

Ligações Aéreas

Estou no Faial a caminho de casa e pela cara do tempo quer-me parecer que vou cá ficar esta noite “cancelado”. 
Vim num A320 da SATA com 160 lugares e era eu e mais 11 passageiros . Quando estava a comprar este bilhete vi que a SATA estava a vender voos de ida e volta entre Ponta Delgada e Frankfurt por €199 e tendo em conta que paguei €250 por uma ida simples de Lisboa às Flores continuo sem perceber muito bem a política de preços desta companhia  . A Easyjet estava interessada em voar para os Açores , mas o governo regional não está minimamente interessado em concorrência para a SATA , que ia destruir as margens de lucro que a companhia tem e tornar as viagens muito mais baratas para os açorianos e visitantes. O argumento principal para este veto à concorrência (que devia ser ilegal , mas pronto) é que a SATA tem que ganhar dinheiro com as rotas longas para cobrir os prejuízos que tem nas ligações entre as  ilhas. Parece-me que já que de qualquer maneira não consegue cobrir os prejuízos , mais valia dividir-se em duas ( ou 3 , tendo em conta  que a SATA Internacional já é considerada uma organização “separada”) , e ter uma companhia que concorria no mercado com a Easyjet e quem mais quisesse oferecer voos para os Açores e outra companhia para ligar as ilhas e aí gastar o dinheiro do contribuinte como ele deve ser gasto , a assegurar serviços à população que nenhum privado quer ou consegue assegurar. 
Se há muitos voos como este em que vim , com 12 pessoas onde cabiam 160 ou  como já me calhou , seis pessoas num avião de 60 lugares para as Flores , tenho que pensar que se calhar não era má ideia reduzir certos voos e ligações , mesmo que isso provocasse os protestos do costume. Quando deixaram a Easyjet voar para a Madeira os preços médios dos bilhetes caíram quase para metade , com o benefício que isso trouxe aos madeirenses. Se aqui olhassem primeiro para os interesses de quem cá vive e depois para o interesse político e económico de uma empresa que se quer ao serviço do cidadão , permitiam concorrência mesmo que isso custasse cortes e dias difíceis para a SATA , mesmo que isso obrigasse a uma companhia mais pequena e limitada. 
Aqui há dois anos inauguraram todos contentes uma ligação para Salvador , no Brasil , eu e a maior parte das pessoas achámos uma ideia triste , outros acharam que não , com o mesmo argumento de ganhar dinheiro em rotas longas para poder perder entre as ilhas. Hoje a SATA já não voa para o Brasil , e as contas finais do exercício nunca vão ser feitas . Continuo a achar que a SATA se devia dedicar às rotas de serviço público , que para mim seria assegurar que todos os açorianos têm acesso a ligações aéreas com o resto do mundo a preços comportáveis , e essa ligação não ter que ser necessariamente feita pela SATA , bastava assegurar que nos levavam a um ponto de onde outros nos podiam levar mais longe. 
Mas não , a concorrência para os nossos governantes ( de qualquer partido) tem uma conotação perigosa e nunca pode ser abraçada sem reservas , apesar de todas as instituições que temos , em Portugal e na Europa , para assegurar que essa concorrência cumpre  preceitos. Por isso vai continuar a ser mais barato para um continental passar umas férias em Paris ou Roma do que nos Açores e só os muito ricos podem fazer uma visita de um fim de semana cá como a classe média no continente pode fazer a  Barcelona ou Edinburgo com Easyjets e Ryanairs. 
Outro argumento contra os preços baixos , menos referido abertamente , é que se deseja uma qualidade de turismo superior , ou seja , gente rica , e não o pessoal das mochilas que frequenta mais as companhias low cost , o turismo de massas não é para ser encorajado com pacotes de férias vendidos ao desbarato. 
Tudo bem , simpatizo muito com a causa da limitação do turismo de massas , mas apesar disso sei que os benefícios do turismo para a economia , em todas as modalidades , superam em muito objecções de hoteleiros , promotores de golf e pessoas como eu que não apreciam muito o turismo assim em geral e muito menos o de massas . Este arquipélago não aguenta o nível de vida que tem hoje em dia se não se fizer tudo para garantir que que as ligações aéreas tenham preços razoáveis , e não me parece que seja bem isso que o governo regional faz com a SATA. 

E ainda na actualidade regional , parece que o orçamento regional foi enviado para o Tribunal Constitucional pela primeira vez na História. A mim isto parece-me uma coisa boa , é pena ser agora a primeira vez e mais pena ainda que não tenha sempre passagem obrigatória pelo Tribunal de Contas . Tal como se tem provado , a maioria dos portugueses concorda com a fiscalização dos orçamentos , que se tivesse sido levada a sério como dizem as regras da nossa constituição ( incluindo o artigo 105 , ponto 4 :. O Orçamento prevê as receitas necessárias para cobrir as despesas, definindo a lei as regras da sua execução, as condições a que deverá obedecer o recurso ao crédito público e os critérios que deverão presidir às alterações que, durante a execução, poderão ser introduzidas pelo Governo nas rubricas de classificação orgânica no âmbito de cada programa orçamental aprovado pela Assembleia da República, tendo em vista a sua plena realização. Isto nunca foi observado neste país , mas a Constituição tem certos artigos que são intocáveis e cuja inobservância causa tumulto e tem outros que não são mesmo bem bem para cumprir , é só questão de saber quais são quais.

O nosso presidente , Vasco Cordeiro , cujo partido clama  pela inconstitucionalidade do Orçamento de Estado da República , acha que enviar o Orçamento Regional para o TC é de uma gravidade política extrema , presumivelmente porque nunca aconteceu antes , na realidade porque é o seu partido que o tem que defender , ao passo que a nível da República só tem que o atacar , coisa muito mais fácil e rentável. Nada de novo para este ano .

30.12.13

O Lixo do País

Como a maior parte das pessoas já reparou ,  Lisboa está cheia de lixo , vai piorar até dia 5 , quando  o pessoal cujo trabalho é zelar para que isso não  aconteça  vai dar por concluído este processo tão dignificante  . Insatisfeitos    com o clima económico e as mudanças na sua  situação laboral , decidiram , ou os sindicatos por eles , deixar  atulhar a capital em lixo , causando um problema estético , de segurança e de saúde pública , atropelando   o direito dos lisboetas a viver num sítio limpo , ou pelo menos a não viver no meio de montes de lixo , não sei se é consagrado na Constituição mas é consagrado pelas regras de sociedade e convivência civilizada que muitas  pessoas ainda prezam.  A greve foi convocada contra a "externalização de serviços e de atribuições e contra a privatização de serviços públicos essenciais", e em luta "pelo direito inalienável do vínculo laboral dos trabalhadores ao Município" e "contra o esvaziamento de atribuições de serviços da Câmara Municipal de Lisboa". 

No fim da invasão do Iraque a cidade de Falujah foi cenário dos  confrontos mais renhidos por mais tempo que o resto do país e esteve fora do controlo americano durante anos . Nessa e noutras cidades os insurgentes desenvolveram  uma táctica económica , segura , simples e eficiente para lançar o caos  e minar qualquer esforço dos americanos em estabilizar alguma coisa: Matavam os padeiros e os homens do lixo , e em questão de dias a cidade era um desespero miserável , caótico e explosivo de ódio aos americanos , de resto bem compreensível. 
Os jhiadistas do Iraque , à semelhança dos nossos sindicatos , espumavam de ódio pelo governo que tinham , imposto por estrangeiros , e conheciam bem a importância dos serviços verdadeiramente fundamentais , cuja suspensão causa logo problemas sérios. Ambos acham que paralisando isso , doa a quem doer , a causa deles avança. Felizmente os métodos são diferentes , no Iraque , à falta de consciência de classe  e mobilização  dos trabalhadores  para a luta , param-se as coisas a  tiro  , aqui pelo menos há um processo que teoricamente pode resolver o problema de modo civilizado. Acontece que aqui  a única parte do problema que a suspensão dos serviços pode resolver é o problema imediato dos não sei quantos cantoneiros da câmara , porque não resolve mais nenhum , não vão parar as privatizações , o direito ao vínculo laboral é uma ficção e quanto ao esvaziamento de atribuições e  serviços da CML , isso é a opinião deles , mesmo a ser verdade não é necessariamente uma coisa má para a cidade e parece-me que discordar nesse ponto não é razão suficiente para encher  a capital de lixo. 
Pelo menos no Iraque a táctica de parar os serviços conseguiu fazer a vida num inferno aos americanos e a ocupação estrangeira acabou , aqui só consegue   piorar  a vida dos lisboetas todos e tornar mais pitoresca a visita dos milhares de estrangeiros que aterram em  Lisboa , que assim partem com a visão confirmada de um país em crise , que se calhar , se não fosse pelos montes nojentos de lixo nas esquinas , lhes passava  despercebida. O pessoal que aqui há uns anos se revoltou quando a Moodys reviu o rating da dívida portuguesa para lixo e protestou com sacos de lixo à porta da agência  tem agora oportunidade de fazer muito mais piadas e protestos pelas ruas de Lisboa ,  provando que Portugal não tem nada a ver com lixo e suas diferentes concepções .

