8.12.09

Contratacoes de Inverno

'E muito mais facil ser capitao de veleiros do que "director" de uma empresa , por mais pequena que seja , se a levamos a serio. No Mar as unicas pessoas com quem lido sao a tripulacao , que faz o que eu digo e acabou. Em terra ha dezenas de pessoas que temos que servir e agradar , e 'e bem sabido que as pessoas sao muito mais complicadas do que os Elementos.
A Meridian Yacht Services , depois deste ano de cao , esta' a crescer , como tinhamos previsto. Era preciso aguentar ate' o mercado recuperar e estarmos bem posicionados para aproveitar o facto. Acontece que a MYS foi concebida para me permitir ficar em terra e tratar dos assuntos de servico, administracao , manutencao, etc. Acontece igualmente que o plano original foi para Sul e que agora o que eu menos quero 'e ficar em Fort Lauderdale sentado a uma secretaria ou a fazer manutencao em barcos . Tivemos , e ainda temos , muitas ocasioes em que eu e o meu socio estamos os dois no Mar e isso ja nos causou problemas , atrasos e faltas de coordenacao. Temos um empregado informal, um sul africano de passagem , tipo impecavel mas que nao pode guiar os barcos nem lidar com os clientes. O meu socio contratou na minha ausencia e com a minha confianca uma gaja, desculpem a expressao , mais ou menos da minha idade que se apresentou com um grande curriculo , certificados e experiencia mas se metade nao era tanga era perto. Desconfiei logo disso quando a conheci aquando do fiasco do L620 e tive a certeza agora porque va-se la saber porque decidimos dar-lhe outra oportunidade e ela veio comigo e um dos meus marujos a Beaufort , Carolina do Norte , buscar um Lagoon 410 de uma retoma. 'E boa pessoa mas pronto . Ha gente que pensa que so por fazer umas viagens num barco se fica qualificado , e que por ter um licencas e certificados se fica habilitado a ser capitao. Tanto como um puto de 18 anos que tira a carta pode ir ser taxista no dia seguinte. Podem-se passar horas nas salas de aula e ter grandes prestacoes nos exames , mas nao ha nada como realmente....Nao so' sabe pouco ou nada e tem pouca destreza como enjoou assim que saimos do porto . Que um tripulante de primeira viagem enjoe 'e normal, mas que alguem que se chega 'a frente como skipper profissional enjoe 'e ridiculo.
Enquanto estavamos os dois fora (eu e o meu socio) ele deu-lhe um trabalho pequeno para fazer, que so' podia ter corrido pior se tivesse danificado o barco, de resto foi uma vergonha do principio ao fim.Trouxemos agora este 410 para Lauderdale e acho que a vamos mandar 'a vida dela , ja' teve oportunidades que chegue , a nao ser que queira ser secretaria e lavar uns barcos. Continuamos 'a procura de um skipper de confianca e qualidades, e de um contabilista , e pelo menos de marujos estamos bem servidos por uns meses.
Esta viagem de Beaufort para Lauderdale foi boa , o unico problema foi que mesmo antes de sair entalei o indicador esquerdo numa escotilha , ate' uivei , esta preto, inchado e nao mexe. Pelo menos foi o esquerdo. De resto tivemos ventos frescos do quadrante certo , navegacao costeira exigente para fazer o melhor caminho e evitar a Corrente do Golfo , 650 milhas. Ando talvez um bocado entusiasmado demais com isto do profissionalismo e da empresa , descobri que quando temos muito trabalho e nos dedicamos a serio a mente nao deriva para pensamentos nefastos e coisas boas acontecem mais facilmente. Demorou, como dizem no Brasil...
Agora estou afogado em papelada , relatorios , contratos e estimativas , espero no proximo fim de semana finalmente sair com o Lagoon 620 para uns testes e em quinze dias estar a caminho de Annapolis , do frio e de um barquinho para levar para as Ilhas Virgens.


