19.3.12

Parque Escolar

Esta aberração luta com as PPP's pela distinção de programa mais emblemático do último governo. Vão-se revelando os pormenores e contas desta empresa , como os 90% de aumento com custos de pessoal no último ano , os ajustes directos , as obras luxuosas como a da António Arroio , os equipamentos caríssimos. Se uma empresa de compras do estado equipa escolas com computadores a 800€ quando qualquer pessoa entra numa loja e compra um por 400, estamos conversados sobre esta gente. Já se demitiram , muito escandalizados pela revelação pública da própria incompetência , despesismo e corrupção , o que para nós é fraco consolo , os milhões estão derretidos e o retorno é incerto .

A minha geração andou em escolas sem computadores , sem gimnodesportivos , sem cacifos , sem chãos de mármore e sem outras amenidades que o PS achou cruciais ao desenvolvimento académico dos alunos. O PS ainda hoje defende a Parque Escolar e o dr. Zorrinho diz que “tudo o que fizemos tinha justificação” , argumento já ouvido noutros meios mais ou menos dramáticos desde estádios de futebol ao Tribunal de Nuremberga. Tinha justificação , o que é diferente de essa ser aceitável ou válida.

Crescemos e aprendemos em escolas muito diferentes das de hoje , mas no entanto todos os que quisemos e fomos motivados , em casa e na escola , aprendemos o que precisávamos para a vida que levamos hoje. Não há prémios Nobel nem gestores de topo saídos da minha escola mas há dezenas de milhar de pessoas normais , cidadãos produtivos , qualificados e instruídos ,uns melhor outros pior , à medida do nosso país. Se um telhado mete água , se não há aquecimento , se não há cantina , é claro que o desempenho dos alunos se ressente. Passar daqui para a necessidade geral de renovar todas as escolas , muito vezes demolindo estruturas em bom estado , e só comprar do mais caro é do mais imbecil que já vi , é de novo rico deslumbrado que não faz ideia não só de onde vem o dinheiro como da relação real entre ambiente e desempenho. O PS acreditava (se calhar ainda acredita mas ninguém lhes pergunta) que escolas de luxo iam produzir alunos de luxo. Por mais contas que se façam sobre o aumento de produtividade de um aluno por estudar numa escola de luxo e se pudesse quantificar o investimento , duvido que fôssemos obter retornos correspondente aos gastos .

Havia muitas outras medidas que justificavam muito mais o investimento , como por exemplo proporcionar pequenos almoços nas cantinas , e se havia obras a fazer , que cada escola dissesse o que lhe fazia falta , em vez de virem os patos bravos de Lisboa dizer que aqui vai haver rampas de acesso , para ali vão 10 plasmas , 30 jardins novos , gimnodesportivos a granel e por aí além. Todos estes palhaços acham fundamental uma secundária ter um gimnodesportivo equipadíssimo , mas não lhes faz impressão que não haja estruturas para se fazerem Campeonatos Escolares regulares . O que lhes interessa é a infraestura , não é o que vai sair dela.
Se essa gente estivesse interessada na qualidade do Ensino e não em gerar negócios e exibir-se tinha pedido a cada escola que dissesse o que é que lhe fazia falta , e dava uma verba e autonomia à escola para a usar nas instalações. Isso tinha renovado o parque com muito menos dinheiro , primeiro porque se as escolas têm X para gastar e sabem bem do que precisam mesmo não vão andar a comprar computadores por 800€ nem a contratar meia dúzia de assessores e adjuntos novos. As escolas tinham contratado os empreiteiros locais à medida das necessidades em vez de 3 tubarões amigalhaços que ganham os “concursos” todos e depois vão empregar esses mesmos empreiteiros locais , pagando-lhes muito menos. Depois porque se tinha evitado a criação de mais uma empresa pública , que foi fiel ao modelo : trabalhou mal , desperdiçou oportunidades e recursos e deu prejuízo .