Portugal , diz-se agora demasiadas vezes , é "um país onde não se sonha" . Não só acho a afirmação   um pouco bizarra como atribuo  imediatamente às pessoas que falam assim  algum fracasso ou frustração pessoal , ou então uma agenda política. Esse artigo do link é uma peça do Público sobre a emigração, não percebo a utilidade de gráficos que ilustram a evolução dos preços em Portugal  desde 1973, surpresa, subiram. Diz que é assim que funciona. Relevante  tinha sido um gráfico com os últimos números do INE sobre isto e não os números dos inquéritos de opinião feitos pelos académicos , que não são bem a mesma coisa. É  evidente que estamos  a atingir um novo pico de imigração ,  há falta de oportunidades cá , os salários são baixos , havendo  a possibilidade de emigrar , emigra-se. Eu  tive que emigrar para ter a carreira que queria e chegar onde queria ,  isso não foi porque "o meu país não deixou" , foi simplesmente porque aqui não era possível , não é o mesmo . Nunca me pareceu que fosse obrigação do meu país proporcionar-me uma carreira nem  realizar-me os sonhos , e na minha carreira em particular ser Português não só não interferiu como ajudou muito.  A emigração está no ADN nacional e se olharmos para 800 anos de História , isto vai andando de crise em crise e   piores que esta já se viram dezenas . Hoje há a lamentar a boa parte de uma geração educada à custa do país  que  vai ser produtiva para outro lado , e alguns poderão simpatizar com a experiência difícil de mudar de vida , num país estrangeiro , longe da família e amigos , mas parece-me que a emigração não é um drama assim tão grande como às vezes nos parecem querer fazer acreditar .
Sobretudo porque ao contrário do que nos dizem , em Portugal não só se sonha muito como vai  continuar a sonhar e quem diz que as condições económicas condicionam os sonhos ou não distingue  sonho de  ambição ou é um idiota . Se não é por sonhar , vamo-nos embora porquê? 
E os que ficam, não sonham? Os que não têm o que é preciso para emigrar , estão condenados a uma existência sem sonhos , por causa da crise. Os sonhos de todos os que não têm só sonhos traduziveis em cifrões , não valem? Todos os sonhos que só são possíveis em Portugal , não contam?
No Mundo existem  vai para 200 países , destes arrisco sem medo uns bons 150 ou mais estão atrás de Portugal em todos os indicadores quantificáveis e em muitos não quantificáveis , como a gastronomia  . Também arrisco que a maior parte da humanidade reside nesses 150 , e que pelo menos nuns 30 há condições de miséria , instabilidade  e violências de toda a espécie . Nesses 150 países que "estão pior do que nós" , não se sonha? Ou sonham todos com emigrar? Então mas não deviam todos saber que  o sonho comanda a vida , e como tal enquanto vivemos , sonhamos ? Ou já se perdeu toda e qualquer esperança de ver respeitado  o significado das palavras ,  pelo menos no discurso público?
É  mau que a comunicação social , partidos e académicos alinhados façam os possíveis por desmoralizar o cidadão pintando um quadro negro de um país em ruínas que está a prestes a explodir , ignorando o que de bom acontece , o que de bom temos , dando voz a qualquer cassandra com uma licenciatura e algo de triste  para dizer  sobre a situação . Não  se deve ignorar a multitude de problemas que temos , mas martelá-los todo o dia , todos os dias , esquecendo o outro lado que existe sempre , não ajuda à moral do povo , e sem moral não vamos lá . Seja lá onde for . 





23.12.13

Tristan Jones & Lalo

Pelas marinas do mundo há quase sempre uma estante ou estantes para a troca de livros. Os velejadores são reconhecidos leitores vorazes , a maior parte das vezes não há livrarias ao alcance e assim se resolve o problema , uma pessoa deixa um livro que já leu e leva outro . Em Shelter Bay , no Panama , encontrei um título do Tristan Jones e levei-o logo.
 Quando estava a estudar  em Inglaterra no século passado descobrimos na biblioteca o Tristan Jones , galês nascido no mar que aos vinte e tal anos já tinha sido afundado três vezes , tinha feito prodígios de navegação aventureira desde a circumnavegação da Islândia a uma volta ao lago Titicaca , era tudo o que os jovens marujos em formação idolatravam e ainda por cima era um contador de histórias exímio , transformou-se numa espécie de guru da nossa classe . Ao longo dos anos comprei e devorei todos os livros dele , sempre fascinado , até que por fim encontrei um livro chamado “The Incredible Story” , a biografia do homem.
 Sucede que o Jones era um tremendo mentiroso , e para mim foi um choque sério ver um dos meus ídolos exposto como uma fraude. Desde o seu nascimento ao largo da ilha de Tristão da Cunha que lhe valeu o nome até à viagem à volta da Islândia passando pelas 24 travessias atlânticas e 400 mil milhas  , os livros dele estavam repletos de mentiras. Não era que o homem não fosse um marinheiro e navegador excepcional, que o era , fez muitas viagens épicas e o seu livro “One hand for yourself , one for the ship” ainda hoje devia ser lido por todos os marinheiros e aspirantes , mas teve a necessidade de embelezar os seus relatos com uma série enorme de patranhas e mistificações.
Posso compreender , ele tinha jeito para a escrita , descobriu que podia viver disso e que a maneira de vender mais era tornar sempre as suas histórias fascinantes usando “escrita criativa” e vendendo histórias de semi -ficção como relatos verídicos . Muito pior que isso para mim , muito pior que o embelezamento e dramatização extrema das suas viagens foi o ignorar puro e simples da sua tripulação em vários  livros. Várias viagens foram vendidas como “solo” quando havia tripulantes sem os quais teria fracassado. Perdoava-lhe a criatividade e o inflacionar de milhas navegadas por causa beleza da sua escrita , mas nunca lhe pude perdoar o ignorar ou descartar dos tripulantes que tornaram possíveis as suas aventuras. Uma grande parte dos seus livros e artigos são baseados ou contêm várias mentiras , que são como a gota de veneno que contamina o depósito de água inteiro . Já não lia nada dele desde a altura em que li essa biografia , comecei a ler esse livro que encontrei mas não passei do primeiro capítulo , escrevi uma advertência na contra capa e devolvi-o à estante da marina.
Talvez um dia eu escreva uma história de ficção baseada nas minhas experiências , mas enquanto não escrevo ficção e vou contando as minhas viagens tenho sempre presente que tal como as pessoas que me empregam confiam que sou um gajo sério as pessoas que me lêem confiam que l conto a verdade . Mantenho uma folha de excel com o registo de todas as minhas viagens , com datas , barcos , itinerários e tripulação , se digo que naveguei mais de 200 mil milhas posso fornecer os detalhes de cada uma , se digo que cruzei o Canal do Panamá seis vezes posso prová-lo , se passei por dado furacão ou tempestade isso pode ser verificado e a qualquer altura posso ir a esse registo saber o que estava a fazer em determinada altura em determinado sítio. Por isso tenho pouca tolerância para com aldrabões e inventores , mesmo que boas pessoas e bons marinheiros , e conheço alguns . Também por isso nunca , acho eu e espero bem , deixo de falar nos meus tripulantes , sem os quais nunca teria conseguido fazer uma fracção sequer do que fiz ,e acho que regra geral nunca digo “eu” onde devia dizer “nós” .
O reencontro com o Tristan Jones obriga-me a falar com mais detalhe do Lalo , o meu imediato neste barco que vai ser a partir de hoje o capitão. Se esta viagem e o cruzeiro no Panamá foram um sucesso enorme deve-se em grande parte a ele , um tipo experiente , calmo , inteligente , competente , organizado e dedicado que nesta altura conhece melhor este barco do que eu. Um tipo conscencioso até ao detalhe , ao qual nunca escapa nada , que não tem muita experiência de alto mar mas leva quase 20 anos a trabalhar em barcos , marinheiro dos 7 costados com o qual me entendi às mil maravilhas e que me permitiu dormir descansado e saber que os detalhes estavam tratados e assegurados , que nada ficava para trás , que o barco estava impecável . Um tipo cujo dia só termina quando está tudo limpo, ordenado e arrumado , que não descansa enquanto não resolver um problema por menor que seja , que faz com gosto todos os serviços chatos de bordo ( como as incessantes limpezas) sempre desejoso de aprender mais , sempre respeitoso sem deixar de ser companheiro , enfim , o imediato desejado por qualquer capitão , e basta vê-lo a trabalhar para saber que vai ser um excelente capitão , tão bom como os melhores.
 Quando fazia as contas com o patrão disse-lhe tudo isto , e também lhe disse que não tinha a certeza , dado que tinham o Lalo , que iam precisar de mim no futuro . O patrão não me respondeu mas esta manhã quando o Lalo subiu a bordo perguntou-me com um sorriso enorme : “então vamos à Costa Rica para o ano?” . Há coisas que não têm preço.

Lima & Livros


Tenho problemas sérios com o trânsito seja onde for , para mim o ideal é o da minha ilha , passa um carro de vez em quando .
Lima está bem posicionada na competição global pelo título de Trânsito mais Caótico , na minha experiência o Cairo continua campeão incontestado mas Lima está forte. É uma cafarnaum em que os condutores usam as buzinas tanto como os pedais , os sinais são de observância facultativa e a maior  parte dos condutores de transportes públicos conduz como possessos pelo diabo ou a fugir dele . É coisa que me dá muito medo , não sou habituado a trânsito denso e meio selvagem e os trajectos nas Hiaces e similares , as "combis de la muerte" ,  são aterradores , especialmente nas vias rápidas e noutras vias que não deviam ser rápidas mas que toda a gente acha que são. Agarro-me ao banco da frente , olho para o chão e tento abstrair-me da barulheira infernal e incessante das buzinas agora cheias de efeitos especiais e de pensar numa morte inglória , encarcerado numa combi meio podre enfaixada num poste debaixo de um viaduto em Lima . Na última viagem de regresso a La Punta no banco à minha frente ia uma miudinha que se ria sem parar nem nunca estar quieta no banco , para ela aquilo vai ser a maneira normal de viajar e o resto das pessoas não está nem aí , como dizem os brasileiros , enquanto que eu , que já vi a minha quota de situações perigosas e me saí bem sem grandes nervos , tremo  de medo.

 Lima tem uma coisa que acho que  Europa já perdeu há muito , que são as ruas dedicadas a artes , ofícios e comércios , há uma rua só com lojas de móveis , outra com acessórios automóveis , outra com equipamentos de cozinha , outra com tipografias , outra com ervanárias e por aí além , de tudo. Há uma praça belíssima , a 2 de Maio , e ruas adjacentes onde há dezenas e dezenas de lojas de instrumentos musicais umas a seguir às outras  , e há , claro a rua dos alfarrabistas e livreiros que consegui encontrar de memória da última visita . Descer a rua pedonal que começa na Plaza de Armas         ( menos blindados , tropa e polícia de choque a guardar o Palácio do Governo e a praça , bom sinal ) até ver a igreja azul , e seguir a rua que vai lá dar , é por aí. Havia alguns  abertos apesar de ser Domingo e lá andei a vasculhar mas não comprei muito , fiquei-me por dois livros do Mario Vargas Llosa , de quem  nunca li nada , e por meia dúzia de números antigos do Economist que se costumam encontrar em sítios assim e que eu gosto de ler , para comparar o que era esperado e as análises e previsões feitas com o que se passou mesmo. Há um livro que quero ver se encontro daqui a pouco no aeroporto , partindo do princípio que há lá uma livraria decente  , que é “El Patrón del Mal ” , a história do Pablo Escobar . Acho que ninguém pode compreender a história contemporânea da América Latina sem compreender o narcotráfico .
 Outro livro a meu entender  crucial para perceber  isto  é um que trouxe da minha estante para reler nesta viagem , “Nostromo” , daquele que é talvez o meu autor favorito , certamente está nos 5 mais , Joseph Conrad. Passa-se nos fins do século XIX na cidade de Sulaco na imaginária República de Costaguana ,  ele faz uma síntese do que foi essa época na América do Sul e Central contando uma história fascinante como ele sabia como muito poucos. Está lá tudo e recomendo-o vivamente a quem se interessa por esta parte do mundo.