29.11.09

A coisa com o L620 nao correu nada bem, foram dois dias muito longos , nao cheguei a sair da doca , nao foi culpa minha pessoalmente mas foi culpa da minha companhia , na forma da pessoa que o meu socio contratou para gerir aquele barco. O que ja foi culpa minha foi nao ter avisado com antecedencia suficiente os clientes que vinham experimentar o barco , de proposito do Texas no seu aviao particular com bastante familia. Ficaram um bocado agastados , as consequencias , alem da inconveniencia para eles ainda nao sao claras , amanha logo se sabera' mais alguma coisa. Nao estou assim tao preocupado como isso , terca feira 'as 3 da matina estou no aeroporto a caminho de Beaufort , Carolina do Norte , trazer um L41 para aqui e as contas estao equilibradas outra vez.
No sabado logo a seguir ao fiasco fui mudar o banco de baterias num Hunter 46 e logo a seguir ter uma reuniao longa com o meu socio , nao tao longa como precisavamos mas estamos os dois muito ocupados e 'e bom sinal.
Encontramo-no na Borders , assim uma Fnac sem electrodomesticos, cheguei antes dele.'E a beira do canal, estava um belissimo dia , estava mais bem disposto, um dos manda chuvas operacionais da casa mae mandou-me uma linha a dizer "relax". Passei pela cafetaria cheia de mesas e sofas e net a borla e jornais , pedi um latte gigante , peguei na pasta , sorri para umas meninas muito sorridentes , pus os oculos escuros , arranquei na direccao da esplanada e bati directamente numa das janelas ao lado da porta. Pausa. Cafe' por todo o lado. Deram-me outro cafe. Ri-me bastante , mas deve ter sido um riso um bocado estupido....

26.11.09






25.11.09

Em Tortola vi que a minha conta bancaria pessoal estava na sua condicao normal , ligeiramente acima da linha de agua ,mas a da empresa estava na mesma , o que 'nao tem sido comum.Isto deveu-se ao facto do meu socio estar a caminho da ilha partindo de Annapolis e ter tido dias e dias a fio de atrasos em portos caros , por causa do mau tempo. Essas despesas , tal como os ultimos 50% dos contratos , sao extra e sao pagas no fim , e o fim nao estava perto. Gastei o minimo , em mantimentos , esta tripulacao ja esta' tao domesticada e dedicada que faziam o resto da viagem a pao e agua se fosse preciso , e o resto (nao sou adepto de cartoes de credito) nuns miseraveis 150 litros de gasoleo . Sao quase 1200 milhas entre Tortola e Fort Lauderdale , a previsao era de ventos fracos para toda a semana e o gasoleo que tinha dava para umas 350 milhas . La fomos lentamente a tirar o melhor possivel dos zefiros e aragens , ate' quase ao Haiti , mais ou menos meio caminho. O vento nao dava sinais e comecei a ponderar a rota pelo meio das Bahamas em vez do Canal que passa rente ao Norte de Cuba .A distancia 'e quase a mesma , a desvantagem 'e que nao se aproveita a Corrente do Golfo , a vantagem 'e que as brisas predominantes sao de Leste e avanca-se melhor de traves do que 'a popa , perdoem-me os tecnicismos mas nao ha outra maneira de explicar. E depois cortando caminho pelos Bancos das Bahamas ainda se conseguem poupar umas milhas boas. Eu 'e que gosto pouco ou nada de aguas rasas , acho que fiquei traumatizado uma vez que encalhei nas Bermudas e onde a maior parte das pessoas ve aguas limpidas de um turquesa lindo e fundos de coral fascinantes eu vejo perigos e desgracas. Mas 'e o que 'e e la' cortei caminho pelos Bancos , o das Exumas e da Grande Bahama , dois dias por canais e passagens as vezes com menos de um metro debaixo da quilha e recifes aqui e ali , pouco descanso mas bom progresso e nao ha grande problema tendo as cartas nauticas adequadas.