Quando tinha aí 12 anos deram-me um livro chamado " A queda dos Incas" , era de uma colecção juvenil que eu consumi muito e que me apresentou como heróis conquistadores  Francisco Pizarro e Diego de Alvarado . Não sei como é que esses dois são apresentados hoje em dia às crianças , ainda menos às peruanas , mas hoje  arrepio-me com a malvadez  dessa gente , esses dois em particular , carniceiros-mor da conquista do Peru, gente toldada pela cupidez e ganância extrema . Posso muito bem estar enganado e aprendemos até morrer mas ainda assim penso que a nossa demanda de "cristãos e especiarias" , mesmo que muitas vezes tenha tida a sua dose de fúria sanguinária  e  mesmo que a  maior parte dos tugas que ia para as Índias ia para fazer fortuna  , não se pode comparar com a expansão espanhola em níveis de   violência , opressão e  espoliação .

Outro livro que li nesta viagem e recomendo absolutamente chama-se "Why Nations Fail" ,  na minha opinião faz mais pela compreensão do mundo contemporâneo e as diferenças entre nações do que qualquer outro . Foi coincidência , comprei-o em Boston mas tem um capítulo em que mostra de modo cristalino como a situação actual da América Hispânica radica no sistema colonial implementado pelos espanhóis . É para mim o livro da década , na sua área. Não é a raça , não é o clima , não são os recursos , não é a cultura , não são as ideologias. São as instituições que fazem a diferença e , digamo-lo sem medo , a superioridade de uns em relação a outros. Nesse link podem acompanhar o blog e comprar o livro , não sei se haverá muitas editoras portuguesas interessadas , estão muito ocupados com a Margarida Rebelo Pinto , o Sousa Tavares ,  o Dan Brown ,  o soft porn para donas de casa e o resto da literatura que vai fazendo e aguenta o país que temos.

Deixo o Peru daqui a pouco , com a perspectiva desagradável de um voo de 12 horas e meia até Amsterdão , onde vou esperar mais seis até ao voo de 3 horas para Lisboa , ou seja um total de 21 horas de viagem , sem contar com atrasos , e isto é só até Lisboa. Vou por Amsterdão não pela afeição que tenho pela cidade , à qual sou capaz de fazer uma visita relâmpago durante a escala , mas simplesmente porque a KLM oferecia o voo mais barato. Saio daqui convencido de que da próxima vez que cá vier tenho que arranjar maneira de ter pelo menos quinze dias e fundos suficientes para ver o país para lá da capital . Estou cheio de saudades do meu cão e tenho perdido horas de sono a pensar no que vai ser dele se o ano que vem tiver várias viagens como se afigura , não era isto que estava no plano quando o levei para casa pequenino....

22.12.13

O Peru , sem ser de Natal

Anteontem uma das senhoras tinha vindo visitar o barco e comentado que “amanhã casamos o filho de fulana” , e eu fiquei a pensar que aqui  ( e se calhar noutros sítios) não são as pessoas que se casam , são os pais que os casam . Ontem estava à porta da lavandaria à espera da minha roupa e vejo passar uma limousine dos anos 80 toda enfeitada com um casal de noivos lá dentro.“Olha que curioso , os peruanos casam-se às sextas , já o casamento do outro era hoje , porque é que será isto?”
 Voltei ao yate club e estavam os marinheiros prontos para ir para casa , despedimo-nos , desejo-lhes bom fim de semana e disse-lhes que no Domingo ia passear a Lima. 
-Amanhã então .
 -Não , Domingo. 
-É amanhã. 
Resumindo , há quase duas semanas , desde que mandei mudar as pilhas ao relógio no Panamá, que ando a viver no dia anterior . Curiosamente isto não me fez diferença nenhuma, mas ainda bem que reparei a tempo porque tenho um avião para apanhar na segunda feira e não era nada bom chegar ao aeroporto na terça. 

 Fui ao que me parece o único bar de La Punta , uma tasca pequenina onde há 5 anos me tinha desgraçado de tal maneira com pisco sour que o dono do bar me meteu num taxi que me descarregou no yate club e os seguranças me meteram na lancha e depositaram no convés do barco , sem eu dar por nada. 
Estava um grupo de meia duzia de amigos , pessoas de já uma certa idade , a falar de futebol , a U foi campeã do Peru mas naquela mesa todos pareciam não só detestar a U como o futebol peruano em geral. Um declarava-se do Barcelona , é para mim das coisas mais ridículas , diria mesmo estúpidas que eu conheço no mundo da bola , alguém dizer que é adepto de um clube de outro país. Ainda me lembro de uns pretensos notáveis que aqui há uns anos em forma de protesto contra o estado lastimável do futebol português declararam à imprensa que eram adeptos do Barcelona que iam passar a ir à bola a Camp Nou . A nossa imprensa , limitadinha como é , não os cobriu de ridículo como mereciam.
Uma coisa é ter simpatia por um clube , como eu tenho pelo Ginásio de Alcobaça ou o Liverpool, mas uma pessoa só pode ser de um clube. Começaram a falar do Mundial , muito originalmente diziam que os favoritos eram o Brasil e a Alemanha, e depois iam discutindo jogadores . Lá veio à baila o Ronaldo e um tipo falou do Figo , jogador tremendo .Não me contive. 
-Senhores , desculpem a interrupção , mas eu sou Português e do Sporting , pelo que me dá muitíssimo gosto ouvi-los falar assim desses jogadores , criados no meu clube. 
E começámos na conversa , juntámos as mesas , mandámos vir mais umas . Havia uma professora portuguesa em La Punta já há muitos anos , uma comunista.Voltámos ao futebol. 
-No meu clube temos um peruano , que eu gosto muito de ver , rapidíssimo , buenazo , está a crescer e pode ser um jogador fantástico, é o André Carrillo que comprámos ao Alianza. 
 -Vocês dêm-lhe de comer porque esses pretos são todos canibais , ainda come os outros todos. 
Fiquei siderado. Virei-me para um que estava mesmo ao lado para mudar de assunto. Era da marinha mercante , passou pelos Açores , “o tempo é sempre horrível , mares medonhos” , tinha estado em Viana do Castelo , mostrou-me um cartão do Continente que ainda trazia na carteira , lamentou a aparente ausência de bordéis em Viana e concordava com o outro quanto à natureza selvagem dos pretos , peruanos ou não. Falaram-me dos cholos , como chamam aos descendentes dos peruanos originais , como irremediavelmente estúpidos e atrasados , nas serras isso era porque mascavam muita coca , quanto ao resto do país não ofereceram grande explicação para esse atraso , e eu não me aventurei a oferecer que eram atrasados porque há 500 anos que eram oprimidos , explorados , discriminados e desprezados pelos brancos , o Estado , o Poder , na sua própria terra.
 -Não me digas que deixavas a tua filha casar com um preto? 
-Depende do preto , entre um branco estúpido e mandrião e um preto esperto e trabalhador , preferia que se casasse com o preto.
Estes argumentos não colhem com pessoas cujo preconceito está enraizado e é imune à lógica e ao senso comum. Fui-me embora a pensar na sorte que temos em ter em Portugal um país homogéneo de norte a sul incluindo as ilhas , todos os tugas se parecem uns com os outros , desde o Mello aos Zé dos Anzóis . 
Aqui o Mello é invariavelmente branco e o Zé dos Anzóis é invariavelmente cholo. A televisão , os jornais , a esmagadora maioria do Parlamento e dos políticos , as “100 maiores empresas peruanas” , tudo é domínio exclusivo dos descendentes dos Espanhóis , que ao contrário dos nossos antepassados não eram nada adeptos da miscigenação . 
O Peru tem 28 milhões de habitantes ,  5% são brancos , 1,5% são pretos  e a vastíssima maioria são cholos , termo  que inclui tudo o que não seja branco nem preto, e os pretos são os que têm a pior sorte  porque são discriminados pelos dois lados e precisam de trabalhar 20 vezes mais que os outros para subir na vida. 
Isto está a mudar , e não é pelos métodos da esquerda radical ( lembremo-nos dos 20 anos de conflito que aqui como na Colômbia são simplesmente conhecidos como “la violência” ) que só serviram para entrincheirar as elites , discriminar os pobres , cimentar a desconfiança e atrasar o país . Está a mudar graças ao crescimento económico contínuo , este ano de mais de 5% , o maior da América Latina , e à compreensão da parte das elites de que isto não é possível sem incluir toda a gente , melhorar a educação , a saúde , a segurança , as infra estruturas. Os filhos dos meus amigos marinheiros ( todos cholos , claro) têm possibilidades que eles não tiveram e que os seus pais nunca sonharam , e isto , é bom lembrar , deve-se ao capitalismo , digam o que disserem Boaventuras Sousas Santos , Raqueis Varelas e outros doutorados em Negação das Evidências.
 Fui ontem a um desses templos capitalistas , um mall , principalmente a uma loja de ferragens gigante comprar uns materiais para o barco . Como escrevi aí no outro dia , parecem-me iguais em todo o mundo , mas pensando melhor não são. Têm Starbucks ,  Batta ,  Cinnabon , Berska , milhões de lojecas de bugigangas e o diabo a quatro mas não têm uma única livraria, e é essa a diferença entre os centros comerciais gigantes que conheço na Europa e nos EU e nos do antigo terceiro mundo : a nossa globalização consumista não é feita exclusivamente de ecrans planos e roupas de marca, há um espacinho para os livros. Por aqui não , os livros estão excluídos e há que correr muito para encontrar uma livraria .É do que vou à procura agora em Lima , mesmo sendo Domingo.

20.12.13

Calhou mal

Nem com a preparação psicológica toda digeri muito bem o resultado final das contas desta viagem, podia naturalmente ter sido pior mas também podia , e devia , ter sido muito melhor. Devo isto à minha inabilidade negocial , à minha relutância em fazer exigências e a um certo excesso de confiança. Houve uma discrepância de 35% entre o que eu achava ser o montante final que me era devido e o que foi , ou vai ser entretanto , finalmente pago . Não havendo contrato nenhum nem pré acordo claro , e já estando o serviço feito , não me restavam grandes alternativas além de bater o pé e dizer que não , coisa que não podia fazer primeiro porque as objecções do patrão eram bastante válidas e lógicas e depois porque , como lhe disse , a consideração e o respeito dele valem muito mais para mim do que dois ou três mil dólares. Ah , és mesmo pato , gostas de ter não só a reputação de um gajo sério e competente como também de um gajo que aceita seja o que for  que lhe quiserem dar . Talvez , não sei. Não me esqueço de que se esta foi a terceira vez que aqui vim foi porque o primeiro me recomendou ao segundo e o segundo me recomendou ao terceiro e sei que não vai parar por aí , os milionários do Peru são cada vez mais e cada vez mais ricos e vai aqui uma competição velada entre quem tem os barcos maiores e melhores , que têm que vir de algum lado. 

O patrão disse-me que não quer deixar o barco no país , coisa que eu percebo muito bem ,  para o ano vai para as Galápagos e a Costa Rica. Perguntou-me o que é que eu achava das potencialidades do barco agora que já o conheço bem , eu disse sem hesitar que este barco pode dar a volta ao Mundo , podemos levá-lo daqui ao Mediterrâneo , às Marquesas ou de volta ao Caribe e tê-lo lá em forma para os cruzeiros que quiser. Já tem isso decidido , disse-me que não há dúvidas de que me vai chamar para todas essas viagens , e acrescentou que as senhoras ( os peruanos também lhes chamam tias) que já tinham navegado com outros skippers , se sentiram muitíssimo seguras e confortáveis comigo , nem se dá por ele e é um cavalheiro , coisa que não aprendi nos mares nem academias por onde andei neste mundo mas ao colo da minha mãe e que não tem preço. 
Assim tenho a certeza de que vou voltar ao Peru e voltar a navegar neste barco , e da próxima vez já me vou defender melhor e pôr um preço justo e fixo nesta competência , experiência e cavalheirismo todo.

 Ainda assim tenho uma certa pena , sobretudo porque mais uma vez estou num país incrível do qual só conheço a capital e o porto principal ( e uma baía e aldeola medonha chamada Bayovar ) , não é que Machu Pichu fizesse parte dos destinos que eu queria mesmo muito ver , mas ainda assim gostava de lá ir , e está aqui tão perto... mas preciso mais de uma máquina de lavar e de uns óculos novos , que juntos saem pelo mesmo  que um fim de semana em Cuzco e uma visita à cidade perdida dos Incas. De qualquer maneira já “conheço” Machu Pichu desde pequenino , tenho uma imaginação fortíssima , a modernidade permite-nos todas as visitas virtuais que quisermos e assim poupo-me a ter que suportar a companhia ou mesmo proximidade dos turistas que descarregam lá todos os dias aos milhares e que me causam alergias e degradam o ambiente em geral.
Além disso Machu Pichu não vai a lado nenhum nem está a ponto de se desmoronar ,talvez um dia lá vá em circunstâncias melhores . Também lamento ter reservado o bilhete de regresso para dia 23 , chegando a Lisboa dia 24 perto da meia noite , mais uma vez estava pessimista , esperava chegar aqui dia 21 e não queria correr , assim calham-me dois dias mais de espera . Fico no barco na ancoragem do Yate Club , onde há uma deferência que me afaga o ânimo , sou um bocado antiquado e ouvir “ a la orden , capitán” dá-me um certo gosto , há aqui muitos marinheiros e empregados que se lembram de mim , há amigos que ainda mal tínhamos amarrado na bóia já estavam a caminho nos seus botes para nos saudar e dar as boas vindas e antigos patrões que fizeram questão de vir até cá para me cumprimentar. Callao é o lar da Marinha Peruana , a sua Academia fica aqui em La Punta , uma vilazinha encantadora , não tenho que gastar nada porque tenho provisões suficientes no barco para estes dias , e eu entretenho-me bem com pouco. Não resultou muito bem desta vez , talvez na próxima corra melhor. Ou não , mas pelo menos sei que vai haver uma próxima.

19.12.13

Expectativas

Na maior parte das coisas sou adepto das baixas expectativas e bastante pessimista por achar que um pessimista corre sempre menos riscos e está sempre melhor preparado que um optimista. 
Acho que uma das piores experiências e emoções humanas é o desapontamento , e se não esperamos grande coisa à partida somos não só muito mais difíceis de desiludir como apreciamos mais os resultados positivos , por os acharmos extraordinários. Vale desde as relações com o sexo oposto aos hábitos económicos , passando pelos resultados desportivos . Sou sportinguista , como tal bastante bem servido por esperar pouco sem por isso amar menos o meu clube , o que quer dizer que não tenho apoplexias nem entro em transe e desespero se passamos anos a fio sem ganhar nada, e fico muito mais satisfeito se vejo o meu clube em primeiro lugar , como agora. 

Nas viagens marítimas quase sempre sigo o mesmo princípio . “Espera o melhor , prepara-te para o pior” , é um axiomazinho muito popular entre marinheiros , soldados e outras ocupações que necessariamente envolvem estratégia e factores fora do controle humano. Eu levo isso a outro nível , não só me preparo o melhor que posso para o pior ( mesmo que se trate apenas de imaginar o pior e pensar no modo de reagir) como espero que o pior aconteça daqui a 20 minutos. É certo que isto causa uma certa ansiedade e revela um certo grau de paranóia que não é das coisas mais saudáveis , mas eu estou aqui para cumprir uma tarefa e concluir um trabalho , não posso procurar a maneira mais relaxada de fazer as coisas mas sim a mais eficiente e segura . 
Quando as coisas correm mesmo mal encolhemos filosoficamente os ombros e seguimos por um dos vários caminhos que já tínhamos delineado , quando correm bem celebramos o sucesso com mais vontade , como extraordinário como já disse atrás. Não sei se isto é recomendável a toda a gente em todas as áreas , para mim funciona muito bem e não vou mudar , pelo menos enquanto a minha actividade profissional implicar lidar com tantos imponderáveis , tantas variáveis externas e tantas forças da Natureza. Por isso desde que se acertou esta descida até ao Peru que olhava com uma certa trepidação para as últimas 800 milhas da viagem , do Ecuador ao porto de Callao , sobretudo pelas duas vezes que já tinha feito a viagem : lenta , fria , desconfortável, muitíssimo exigente do barco e da tripulação. Uma semana contra ventos fortes e frios , a bater com estrondo nas vagas de 2 e 3 metros a cada minuto , por mares cheios de pescadores , armadilhas e linhas , a fazer velocidades confrangedoras , sem portos de abrigo pelo caminho numa costa árida e desolada , uma semana sem ver sol, enfim , aquela viagem em que gostaríamos de trazer todas aquelas pessoas que acham que isto é um vidão.
 Preparei-me , preparei os donos ,a tripulação e o barco , só que me esqueci de um pormenor que não é de somenos : as duas vezes que cá vim foram em Agosto , o pino do Inverno no Sul , esta viagem originalmente estava programada para Julho , e agora estamos em Dezembro. Ah , grande navegador , nem sabe que as condições mudam com as estações nem em que estação anda... às vezes há coisas que nos escapam , só me lembrei que estávamos no Verão quando cheguei ao Ecuador , mas muito melhor do que partir a pensar que vai ser uma viagem sem história e apanhar um pesadelo é chegar mentalizado para o sacrifício e apanhar uma viagem sem história , sem danos , alegre , chegando ao porto 3 dias antes do prazo com o barco impecável e sobras de gasóleo e mantimentos. 
Só refrescava à noite , a corrente estava muito menos forte , tal como o vento ( apesar de serem sempre contra) o sol brilhou quase todos os dias , até apanhámos a lua cheia que não favorece os pescadores e as artes que usam aqui e nos dá noites de vigia mais bonitas e tranquilas . O barco tem todos os confortos e mais alguns (tem quase o triplo da área da minha casa ) , o meu imediato foi simplesmente o melhor que eu podia esperar (voltarei a isso) , enfim , estava à espera de uma tirada difícil e apanhei uma passeiozinho pelo Pacífico Sul, e declaro a minha filosofia validada mais uma vez : espera o pior , que lidas melhor com ele quando acontece e aprecias mais quando não acontece. 
 Tinha um contrato assinado para este trabalho desde Fevereiro ou perto , e recebi metade dele antes de ir para a Florida em Junho . Nesse mês sucederam muitas coisas que invalidaram o contrato. Deixei o barco no fim de Junho comprometido a voltar em Novembro , com um aperto de mão e a garantia “o que precisares , diz-me”. Este aperto de mão não foi dado a selar um valor , foi dado a selar um entendimento , que éramos os dois pessoas sérias com um objectivo comum e que no fim as contas batem todas certo. Estes meses todos depois chego ao fim sem saber ainda quanto vou ganhar. Apresentei as minhas contas e o que acho que é justo tendo em conta o que foi feito , mas sei bem que não só há vários entendimentos possíveis de certos valores e itens como também sei que os milionários não ficam milionários a pagar toda e qualquer conta que lhes apresentem sem a analisar bem e a tentar reduzir ao máximo , e que é natural regatearem num salário o que gastam num jantar.É a natureza das coisas.
Mais uma vez espero o pior e não são os abraços e elogios que vão ditar o pagamento , amigos amigos negócios à parte , eu não sou grande coisa a negociar e detesto reclamar pagamentos . Sei que vou sair daqui com algum dinheiro , mas ainda não sei quanto , pode ser a diferença entre voltar à ilha e poder fazer um investimento crucial para o meu projecto e começar a trabalhar nele com alguma tranquilidade ou voltar à ilha ,pagar umas contas e começar à procura de outro barco . 
Se o meu cão falasse dizia-me que não pode continuar a viver assim , e eu próprio estou mais do que saturado de incerteza , mas se há alternativa eu não a vejo em lado nenhum. Assim , quando amanhã  falar com o patrão sobre contas e pagamentos, posso encolher os ombros e seguir a minha vida como espero por o resultado ter sido o que esperava ou dar saltos de contente  porque afinal de contas as coisas correram-me bem.