Ontem de manha ancoramos para nadar um bocado ancorados na pontinha de Bimini a ver se o Frank cacava algum peixe como quando fizemos o mesmo a sair das Ilhas Virgens. Pela tarde fomos abordados pela Guarda Costeira a meio da corrente do Golfo , sempre faz as coisas mais interessantes , e entrei em Fort Lauderdale pela noite mesmo 'a frente de uma trovoada tremenda , ja' nos vapores de gasoleo .Amarrei nas docas mesmo ao pe' de casa , e 'a meia noite estava sentado no meu sofa , a caixa do correio cheia de trabalho e a casa transformada em Albergue para a Marinhagem Desvalida.

Ja' comuniquei a chegada as autoridades competentes , o oficial da imigracao foi com a minha cara e historia e concedeu-me a graca inaudita de um ano inteiro de permanencia. Isto 'e importante porque se bem que num mes ou dois devo sair do pais outra vez ,so' me dao cartas de conducao temporarias para o periodo dos meus vistos. e renovar sao $45 de cada vez, mais o transtorno. Assim posso ter uma valida por um ano inteiro , 'e um descanso.

Mil coisas a andar , Sexta feira vou de certa maneira subir de divisao e vou fazer um teste no novo Lagoon620 e terca ja devo estar a caminho de Beaufort , Carolina do Norte para ir buscar uma coisa mais modesta . Ate' la' muito que fazer por aqui.

E entretanto este tal de Carvalhal ou faz com que o Sporting ganhe no Sabado , e com conviccao , ou nunca mais me convence.


16.11.09

Passeio domingueiro


Ontem fomos ao Willy T , uma instituicao das Ilhas Virgens , 'e um barco antigo de uns 30 metros , ancorado em Norman Island e convertido em bar restaurante . O Olaf tambem vinha ( ate' foi ideia dele porque eu queria-lhe fazer ouvir um barulho num dos motores que so se ouve com eles desligados e com o barco em andamento) , e estou sempre 'a procura de dicas . Isso e nao ter que passar o Domingo todo no barco., nao ha dinheiro para alugar carros nem programas assim pelo que Village Cay marina torna-se mortalmente aborrecida em pouco tempo.
Tivemos ventos muito ligeiros mas mesmo assim para la' deu para manter 5 nos e meio em 8 nos de vento. Amarramos na boia mais perto do Willy T e sentamo-nos ao bar , tem um ambiente muito peculiar, as pessoas em ferias sao estranhas. Ao fim de umas horas de estar no meio dos turistas pareceu-nos boa ideia zarpar e sair da baia 'a vela. “So' por exibicionismo” , dizia o Olaf , eu achei bem , a tripulcao estava desertinha.Corria uma aragem e a baia esta' semeada de veleiros ancorados . Icamos a vela grande sem engatar nada, arribei um bocadinho, ganhamos andamento e largamos a amarra. A genoa saiu tambem certinha , o Olaf encarregava-se da escota , passamos entre alguns veleiros a uns respeitaveis 2 nos e meio, passamos o Willy T , viramos de bordo e comecamos a tentar ganhar distancia , mas a brisa que havia vinha principalmente da entrada da baia. E la andamos nisto uma boa meia hora , recebemos aplausos ,bocas , iamos falando com os outros barcos , deslizando , tiravam-nos fotografias , enfim. Exibicionismo. A noite caia , a dada altura ficamos mesmo parados na agua com as velas a pender , e 'e sabido que o vento aqui nao se levanta de noite. Liguei os motores e voltamos a Road Town , ja' meio esquinados , um bocado frustrados pelo insucesso final da manobra mas ganhamos pontos pelo esforco. O Olaf ia-me contando como uma vez afundou um Swan 67 a sair de uma marina em Tenerife ou das vezes mais descabeladas em que ganhou a Heineken Cup de St.Maarten num trimaran que faz confortavelmente 35 nos. Quando cheguei 'a marina ja quase de noite o meu lugar tinha sido ocupado , mas encontramos um vago , estou hoje no terceiro slip diferente, porque quando se anda a borla 'e mesmo assim...
Hoje amanheceu com um temporal desfeito , raios e trovoes e rajadas de 60 nos e chuva torrencial , e refreou-me um bocado o entusiasmo para me ir embora. Ja limpou , ja subi ao topo do mastro para as inspeccoes todas, ja atestei a despensa , mais ou menos , e se o meu tripulante aparecer aqui antes das 4 , zarpamos hoje.As 5 fecha a doca do combustivel, pelo que se ele nao aparecer antes ficamos mais um dia.Nao 'e bom nem mau , antes pelo contrario...