2 episódios

Antes de falar sobre a rota do Peru e o que aqui encontrei quero contar duas histórias que achei muitíssimo caricatas e que sem dúvida figuram no filme que eu vou fazendo . 
 A primeira passou-se na cidade do Panamá .No mesmo dia em que acabámos o trânsito do Canal os donos e convidados desembarcaram direitos ao hotel mas eu fiquei com os passaportes todos , tinha que ir tratar das formalidades e precisava deles. Combinámos à uma da tarde do dia seguinte no Marryot para lhos entregar . No dia seguinte depois de tratada da papelada , taxas , carimbos , cópias e o diabo a quatro lá me meti num taxi para o Marryot . O patrão e o amigo tinham ido ver cavalos e as senhoras tinham-se ido dedicar às compras no centro comercial ao lado do hotel. À uma menos cinco entrei no atrio , debaixo dos olhares desconfiados de porteiros , recepcionistas e outros hóspedes. Desconfiados porque nunca ninguém me há-de descrever como um gajo bem arranjado , é raro barbear-me , as minhas roupas não são lavadas com a regularidade que seria se calhar recomendável em sociedade moderna , nunca , mas nunca são passadas a ferro e a maior parte das vezes quando não são gastas e amarrotadas são couture chinoise . Não é propriamente uma opcção de estilo, é mais porque o dinheiro não chega para tudo e eu tenho as minhas prioridades. Não sou nem de perto nem de longe o hóspede tipo do Marryot mas entro lá como se fosse , pelo que as pessoas olharam , em particular dois homens de negócios americanos . Perguntei pela sra. Tal, ligaram para o quarto , não estava , sentei-me à espera debaixo do olhar vigilante do segurança. Minutos depois da uma entram as quatro senhoras , arranjadíssimas , carregadas de sacos de compras , cumprimentam-me com beijinhos e muitos sorrisos , eu tiro do bolso dos calções um ziploc com seis passaportes , entrego-lhos e despeço-me , vemo-nos em Lima! A expressão no rosto dos americanos e do segurança só por si valeu-me o dia , não faço ideia do que terão pensado aquelas pessoas perante uma cena tão insólita. 

 O segundo episódio foi em La Libertad , no supermercado. Tínhamos já o carrinho cheio , passei por uma das estantes com revistas ao pé da caixa e peguei numa. É uma espécie de hábito antes de partir em viagem , quando faço as compras , comprar uma “revista para homens” quando há . Faz bem à moral , distrai e dá outro assunto de conversa e pomos o poster das páginas centrais nalguma parte  do barco para alegrar o ambiente . Esta estava embrulhada em plástico , a capa era uma moçoila cheia de saúde numa pose sugestiva trajada com uma espécie de fato de banho de renda reduzidíssimo , e a primeira letra do nome da revista era um M , que me pareceu idêntico ao da Maxim ou Maxmen , publicações que  costumam cumprir bem a função. Só quando cheguei ao barco é que vi que afinal não era , e ainda me estou a rir . Imaginem se conseguirem três gajos estrangeiros de aspecto “duro” , a comprar uma carga de comida para um barco , a pagar com notas de cem dólares e a confirmar a identidade com o passaporte e cara de mau , uns verdadeiros aventureiros , e o último item do carro de compras era o equivalente local da Máxima ou Marie Claire.

12.12.13

La Libertad

Acabei por ir a La Libertad e fiquei contente por ver que em 5 anos as coisas afinal melhoraram bastante. A principal mudança é o alcatrão , substância que em Portugal foi muito desvalorizada quando a UE nos permitiu finalmente pavimentar decentemente as ruas e estradas. A "loucura do alcatrão e betão" dos governos do Cavaco , criticada especialmente pelas pessoas às quais nunca faltou cimento bem acabado nem ruas pavimentadas.
Então La Libertad não só tem um ar muitíssimo melhor por já não ter ruas de terra batida como já se notam buracos para saneamento básico e alguns ajardinamentos e semáforos que tornam o trânsito menos caótico. Fomos a um supermercado num centro comercial ( igual aos centros comerciais de todo o mundo , é das coisas que me faz mais confusão, são sempre , sempre iguais) , repleto de gente com febre consumista do Natal, este ano ando isento por estar nos trópicos e sem comunicação social para me zumbir aos ouvidos.

De resto a paragem não chega a 24 horas pelo que não há assim muito mais impressões .Não é meu habito mas deixo aqui um vídeo da minha última "descoberta" , um monstro chamado Willie Colon , quando ando por aqui chego-me mais às salsas e rumbas e tal , gosto muito desta canção e queria arranjar um chapéu como o que ele usa no vídeo. 

Ecuador

Cheguei a Puerto Lucia antes do que estimava porque esta manhã decidi aproveitar o mar chão da Baía de Salinas e dar-lhe mango com os dois motores às 2500 , fazíamos 9 nós . Foi para evitar entrar de noite e porque por volta das 500 horas é bom rodar os motores a alta rotação , limpar-lhe as entranhas. Isso e porque o preço do gasóleo não me  afecta nada e ainda havia bastante.
Além do vento e da corrente serem sempre contra e de começar a estar frio o pior desta perna da viagem foram  os pescadores que favorecem  técnicas stealth , espalham milhas de linhas com anzóis e sem luz  , Às vezes a 30 milhas da costa , e tendem a só ligar as luzes das lanchas  quando lhes estamos quase a passar por cima. É um autêntico bloqueio da costa ,  faz com que os quartos de vigia sejam trabalho sério e às vezes faz rogar pragas  aos pescadores. À noite claro que é muito pior, e estou-me sempre a lembrar que a maneira lógica de fazer esta viagem é ir primeiro às Galápagos ou mais oeste ainda e depois aproximar de Lima vindo de Noroeste , mas há sempre os horários e os prazos e gente para a qual uma ou duas toneladas de gasóleo não fazem diferença nenhuma.

Estive aqui em 2008  e sinceramente não tenho grande coisa a acrescentar , excepto que os preços subiram. Talvez  La Libertad não seja a miséria que era em 2008 , não faço conta de ir lá ver. O yate club continua a cobrar preços de Palm Beach por um escombro sem condições de espécie nenhuma onde levámos uma hora a amarrar com um módico de segurança , com âncora fora e tudo. Não tenho nada contra as marinas velhas e manhosas , agora não me lixem , os preços têm que corresponder , especialmente num ermo como este.

Já veio a agente , a polícia e a marinha , assinei 27 páginas ( contei-as) , felizmente já preenchidas pelo agente , e maravilho-me sempre com o nível de idiotia burocrática altíssimo que faz com que um veleiro particular tenha que preencher os mesmos formulários que um porta contentores. E já agora , se me vão continuar a mandar agentes da alfândega a bordo , ao menos que façam alguma coisa , dêm uma vista de olhos , façam de conta que se interessam, uma perguntinha que seja. Na Europa e nos EU se a alfândega sobe a bordo é porque tem um assunto a tratar , a sério. Nem sempre acontece. Aqui acontece sempre mas é só mesmo uma presença e a esperança de uma gorjeta.

Estamos então pendentes da tal tonelada de gasóleo ( 450 galões , mais exactamente  quase duas) para amanhã , e ala que se faz tarde. Espero chegar a Callao dia 20. Desde que chegue a 22 está tudo bem. Ahí , no mas.


6.12.13

O Canal

Sendo esta a 6ª vez que aqui passo é natural que já tenha aí referido que esta que para mim é a maior obra da engenharia feita pelo Homem. As Pirâmides , sejam egípcias , maias ou extraterrestres , são muito impressionantes mas só têm utilidade mística e religiosa , ou seja , não têm grande utilidade. Há grandes edifícios e pontes mas não conheço no Mundo nada que se compare a isto em  escala e  importância , uma obra que faz 100 anos para o ano , que ligou os dois maiores Oceanos da Terra e de caminho criou um país . Há imensa informação na página oficial da do Canal e na wikipedia , aqui há uns anos li um calhamaço chamado The Path Between the Seas , já tinha uma idea boa disto mas fiquei assoberbado com a história .

"Há montanhas mas também há mãos , e para o Rei de Espanha poucas coisas são impossíveis" , dizia em 1534 um padre que estudou a viabilidade de um canal e que como padre podia dizer estas coisas porque as mãos que deviam mover as tais montanhas nunca seriam as próprias. Não é preciso ser navegador nem geógrafo para olhar para um mapa e ver imediatamente a importância e revolução que adviria de poder navegar através do istmo . Entre a vontade do padre de pôr escravos a cavar para o rei de Espanha e um plano concreto passaram 300 anos , chegou um francês chamado Lesseps e declarou que ia fazer um Canal. Este senhor tinha supervisionado a construção do Canal do Suez e estava cheio da própria importância . Ora o Suez é uma mera vala no deserto ( sei porque já lá passei) , enquanto que aqui as condições eram  outras . O francês criou uma companhia , veio cá com grande pompa como se já estivesse praticamente feito e nem sequer visitou os terrenos onde queria fazer o canal, a Colômbia     ( da qual o istmo era um província) deu-lhe a concessão exclusiva , a companhia angariou milhões de investidores e propunha-se fazer um canal a nível , ou seja , uma vala como tinha resultado no Suez. Torraram-se milhões , o sr. Lesseps administrou a sua empresa caóticamente ,enterrou no Panamá  o equivalente a 285 milhões de dólares e morreram 20 mil pessoas numa  construção  que não chegou a lado nenhum, mais do que qualquer outro projecto humano exceptuando guerras.Hoje o sr de Lesseps é lembrado pela sua vala pelo deserto , o falhanço miserável no Panamá é desvalorizado , c´est comme ça chez les français...Houve mais tarde uma segunda tentativa francesa , desta vez perceberam que tinham que ter eclusas e desníveis , mas não conseguiram financiamento. Entram os Estados Unidos , país que tendo costas nos dois oceanos e sendo potência mundial emergente era o principal interessado num canal entre o Atlântico e o Pacífico. Compraram os direitos e o equipamento da segunda companhia francesa e em 1903 Roosevelt estava decidido a construir o Canal. Os Colombianos revelaram-se difíceis , gananciosos e incompetentes nas negociações e apareceu depressa uma "comissão" de cidadãos notáveis da província do Panama entusiasmadíssimos com a ideia de se tornarem um país , e o resto é história.
Os gringos arregaçaram as mangas e vieram para aqui , em 10 anos gastaram 400 milhões de dólares e o trabalho de mais de 75 mil pessoas . Um trabalho a uma escala nunca previamente sequer tentada , até o último prego teve que vir dos EU , a necessidade de construir vilas inteiras , o desafio vencido de controlar a malária , escavações gigantescas  no meio da selva , a criação do maior lago articial do mundo e das eclusas massivas que ainda hoje operam 24 horas por dia.Foi completado abaixo do custo estimado , mais cedo do que projectado e sem sequer uma suspeita de corrupção. Em 1999 os americanos entregaram o Canal ao Panamá , e hoje cá segue em ampliações , passam  cerca de 40 navios por dia a cerca de 300 mil USd por passagem , emprega 10 mil panamenhos e presta ao comércio mundial  um serviço inestimável.os maiores navios do mundo são construídos para caberem à justa nas eclusas e agora projectam-se já os panamax2 , mastodontes dos mares que vão ter mais de 40 metros de boca e vão passar nas novas eclusas, que deviam estar prontas para o ano no centenário do Canal mas com sorte lá para 2018.