14.11.09

Atracamos em Road Harbour , Tortola ,Ilhas Virgens , 18 dias depois de zarpar de Las Palmas .

Foi de certa maneira uma desilusao porque na primeira semana tivemos ventos frescos de Nordeste e marcamos dias de 200 e mais milhas pelo que me convenci de que ia ser a mais rapida travessia de sempre , mas nao. O barco 'e rapido e tinha gasoleo que me dava para umas 1300 milhas a motor , quase metade da distanca , mas nao ha milagres , e se bem que 'e sempre verdade que eu podia ter feito melhor , o vento nao nos serviu , calculo eu que o Anticiclone dos Acores nao esteve para me fazer favores e subir bem para Norte para abrir caminho aos Aliseos estabelecidos. Nao 'e por nada que ha nesta altura centenas de veleiros em Las Palmas 'a espera da altura ideal para a travessia, Dezembro e Janeiro. Tivemos ventos ligeiros de Leste em vez dos ideais frescos de ENE.Estes barcos em ventos ligeiros 'a popa arrasada e sem spinnakers sao dificeis . Dias e dias de ventos variaveis e fracos moem os nervos porque hora sim hora nao ha que regular as velas e os rumos ,descansa-se e avanca-se pouco.

De resto nao houve novidade , nao houve quebras , nao houve faltas nem grandes atritos sem solucao. Houve um ligeiro erro de calculo no aprovisionamento , as vezes esqueco-me de que um Americano normal come quase por dois Europeus normais , frugalidade 'e conceito desconhecido , sao criados numa cultura de excesso e abundancia , maior e mais 'e sempre melhor e 'as vezes calculo as coisas por baixo , como desta vez, o que fez com que a falta de vento me causasse ainda mais apreensao.

Ainda sobre “frugalidade” farto-me de rir cada vez que leio num jornal alguma coisa sobre a crise que “forcou os Americanos a uma nova frugalidade”. So' se por frugalidade se entender ter quatro cartoes de credito em vez de doze e so' um frigorifico daqueles em que cabe la uma pessoa inteira dentro. Ainda estao para vir as consequencias maiores desta salganhada em que a ganancia , a vaidade e o consumismo desmesurados meteram o mundo todo.

Pescamos um atum e um dorado pequenitos e alguma criatura maior acabou por nos levar a ultima amostra logo no quinto dia pelo que nem peixe fresco para variar a ementa e compor as reservas.

A navegacao astronomica fui uma luta, que eu nao sou muito inclinado matematicamente, mas cheguei a Tortola capaz de determinar a minha latitude com um erro de menos de 4 milhas , uma vez cheguei a um erro de uma milha (so' latitude) e fiquei extatico. 4 milhas pode parecer muito mas em navegacao oceanica chega, se sei a minha posicao num circulo de 4 milhas nao encalho , nao bato em nada e encontro o meu porto. Partindo do principio que sei o que ando a fazer no resto do processo e que tenho as cartas nauticas certas , porque ao contrario do que possa parecer nao 'e so' questao de olhar para as coordenadas no GPS e pronto. Falta-me dominar o calculo da Longitude e depois passar 'as observacoes da Lua e estrelas. Vai demorar tempo e muitas viagens , sao duas coisas que nao me faltam .

Escolhi parar em Tortola por uma questao de economia, aqui posso ancorar porque tenho quem me empreste um bote para descer a terra e posso usar as docas da base de charter da CatCo 'a borla para lavar o barco , atestar a agua e carregar as provisoes. O costume, e tenho a sorte de trabalharem aqui para a Catco dois franceses e um alemao que entre eles sabem mais sobre Lagoons que a propria Lagoon , e em termos gerais ja se esqueceram de mais do que o que sei. Qulquer duvida que eu tenha eles sabem , e' sempre bom poder beber uns copos falar de trabalho com os melhores. Trocar umas historias , se bem que em termos tecnicos sou um menino ao pe deles , tambem tenho uns cromos e rimo-nos sempre , o Mar 'e muito grande e acontecem as coisas mais incriveis quando se anda la muito tempo. E naturalmente , ha as quadrilhices e pontos da situacao da industria.

Este barco aqui, em St.Maarten ou S.Juan pagava uns $150 por noite ,ficanbdo 'a borla compensa bem o preco mais alto das provisoes que vou ter que atestar , tudo carissimo porque nestas ilhas so fazem pao e engarrafam agua , tudo o resto 'e importado.Tambem teem algumas galinhas e cabras , mas a fonte de receita , alem do turismo , sao as manigancias financeiras , bancos que nao sao bem bancos , companhias que sao apartados dos correios e coisas assim. Grande parte dessa canalha esta em dificuldades extremas ( aproveito para deixar aqui o meu apoio ao sr Armando Vara , pessoa que nao tem nada de arrivista e fura vidas e que subiu na vida so' e apenas gracas 'a sua formacao e excelencia no sector bancario, o pais nunca lhe agradeceu propriamente os servicos inestimaveis da Fundacao da Prevencao e Seguranca e agora a justica atreve-se a questionar a sua idoneidade , 'e uma vergonha, sao so' calunias ) , nota-se um certo ar de fim de festa e talvez agora esta gente aqui perceba que talvez nao seja ma' ideia produzir mais .

Ja dei a entrada e a saida na Alfandega e Imigracao , coisa pouca de tres horas , sempre uma experiencia muito enriquecedora nestas partes , especialmente depois de mais uma noite longa por esses bares malvados ouvir musica ,ver pessoas , e ate' conhecer algumas , consta-me , beber Presidentes e Red Stripes , confraternizar momentaneamente com um ou outro Rasta e assinalar mais uma travessia .


25.10.09

Esta tudo quase pronto na velha Las Palmas , so' faltam as provisoes frescas , uma lavagem final e os 500 litros de gasoleo para atestar os tanques. Com quase 1000 litros de gasoleo os ventos ligeiros que sopram aqui nao me preocupam, podemos cruzar a motor umas 500 milhas rumo ESE ate chegar a 15 graus S , onde se as coisas ainda sao o que eram vamos encontrar os Aliseos. Zarpamos amanha .
Nao houve grandes novidades ou peripecias , o ponto mais interessante tem sido um lagoon 400 que vem do mesmo sitio e vai para o mesmo sitio , tripulacao da concorrencia e operacao que esta a ser um desastre . A tripulacao original abandonou o barco e o skipper 'e um bebado incompetente , e ja o fiz saber nao so ao patrao dele , que eu conheco ha muitos anos , como o vou fazer saber aos clientes do lado de la , mas no fim de ter o meu trabalho feito e bem feito porque nao 'e bom cuspir para o ar e apontar defeitos ao proximo sem termos o nosso lado bem seguro.
Que o homem seja incompetente nao me apoquenta , mas concorrencia desleal sim , porque tivemos que apresentar estimativas competitivas para este L500 e enquanto nos , com os custos conhecidos , apresentamos tripulacoes experientes e qualificadas e um servico serio estes tipos aparecem com marinheiros sazonais peritos em atalhos e servicos minimos. E isto lembrou-me de que se esta' a aproximar a passos largos a ocasiao em que vou ter que entregar , ou a companhia vai entregar , um barco a outro skipper para uma viagem , e ate' tremo .