A nossa passagem foi sem grande história , subimos e descemos as eclusas com um Halberg Rassy 52 de braço dado ,  pelo que tive que manobrar mais de 40 toneladas e uma boca de uns 12 metros mas correu tudo bem. Os patrões e convidados saíram do barco ontem e nós zarpamos hoje direitos a Salinas , Ecuador , onde espero chegar em 6 diazinhos , não há vento mas tenho mais de uma tonelada de gasóleo, echa pa'lante y da-le mango...







5.12.13

Portobello



Portobello é dos maiores e melhores portos naturais da América Central e não foi ao acaso que os Espanhóis o escolheram para ser o centro dos transbordos e cargas da prata e ouro  roubadas aos índígenas a partir do século XVII. O saque vinha dos Andes em mulas , atravessava o istmo e aqui era contado e carregado nos galeões castelhanos uma vez por ano , e zarpavam para Sevilha.

Isto tirava o sono a todos os piratas do mundo , que sonhavam antes de todo o mais com expedições de rapina à Spanish Main , como chamavam a esta parte do mundo nesse tempo.Este porto viu  batalhas e ataques sem fim , os mais famosos foram o cerco do pirata Henry Morgan que em 1668 chegou ao porto com 500  piratas e 10 barcos  e apesar das fortificações tomou o porto e saqueou-o durante 14 dias. Não foi o único , e houve dezenas de ataques , uns fracassados outros de sucesso . A famosa Portobello Road em Londres foi baptizada assim em honra de uma vitória e um saque da cidade que produziu um espólio até então raramente visto.
Com o fim da colonização e saque dos Espanhóis Portobello depressa reverteu ao que é hoje , uma aldeola suja  e decrépita onde parece que as últimas pessoas a abrir um balde de tinta e pegar numa trincha ou a pregar uns pregos foram os espanhóis .

Passei aqui o ano de 2010 para 2011 , curiosamente sem descer a terra , primeiro porque não tinha bote e depois porque desconfiava muito dos indígenas e sobretudo de mim próprio à solta no Panamá numa passagem de ano e sem ter declarado a chegada à imigração nem meios de voltar ao barco rapidamente. Desta vez estava determinado a conhecer o sítio, e estava programado no cruzeiro dormir em Portobello na noite antes de cruzar o Canal. Cheguei e ancorei à hora que tinha previsto, desci a terra numa lancha à procura de internet e de uma t-shirt por já não ter nada lavado  . Os patrões estavam desejosos de descer a terra , ver a cidade histórica e jantar num restaurante , estavam encantados com a baía , viam-se as igrejas , a alfândega e as ruínas dos fortes, e ficaram espantados quando me viram regressar a bordo depois de nem meia hora em terra. Vim depressa porque aquilo não tinha realmente nada que ver que eu não visse melhor do barco, eles desceram todos numa lancha e eu fui-me deitar na vela , a descomprimir , a pensar que íamos ter o resto da tarde de descanso . Regressaram passado nem uma hora , um bocado pálidos e nervosos , a concordarem comigo que aquilo está muito mal cuidado , para dizer o mínimo ,  está cheio de gandulagem e não tem um sítio decente para jantar. Tudo verdade.

  No fundeadouro ao nosso lado estava um barco de pesca colombiano cuja marinhagem não tirava os olhos de nós e parecia que a qualquer momento se iam deitar ao mar de faca nos dentes para nos abordar. As lanchas passavam para trás e para a frente a grande velocidade a fazer tudo balançar na ancoragem. O chefe chamou-me e disse "Jorge , não queremos ficar aqui , o que achas de ir já esta noite dormir a Shelter Bay?" ."É para já" , que é a resposta que todos os patrões gostam de ouvir , e em 5 minutos zarpámos a todo o gás ( dá-le mango , pués , a minha expressão favorita do momento) e passadas 4 horas estávamos a atravessar a entrada do Porto de Colon e a chegar à marina sem  problemas nem nervos de maior , excepto que a dada altura tive que pedir ao patrão que se calasse , porque sempre que há uma situação qualquer ele gosta de estar ao meu lado a fazer-me perguntas , está no seu pleno direito mas às vezes enerva-me e desta vez tive que lhe dizer  eu não sou capaz de fazer isto e explicar o que estou a fazer ao mesmo tempo , não dá , ele percebeu bem e não só se calou como mandou calar toda a gente. Muitas vezes nesta viagem me apeteceu dar um berro assim à Jack Aubrey ,  silence fore and aft! decididamente espero que viajar com donos e convidados não se torne uma rotina.

 Aqui está um vídeo panorâmico da baía



San Blas e tal

Passei meia hora a tentar por estas fotos organizadas e ao pé do texto que se lhes refere mas transcende as minhas perícias e desisti , por isso aqui estão umas fotos e logo a seguir está o texto











Ao nascer do Sol estávamos a caminho de San Blas e em frente a Colon , decidi entrar para atestar os tanques.Às 8 da matina estava frente à marina a chamá-los pela rádio , disseram-me que levava 3 horas , mesmo assim valia a pena a espera e o patrão achou excelente ideia , íamos pasar 4 dias num arquipélago em que há pouco ou nada em termos de facilidades logísticas. Acabámos por passar lá 5 horas e saímos sem gasóleo porque havia obras e o imbecil do dockmaster não me soube dizer o que devia a tempo. Ele não gosta de mim e o sentimento é mútuo , da parte dele porque não lhe dei a gorjeta que ele está habituado a receber de barcos assim e se calhar porque eu não uso o uniforme oficial dos skippers de iates de luxo , o ubíquo polo branco com o calçãozinho caqui . Ele deve-me achar estranho demais para merecer o respeito devido a um capitão , mas está longe de ser grave , com atitudes arrogantes de inferiores posso eu muitíssimo bem, porque me rio , especialmente quando ele , americano nos seus 50 e tal , passa com a sua esposa panamiana dos seus 20 , alheio ao ridículo do quadro .

 Saí de Shelter Bay numa furia , sem gasóleo e com menos 5 horas , direito a uma marina que descobrimos ter gasóleo , a 35 milhas contra vento e corrente mas no caminho de San Blas . Apesar dos esforços aproximámo-nos dessa marina já noite cerrada , o acesso não tem nenhum marca iluminada , fica entre dois recifes de coral e faz uma curva. A carta de navegação era essa que se vê aí e sopravam 25 nós , o que pelo menos levantava bem a rebentação nos recifes , coisa que ajuda muito a localizá-los quando não se vê nada. Foi um dos meus melhores momentos e talvez a melhor entrada de sempre . 
O entusiasmo , dos passageiros e do público que se juntou na praia ao ver o barco aproximar-se , foi quase até ao aplauso . Aquela marina existe há três anos e nunca ninguém tinha entrado de noite , muito menos um catamaran de 9 metros de boca 19 de comprimento. Passei com menos de dois metros de cada lado do recife ( que não via mas ouvia ) e um metro e meio debaixo das quilhas , era a distância que me faria ir de bestial a besta . Se me tem derivado metro e meio para estibordo ou se tenho rodado o leme 3 segundos mais tarde tinha sido um inconsciente , um idiota exibicionista e incompetente por todas as razões válidas que tinha para evitar aquela manobra, e o responsável por trancar um barco de 1, 8 milhões num recife com 11 pessoas a bordo . Como passou fui um herói. A vida é engraçada. 

-Foi muito impressionante , a manobra . De onde é que és? - perguntou o dockmaster
- Sou Português , para nós é mais fácil – disse eu meio a brincar. 
Foi por fazer números destes sem medo , ou com medo controlado , que os Portugueses chegaram onde chegaram a navegar , e ainda hoje é um bocado parte do nosso estilo , se assim podemos dizer . O problema é que às vezes corre mal ,ao passo que os que fazem sempre tudo a tempo e conscienciosamente pelo livro quase não arriscam desastres, pelo que não sei se o saldo final é positivo. Lembremo-nos sempre que uns 95% dos acidentes no mar são erro humano. 
De qualquer maneira passei um bocado a aquecer-me com os elogios e admiração e depois fui-me embriagar para o bar na praia onde não estava mais ninguém , a olhar para o recife , a falar de política com a gorda da caixa que era venezuelana e a fazer festas a um cão chamado Pascoal que se veio deitar aos meus pés. 