A vizinhanca aqui 'e boa gente , de um lado um ingles reformado com um Amel 40 e tal , sem motor e sem gerador a funcionar que conta participar na ARC deste ano mas eu acho que nao vai. O filho 'e piloto de Tornados no Afeganistao e vai ter 3 semanas de licenca. Duvido muito que consigam fazer coincidir essas tres semanas com a travessia , e ou o filho desiste da ideia ou arrisca-se a desertar involuntariamente...
Do outro lado um frances com um Dean 44. Circumnavegador , cavalheiro , que mantem o barco a um nivel execpcional , fomos visitar ontem depois do jantar. Nao so tem o barco e equipamento pronto para mostrar num Salao como tem uma adega impressionante e esvaziamos umas quantas garrafas.A conversa derivou naturalmente para Historia e Politica e pela primeira vez conheci um Frances que partilha as minhas opinioes sobre o Napoleao , e com a alegre participacao dos ingleses da companhia passamos um bocado muito agradavel a vituperar o tirano , a sua memoria e o que de nefasto ele trouxe 'a Europa.

Tive uma explicacao de uma hora com um jovem Belga que esta de passagem e da' cursos de navegacao astronomica , foram os melhores E25 que gastei nos ultimos tempos , tirou-me uma data de duvidas que tinham aparecido na passagem para ca' e orientou-me em muitas coisas . Estou motivado para as observacoes e calculos diarios e se chegar as Caraibas a calcular posicoes com erro menor que 10 milhas vou considerar a coisa um triunfo.

Quanto a outras actividades nocturnas ,a tripulacao nao se tem poupado, o Frank aparece-me 'as 8 da manha feliz como um garoto e pronto para trabalhar no que for preciso , nao sei onde 'e que o homem vai buscar tanta energia . O Bryant tem feito umas incursoes e aparece um bocado mais cedo e sempre com grandes historias que metade soam a mentira mas tudo bem .Tiveram uma boa medida de Las Palmas , quanto a mim isto ja nao 'e o que era , ja estou a passar para o lado dos gimbras que preferem ficar no cockpit de um barco a beber XO e a dizer mal do Napoleao a andar pela movida .

A biblioteca de bordo estava muito escassa , na viagem para ca' li o Mar Morto do Jorge Amado , sempre agradavel para nos lembrarmos das desgracas inerentes 'a condicao de maritimo , e reli Samarcanda , do Amin Malouf , uma bela historia sobre o Irao. Restavam-me dois livros ao acaso que agarrei na estante antes de sair e a contribuicao da tripulacao nao 'e suficiente , de apelativo so o Mexico, do James Michener e outro que ja li sobre a criacao do Dicionario de Oxford , uma grande historia , nao fazia ideia absolutamente nenhuma , mas tambem nunca tinha pensado muito sobre o processo de elaboracao dos dicionarios.
Nitidamente nao me chegavam os livros pelo que fui resolver o problema , comprei uma edicao de bolso do D.Quixote , nao tenho medo de ler em castelhano , adorei o livro a primeira vez , e ler no original 'e sempre outra coisa.
Amanha pelo meio dia la vou outra vez , armado em Marinheiro da Triste Figura