Na manhã seguinte zarpámos para o Arquipélago de San Blas , um arquipélago habitado e governado pela tribo Kuna Yala , de uns 50 mil membros . Como todos os indígenas das Américas, sofreram bastante , às mãos uns dos outros e depois às mãos dos Europeus . Hoje os Kunas são das poucas tribos que tem um nível decente de autonomia e independência e um território que não está ameaçado , desgraçado nem condenado , têm um equilíbrio num sítio lindíssimo e podem viver aqui mais 500 anos descansados e nas mesmas condições , partindo do princípio que não querem ter nada a ver com o século XXI , como agora. Vivem dos cocos , que exportam para a Colombia com mais uns peixes e do artesanato que vendem aos turistas , 90% dos quais chegam em veleiros e deixam sempre uns dólares na economia. São águas de navegação muito difícil , semeadas de baixos e recifes e mesmo as cartas eletrónicas caríssimas que tenho a bordo têm erros e discrepâncias . Antes do GPS só os malucos e os muito bons é que se aventuravam por cá , pelo que o GPS para os índios resultou bem , tal como os motores fora de borda. Têm a sua língua , os seus costumes e leis ,a sorte de não haver aqui nada de valioso além da paisagem , e rejeitam liminarmente qualquer interferência de estrangeiros. Os Kunas só se casam com outros Kunas sob pena de serem banidos , aos estrangeiros é proibído comprar propriedade nas ilhas ou mesmo alugar, e não toleram interferências que vão para além das visitas , nem sequer das infernais ONGs que têm sempre a mania que sabem melhor . Acho que fazem muitíssimo bem e é a única maneira de preservarem a sua identidade e independência , mesmo fazendo parte do Panama e vivendo no que por padrões ocidentais é miséria  . Está aqui um excelente exemplo para os apóstolos da Vida Simples , do Paraíso Perdido e da Harmonia Ecológica : é bem possível , mas implica indigência .

 Andámos 3 dias pelos cayos e fundeadouros , iam fazendo snorkel e nadando , banhos de sol , praia , grandes quantidades de álcool , churrascos , enfim , passaram umas férias do caraças , e eu tenho a distinção de ter passado quase 4 dias neste arquipélago do outro mundo sem ter posto o pé em terra , ou melhor , fui uma vez , por uma hora , para ir fazer os trâmites à capitania e tirar o “zarpe” , a autorização de largar daqui para o Canal. Não me faz diferença , chateia-me muito mais ter que andar sempre de t-shirt porque uma das coisas que me agrada nestas latitudes é poder viver de calções e mais nada . Fomos um dia a um dos cayos principais levar o filho do dono e sua mulher ao aeroportozito , desta vez foi um helicóptero que os veio buscar. Depois íamos para outra ilhota , que ficava a 12 milhas. Perguntei se queriam ir à vela ou a motor , sendo que à vela ia demorar o dobro do tempo por exigir uns quantos bordos. À vela , pois! , diz o patrão , e eu contentíssimo icei as velas , pus o barco a 8 nós em mar chão , uma coisa linda , e preparei-me para uma recompensazinha pessoal , uma tarde de vela pura no golfo de San Blas , coisa que não é para todos. Passados 3 minutos vierem-me perguntar para onde é que ia , se o cayo para onde íamos ficava para ali e nós estávamos a aproar para acoli. Fiz-lhe ver de que lado soprava o vento e a a volta que tínhamos que dar para lá chegar. Passado um quarto de hora veio-me pedir para arriar as velas e meter máquina porque queriam chegar cedo. Sim senhor , é para já. É assim .

3.12.13

Costa abajo , costa arriba

Em Bocas del Toro conheci pessoalmente , finalmente , um português da minha idade , leitor deste blog há muitos anos e com quem tinha trocado uns emails sobre coisas de barcos. Não sei o que é fazia antes mas lançou-se na aventura marítima , e está mais ou menos encravado no Panamá , responsável por um catamaran de 54 pés , a situação está um bocado longe de ser ideal mas também não é um beco sem saída , e estou convencido de que vai prosseguir na carreira . Disse-me que era a mim que devia ter mudado de vida e embarcado nesta carreira , e dado que me parecia satisfeito com a mudança e confiante no futuro tomei aquilo como um elogio considerável. Nunca queremos ouvir ninguém dizer “estou na merda e tudo por tua culpa” , mas se nos dizem “fui atrás dos meus sonhos por causa de ti ” uma pessoa sente-se bem , é bom saber que fizemos uma diferença para melhor na vida de alguém , especialmente quando é algum que nunca vimos nem conhecemos de lado nenhum. Bom , agora conhecemo-nos , e é muito provável que nos voltemos a cruzar. Cozinhou um arroz de polvo e passámos o serão no barco dele a beber umas e outras e a contar histórias até se fazer tarde para mim , que tinha que zarpar cedo e em forma . Quando somos só nós e a tripulação podemos bem zarpar com uma ressaca atroz e o aspecto correspondente mas com estas pessoas não dá. 

 Fomos outra vez à cidade de Bocas del Toro , que só pode ser descrita como uma cidadezinha caribenha. Claro que para quem não conhece o Caribe isto diz pouco , para quem conhece , bom , para mim são seis de um por meia dúzia de outro , vista uma viram-se todas. Quase todas. O que me chamou mais a atenção , tal como em todas as cidades e vilas caribenhas que eu conheço , foi o lixo. Esta rapaziada por alguma razão não consegue fazer a ligação entre viver do turismo e manter as ruas limpas , há um bloqueio qualquer. Ora eu vivo numa ilha e num arquipélago que não vive exclusivamente do turismo mas que mesmo assim mantemos como um jardim , as ruas , as valetas , as estradas , os trilhos. Não só o estado investe na limpeza como as pessoas têm orgulho em ter as coisas limpinhas e arranjadas, as suas e as que são de todos . Por esta parte do mundo não é considerado fundamental , e também estranho porque há quantidades de gajos a coçar a micose nas esquinas que podiam bem ser empregues a limpar aquilo . Eu sei , varredor de ruas paga pouco , dá trabalho e é pouco dignificante aos olhos da maioria das pessoas , aos meus não porque dou muito valor a ruas limpas , mas estranho que quem manda , porque mal ou bem alguém manda ali , não se aperceba do problema nem faça nada para o resolver. 

 Tem em abundância outra coisa que as restantes ilhas quase não têm , que são backpackers , ou mochileiros , uma espécie com a qual eu tenho uma embirração solene e muito criticável, mas não posso fazer nada. São os meninos ricos e de classe média , de férias , que se baldam um ano aos estudos ou que vivem dos papás ( ou do subsídio de desemprego no caso dos europeus do norte , coisa que ainda me dá mais urticária) e depois pegam nas mochilas e vão fazer turismo . Andam por aqui a brincar aos pobrezinhos  , como dizia a outra vaca. Claro que há excepções , gente que trabalha e poupa para viajar um mês por ano , mas são raríssmas quanto mais não seja porque há poucos trabalhos que permitam assim sair um ou dois meses e voltar a pegar ao serviço. E há ainda uma fracção deles que são vagabundos genuínos que vivem de esquemas , são para mim os menos objeccionáveis , mas muitas vezes ainda mais chatos que a variedade comum. Há poucos nas ilhas do Caribe porque não só é caro lá chegar como as ilhas não querem lá essa gente que regateia para comprar uma coca cola e ficam bem a partilhar um quarto com 8 . Não lhes chamem “turistas” , que se agastam. “Sou um viajante”. Está bem , mas a definição de turista é, do dicionário : “Pessoa que viaja por diversão ou prazer dentro ou fora do país” , que é obviamente do que se trata , mas moem-nos a cabeça e fazem ginástica para nos tentar convencer de que não são turistas.  Vestem-se todos da mesma maneira e passam muito trabalho e tempo a produzir aquele visual de quem não se importa nada. Mandam umas frases na língua local muito confiantes e vaidosos , mesmo quando não sabem o suficiente para ter uma conversa. São todos Amigos da Terra , ecológicos e tradicionalistas , e claro que estão todos ligadíssimos às últimas tecnologias , e mais para mac do que para PC , porque é sabido que apesar de protestarem que não ,  só gente com dinheiro é que pode pegar na mochila e ir passear dois meses. Dantes para os encontrar bastava entrar no cybercafé mais próximo , agora levam os seus iphones para as praias das Honduras ou as montanhas da Turquia , para entrarem em contacto com o seu Eu e imediatamente comunicarem ao mundo o que acharam . Conseguem atravessar países inteiros sem perceber nada do que se passa e  têm sempre aquele ar de aventureiro intrépido , excepto quando têm o ar de passarinho desorientado. Têm listas de sítios e percursos , o Lonely Planet é a bíblia do viajante independente que depende do mesmo livro lido por milhões e dizem coisas tipo “já fiz o Ecuador e a Bolívia”. Vão fazendo países. Nunca nenhum me deu uma resposta clara e honesta às perguntinhas tão simples e banais “de onde é que és” , “o que é que fazes na vida” e “para onde é que vais”. Podem ser estudantes do Ohio a gozar um mês de férias a ver Moçambique mas embrulham sempre tudo num discurso ensaiado de origens dispersas , actividades incertas , residência vaga , futuro livre e desconhecido, é gente livre ao sabor do destino , pelo menos até ao mês que vem. 

E depois há o Gajo da Viola. Há sempre um gajo que , conhecedor do facto demonstrado que é mais fácil engatar gajas se tocarmos algum instrumento , leva-o nas suas viagens. O repertório anda sempre na zona do Hotel California e outros clássicos massacrados sem dó nem piedade nas raríssimas vezes em que são interpretados inteiros , porque o Gajo da Viola passa mais tempo a dedilhar notas soltas numa esplanada com ar sonhador , à espera que passem as gajas , do que a tocar canções . Nunca se vê o Gajo da Viola a tocar se estão quatro gajos a beber cerveja ou a fumar ganzas , mas deixem lá entrar as duas israelitas boas e lá sai imediatamente a viola do saco. Ninguém que toque viola a sério a leva atrás se vai de férias ou de passeio , porque é uma regra dos viajantes sérios e menos sérios : leva o mínimo possível , e em viagem podem fazer-te falta muitas coisas mas uma viola não é certamente uma delas. Já tive pelo menos dois tripulantes que traziam o raio da viola , e é certo e sabido que as raríssimas vezes em que as tiraram do saco o resultado deixava bem claro que não , não sabiam tocar e como tal deviam abster-se de o fazer em público. Mas não , em qualquer hostel concorrido há sempre um Gajo da Viola. 

 Deixámos Bocas del Toro e tive um vento decente , ainda que o barco não seja grande velejador , nem com os 190m2 de pano que tem. Parámos em mais um calhau de coral cheio de coqueiros , que cada vez mais me parecem todos iguais , para uns mergulhos e tal , e de lá zarpámos à vela para fazer 130 milhas . Passada uma hora íamos a 8 nós com o vento e o mar de través , as condições quase ideais para este barco , estava toda a gente encantada e eu próprio bastante satisfeito. O patrão perguntou-me se haveria alguma coisa que pudesse ser feita para ir mais depressa , eu disse que naturalmente não há falta de marinheiros que saibam mais do que eu e vários conseguiriam tirar dali 9 nós , mas da minha parte não dava para mais . Qualquer skipper que tenha feito regatas , mesmo sem ganhar nenhuma , sabe mais do que eu sobre afinações finas do velame , coisa que nunca me fascinou , nem entusiasmou muito , mesmo que às vezes significasse entrar num porto um dia mais cedo. A razão principal para isso é que para tirar o máximo de um barco há que ter hábito , rotina e conhecimento, e eu no máximo e por força das circunstâncias nunca passo mais de um ou dois meses no mesmo barco. Se fosse o skipper permanente de um barco aí sim , havia de saber espremer-lhe todas as décimas de nó em todas as mareações , assim sei bem quando é o bastante e não vale a pena chatear-me mais. 

Entrámos em Shelter Bay , onde escrevi o último post e depois seguimos para San Blas , isto anda aqui uma certa discrepância temporal mas espero que vá fazendo sentido. Hoje dia 3 cruzamos para o Pacífico , mas ainda há um ou dois posts antes de falar disso.

28.11.13

Bocas del Toro

Na marina que serve Colon , um enclave remoto que era uma base americana e que hoje além da marina tem um base militar panamenha  , terminámos a manutenção toda , não havia grande reparações , o único dano da viagem de 7 dias para cá foram dois cabos de rizos que se esgaçaram e partiram , o mais difícil é re-passá-los por dentro da retranca mas não é muito complicado. Mais demorada foi a manutenção dos motores , que são novos , como tal estão dentro da garantia e em princípio o serviço regular das 500 horas tem que ser feito por técnicos autorizados . Em Tortola pediram-me $1800 para fazer os dois motores , eu revirei os olhos e não os mandei ir roubar para a estrada mas foi quase , e disse ao patrão que tínhamos margem para chegar ao Panama e fazê-lo mais barato. Só porque o dinheiro é dele e há bastante não há que o gastar à toa. No Panamá os representantes pediram-me $1500 pelo mesmo serviço (incluindo os materiais , a maior parte do custo) mas depois não podiam vir antes de 3 dias. Como tínhamos ( e ainda temos) todos os filtros , correias , roletas , óleos e ferramentas a bordo, disse o chefe que o fazíamos nós e pronto, não espero que nas contas finais o patrão se lembre de que lhe poupei pelo menos $500 e lhe dei 4 horas extraordinárias enfiado nas casas das máquinas encharcado em suor e besuntado de óleo , mas lembro-me eu e compensa sempre no fim.Quase sempre.

Zarpei com o imediato para Bocas del Toro com a estranheza do costume dos habitantes da marina , população que geralmente leva 30 dias para avançar 50 milhas e para cada dia de navegação precisa de 8 em terra , por isso  costumam-se  espantar quando vêm um ritmo profissional imprimido à coisa .
Bocas del Toro , um arquipélago panamenho perto da fronteira com a Costa Rica , selva pura . Um sítio lindíssimo que hoje vive só do turismo , a razão que cá me trouxe .
Os donos do barco chegaram em duas “levas” . Gente simpatiquíssima sem nenhum toque de snobismo apesar de serem todos milionários , familiares ou amigos de outros milionários para os quais já trabalhei e que me abstenho de nomear ou referir as indústrias , são pessoas que apreciam a discrição e é sabido que tudo o que escrevemos aqui mais tarde ou mais cedo pode ser encontrado , e pode sê-lo para fins menos bons.
Dá-me gosto conhecer estas pessoas , porque às fontes “comuns” como livros de História e jornais e revistas do país junto as opiniões , ideias e raciocínios da oligarquia e depois como ainda passo muito mais tempo , convivo e partilho mais com os marinheiros , que estão na base da pirâmide , fico com um retrato aceitável do país e das pessoas . Da última vez que lá estive ofereceram-me um telefone xpto para usar na estadia ( que deixei cair à àgua) , e puseram-me um carro e motorista às ordens , mas conheci melhor a capital quando fui jantar e sair à noite com a família do meu imediato , garotos e tudo , num bairro "popular". 

Fomos então ao aeroportozito esperar um jacto particular .  “Assim chegas como um senhor!” disse-me o patrão depois de me dar um abraço , com um sorriso de satisfação completamente infantil no rosto . O avião não é dele , é de um amigo panamenho que  ele visita muito e sabendo que vinha para cá fez questão de lhe emprestar o jacto e o piloto para os trazer da cidade do Panama para aqui . Comentei com o imediato que custou mais a boleia do jacto do que eu e ele ganhamos juntos num ano , num ano bom , e rimo-nos. 
 

O barco está impecável , mas é uma multidão , e sem este imediato e o moço que chegou esta manhã , que já está a ser treinado não só como marujo mas como steward , ou criado como se diz em português arcaico , nunca conseguia realizar este cruzeiro com toda a gente satisfeita . No mundo dos iates de charter ou particulares grandes essas funções são 99% das vezes cumpridas por raparigas , que se chamam stewardesses ou hospedeiras apesar de 80% do seu trabalho é serem empregadas de servir e limpar. 
Lá escolheram as suas praias , as suas ilhas e os seus restaurantes , agora regressámos para Leste , parámos en Colon para meter gasóleo ( isto de ter um gerador a trabalhar 24/7 consome muito), daqui a duas horas vamos para Portobello e de lá para San Blas , que dizem  ser dos sítios mais bonitos deste planeta  espero que compense as 15 horas de trabalho por dia e o peso deste barco e esta gente nos ombros.


23.11.13

Panama

Chegámos ao porto de  Colon na quarta depois de 7 dias de viagem sem  história , estive até à última à espera de um telefonema do chefe a dizer para desviarmos  para Cartagena de Las Índias , na Colombia , que estava na sua lista enorme de possibilidades e desejos e que eu sempre quis ver , mas não aconteceu. É interessante trabalhar para uma pessoa que gosta muito de ter planos flexíveis e não se importa de os mudar à última hora , se bem que às vezes me transtorne um bocado a vida .
O meu terceiro tripulante de Tortola até cá foi um francês que muito convenientemente parecia que estava à minha espera lá , eu estava um bocado apertado sem ninguém a 2 dias da partida mas o  karma resolveu o problema. Encontrei um iphone no meu banco na avioneta de S.Martin para Tortola , eu tenho um telemóvel de €20 , acho o iphone uma máquina fascinante mas muito acima das minhas possibilidades , pelo que vi aquele e meti-o no bolso mas passados 10 segundos chamei a hospedeira e entreguei-lho , não podia ficar com aquilo , e felizmente o dono estava no mesmo avião.
A recompensa chegou duas horas depois com o meu problema mais premente do momento resolvido na forma desse rapaz , bom moço com uma experiênciazinha de vela e encantado por vir de barco para o Panamá , poupei dois bilhetes de avião. 
O rapaz anda empenhado num projecto de 5 anos , dar a volta ao Mundo sem andar de avião. Simpatizo muito com a ideia  e lembrei-me logo de um português de quem ouvi falar há uns anos que tinha ideia semelhante , mas era as Américas de Sul a Norte , da Argentina ao Alaska.. Falei dele neste post , achei muita graça ao tipo ter ido de avião do Ecuador à Guatemala  , revelando enorme capacidade de planeamento,  perserverança e  adaptação , mas esse voo não o impediu de dar entrevistas a dizer que "não prejudicou muito a idea geral da viagem", o que no mínimo é cómico .
Contei essa história a este moço, cujo plano era ir daqui para a Colombia por terra , e depois continuar a descer , e avisei-o que daqui à Colombia era só selva intransitável.ele ficou bastante abalado quando confirmou isso ontem , mas o problema agora é dele , espero que se safe e cumpra os seus desejos , é bom moço e vai arranjar maneira . Sai do barco amanhã porque o patrão  traz-me outro marinheiro para completar a tripulação no resto da viagem , outro que vai ser tripulante permanente deste barco quando eu o entregar no destino.

Já conheço bem esta marina e esta parte do mundo , esta vai ser a sexta vez que cruzo o Canal mas é um percurso original porque amanhã vamos para Bocas del Toro buscar o dono mais família e amigos que vêm para um cruzeiro entre esse arquipélago e o de San Blas , para depois passar para o Pacífico no dia 3 , se não houver novidade. Mas há sempre novidade. 

Temos estado ocupadíssimos a preparar o barco para as 8(!) pessoas que chegam  , agora está pronto , acabámos às 9 e meia da noite depois de imprevistos que já deviam ser previstos e que me impediram de ir mostar Colon à noite aos rapazes com os meus amigos de cá , por um lado foi bom porque essas noites acabam sempre por escorregar para a valeta e assim se poupou dinheiro e se evitaram malfeitorias.

Perdi um dos melhores momentos de sempre da nossa selecção e a confirmação absoluta do génio incontestável do nosso Ronaldo . "O Cristianismo é a religião das pessoas que adoram o Cristiano Ronaldo e tem biliões de membros por todo o mundo". Só vi um resumo de 8 minutos na net mas nunca mais me vou esquecer daquele " EU ESTOU AQUI!" , até me arrepiei.

Vi que houve manif de polícias  e uma subida e subsequente descida das escadas da Assembleia sem mais consequência , para grande pena do Soares e restantes incitadores à violência . Portugal parece que percebeu que não é por aí que se vai lá e que mais vale um país pobre mas inteiro e tranquilo do que um país igualmente pobre com confrontos e disturbios nas ruas. Sabemos bem que basta uma faísca , e todos os dias há essa cáfila de acicatadores raivosos por não mandarem ( e nada mais)  que quer ver o país a arder , mas acho que essa gente não só não nos conhece bem como não pára para pensar e explicar o que é que se faz depois de o governo e/ou o presidente se demitirem no meio de motins e confrontos , como é que isso ajuda o país e quem é que vem a seguir , para fazer o quê. 
Que diabo , se até conseguimos fazer cair uma ditadura sem sangue nem violência , querem estes palhaços que se derrube com violência um governo e presidente eleitos livremente? Ofendem-nos como povo e só mostram a sua ideia muito particular de democracia: é boa quando nos elege a nós , já está podre se elege os nossos inimigos.