22.10.09

Las Palmas

Largamos de Bordeus um tanto inesperadamente , estava a contar que me entregassem a balsa salva vidas na quarta feira mas acabou por chegar na terca pelas duas da tarde quando eu estava na cidade a entregar o carro de aluguer. Como estamos 60 milhas rio acima o estado da mare' e' crucial , saindo com a vazante sao 5 nos a favor ao passo que se se tentar sair com a enchente tem que se lutar contra esses mesmos 5 nos. Quando voltei ao estaleiro ja estava tudo 'a espera , e umas 30 horas depois de ter chegado ao barco pela primeira vez estava a largar para uma passagem de 1300 milhas. Nao 'e comum , e deixou-me satisfeito.No dia anterior tinha ido ao aeroporto buscar o meu grande amigo Dave Renton , era suposto vir connosco so' ate 'a foz do rio mas a senhora deu-lhe carta branca para vir ate' 'as Canarias , o que foi uma boa surpresa.Evitou-me ter que parar em Royan ou Port Medoc , 'e mais um par de olhos e maos (se bem que um tanto desajeitadas...) e contribuiu para olear as relacoes entre os meus dois marinheiros , que nao cairam propriamente nos bracos um do outro, mas as coisas melhoram dia para dia.
Ja passava bem da meia noite quando chegamos 'a foz do Garonne e o VTS de Pointe La Garde me chamou pelo radio a pedir informacoes.Aqui residia tambem a vantagem de sair de noite.Estes barcos novos nao teem registo nem bandeira , teem uma factura de exportacao e uma declaracao do construtor.Um registo provisorio custa bastante tempo e dinheiro. Legalmente as guardas costeiras teem o direito de nao permitir a navegacao a barcos que nao estao devidamente registados , e ha sempre sitios (como a maior parte da costa portuguesa) onde 'e melhor nao parar se nao se tem a papelada devida sob pena de ficar umas semanas enrolado em burocracia e sujeito a multas.

Por isso a coberto da noite e na esperanca de que nao mandassem uma vedeta ( como os tipos do estaleiro me garantiam que eles faziam frequentemente ) menti descaradamente 'a torre de controle e saimos de Franca sob cores falsas , ofensa que dava forca nos velhos tempos da vela.Adoro.

Pela alvorada ja sopravam 30 nos de Leste , que foram refrescando e quando chegamos ao Cabo Ortegal no outro dia ja tinhamos 40 , rajadas a 45 , tres rizos na vela grande , um bocadinho de genoa , medias de 10 nos e uma surfada a 22 , o meu novo record pessoal. Em menos de dois dias saimos do Golfo da Biscaia , as luzes da Corunha a chamarem-me como sempre , mas nao se podia desperdicar este vento na direccao ideal , coisa rara. E o sol brilhou sempre , ha uma grande diferenca entre refregas com ceu encoberto ou ou ceu claro , tudo fica mais bonito.

Ao terceiro dia ja o o vento amainava e rodava para Nordeste, ai vamos costa Portuguesa abaixo , passamos a umas 80 milhas a Oeste de Lisboa , e sempre para Sul, passar bem ao largo da Madeira , onde so' volto se me pagarem ou se nao tiver outro remedio , e ver a luz de La Isleta na Gran Canaria depois de 8 dias de navegacao sem novidade , com brisas ligeiras nos primeiros dias , motor qb , dois atuns na linha e finalmente 20 nos de Noroeste nos ultimos dias , mais uma vez ideal.Espero nao ter gasto a sorte toda na primeira perna da viagem....

Dediquei-me 'a navegacao astronomica , uma hora por dia, o calculo da latitude pela passagem meridiana do Sol, um processo que 'e mais simples do que parece mas requer muita practica e atencao , como tudo , de resto. Ja houve tempo em que quase dominava a coisa mas o GPS 'e uma coisa maravilhosa e perde-se o incentivo . Desta vez estou disposto a perserverar , os resultados ate' ver sao confrangedores mas espero chegar 'a Florida a saber determinar a minha latitude so' com o sextante , as tabelas e um relogio , 'e o comeco , e dai evoluir para as observacoes da Lua e das principais estrelas e a obter posicoes exactas , ou exactas que chegue , sem o GPS. Tudo o que me faca melhor marinheiro e navegador , que a vida em terra tem cada vez menos apelo , no Mar estou defendido de memorias amargas, como na velha cancao dos Waterboys....

Consultei os meus registos, esta 'e a decima primeira vez que estou no porto de Las Palmas. O Don Pedro da Texaco chama-me El Portugues e a policia do porto tem a minha ficha , 'e so' mudar os dados do barco, e tambem nao criam problemas por ser um barco novo em transito , ja estao habituados. Pelo menos 3 dias ficamos aqui para limpeza , manutencao , aprovisionamento e recreaccao .

13.10.09

Vamos la'

Zarpamos esta madrugada.Havia muito para contar mas nao so nao tenho tempo como os teclqdos franceses me enervam profundamente , nao da mesmo.
60 milhas ate ao Golfo da Biscaya e depois dois diqs ate ao cqbo finisterrq , onde vamos chegqr por essa sexta feirq e onde nos esperqm 35 nos de vento , que é fresco , mas sendo de leste , é pelas costas ,e o barco é forte.
Fica aqui uma cancao muito engraçada , um classico "moderno" das cancoes de marinheiros franceses.
"C'est pas l'homme qui prend la mer , c'est la mer qui prend l'homme , des que le vent soufllera , je repartira...."


10.10.09

Bordeus


A ultima vez que tinha estado em Bordeus foi ha mais de 5 anos ,e a cidade mudou para muito melhor.Nessa altura estava o caos lancado por causa das obras do metro de superficie que duraram anos e a marginal ou estava em obras ou estava cheia de velhos armazens e edificios decrepitos.

Hoje o metro rola pela cidade e a marginal 'e um grande parque e zona pedonal , este sabado estava repleta de passeantes a aproveitar este tempo um bocado estranho para Outubro. Houve muita reconversao de velhos armazens e edificios industriais , o que por um lado 'e bom mas por outro intriga-me sempre .Sao pelo menos mais uns 2 quarteiroes de lojas de roupa.Parece-me que a ultima coisa que esta cidade (como todas as que conheco no Ocidente , de resto) precisa sao mais lojas de roupa , mas eles la' sabem , e se ha clientes, forca.

Ja vi o barco , na outra margem do Garonne , espero que esteja tudo pronto para comecarmos a nossa parte do trabalho segunda feira.

Estamos num hotelzico a 15 minutos do centro , e sendo sabado 'a noite a tripulacao quis ir 'a cidade.Eu cada vez tenho menos apetite para estas coisas porque ja sei como 'e que acabam , estou a ficar velho ….e a cabeca esta' noutras paragens.

O Frank nunca tinha saido dos Estados Unidos e esta' maravilhado .Com tudo. E um daqueles tipos com um talento nato para abordar e falar com desconhecidos , especialmente desconhecidas , nunca vi nada assim e ja vi muitos coristas no meu tempo.Fiquei para tras , tentei ver um bocado de televisao mas ja me tinha esquecido do quao ridicula 'e a dobragem de filmes e series , 'e simplesmente impossivel ver.

Vi que o Obama ganhou o Nobel da Paz , coisa que achei um bocadinho estupida , dado que o homem ainda nao fez nada de concreto , de boas intencoes esta o inferno cheio , a America continua em guerra , as guerras que ela podia parar nao param , e nem a propria America esta mais pacifica com a chegada dele. Estou convencido de que se ele fizesse metade do que se propoe fazer neste mandato, isso ja seria caso para pensarem em lhe dar um Nobel, mas nesta altura do campeonato 'e descabido.

Amanha vou ao aeroporto buscar um velho amigo , e amigo velho , que vem de Bristol para me dar um abraco e descer o rio connosco ate' Royan.

Ja' me tinha ocorrido quando em Agosto fui uma semana a casa e depois parei uma noite em Amsterdao a caminho da Florida: quanto menos tempo passo na Europa e mais nos Estados Unidos mais que convenco de que , em geral , o modo de vida Europeu 'e superior ao Americano.