Fez-me lembrar um caso que tem semelhanças com este , no que diz respeito às construções de “luxo” : Existe uma associação chamada Raríssimas , dedicada a ajudar as crianças com doenças , precisamente, raríssimas . Piores que as doenças comuns quanto mais não seja porque são menos estudadas e compreendidas e as drogas para as tratar são naturalmente mais caras . A mãe de uma destas crianças , que morreu , criou essa associação e faz dela a sua luta , passando por conseguir uma casa para acolher , acompanhar e tratar as crianças raríssimas , e nasceu o projecto da "Casa dos Marcos" ( Marco era o nome do filho da senhora).
Ninguém pode ter nada contra este projecto , e até acho que deve receber apoio do Estado. Vi no outro dia uma entrevista da senhora a explicar que as obras estão paradas por falta de verba. Depois vi planos da casa e fotos das obras, só o terreno teve o valor de 2,5 milhões de euros e foi cedido pela câmara municipal, e o que eu pergunto é isto: Se se tivesse sido um bocadinho menos ambicioso , um tudo nada mais modesto , dado um pouco mais de atenção à relação meios/fins , não se poderia já ter a abençoada casinha a funcionar , alojando dignamente as crianças ? Era mesmo preciso aquilo tudo?
Tal como não acho que as crianças possam estudar decentemente num pré fabricado que mete água também não acho que se devessem pôr as crianças da Raríssimas onde coubessem , mas às vezes parece que as pessoas perdem a noção .

13.3.12

Banda aqui , só filarmónica

Vai para quase um ano em que o acesso a internet é na biblioteca ou dentro do carro num hotspot wifi , o que tem muitos inconvenientes . Ainda no outro dia vi um anuncio da PT , muito bonito , a anunciar a chegada do 4G , há-de ser uma alegria para muita gente , eu já me dava por satisfeito com internet sem ser a que temos , somos o único sítio do país , com o Corvo , onde não há banda nem estreita nem larga , há uma ligação satélite que exige muita paciência e há uma promessa vetusta de ligação do cabo de fibra óptica , será lá para as calendas gregas quando chegar a retoma económica. A velocidade chega a descer 4kb/s , o que é confrangedor , mas mau mesmo era não haver internet.
Decidi investir numa daquelas pens para ter internet senão rápida (pagamos o mesmo preço que os continentais por um serviço muito inferior) pelo menos em casa e portátil e fui à PT. A menina da loja da PT deu-me um número de telefone e disse para ligar eu , porque não têm em stock e se eles pedirem internamente vem de barco. Liguei para lá e o rapaz disse-me , no dia 5 , que dia 8 tinha cá o equipamento . “Viu bem aí o código postal?” , perguntei eu. " Sim sim , não há problema , se não for dia 8 é dia 9 e telefonam-lhe a avisar da alteração" . Chegou dia 12 , e a instalação automática não funcionava. Por uma coincidência os únicos controladores que não estão disponíveis no site da PT são os da pen que eu comprei. O rapaz do apoio ao cliente disse-me que o que tinha a fazer era ir à loja entregar o equipamento e davam-me outro, tive que me rir , porque podia ser assim mas demorava 15 dias , pelo que agora vou ligar para outro departamento , enviar este equipamento e esperar por um novo, mas entretanto já paguei , claro. Mesmo assim até ver pago e suporto bem estes custos todos da insularidade , porque quase a fazer um ano de ilhéu vejo muito mais vantagens que custos em viver aqui.

10.3.12

Relvas , burras & ovelhas

É assunto que me ocupa e sobre o qual falo todos os dias , com amigos , com conhecidos e com vizinhos . Uma relva aqui é um terreno que tenha pasto , desde meio até três ou quatro alqueires , que são mais ou menos 1000 m2 , até onde eu percebo. Procuro uma relva , o valor médio são 1000€ por alqueire , mas o valor nem sempre corresponde ao preço, e está dependente de muitas variáveis desde o acesso à vedação e à exposição .
Por causa das dificuldades , incerteza e pessimismo instalou-se a convicção de que se vai voltar aos tempos da pura subsistência , que o valor dos terrenos agrícolas vai subir depois de décadas em que pegar num sacho era uma vergonha. Ninguém na televisão sacha batatas nem poda árvores nem cria galinhas , pelo que não é uma aspiração decente.
Aqui muita gente pensa , talvez com razão , que mesmo que agora não trabalhe na terra um dia aquele alqueirezinho ainda lhe vai dar jeito , e não vende. Depois há as terras de proprietários ausentes , desconhecidos ou desaparecidos , arrendamentos arcaicos , junta-se a questão dos subsídios , enfim , o mercado das relvas está apertado.
Recebi um telefonema do lavrador que me vendeu as ovelhas , tinha um negócio para mim , fiquei logo entusiasmado mas não era nenhuma relva , “relvas tá muito complicado” , o que ele tinha para me vender era uma burrinha. Nesta altura não estou interessado , a burra é ideal para ir às fajãs , onde há muitas terras de cultivo mas tirando uma a que se chega de moto 4 , só lá se chega a pé , e há coisas para levar e trazer , especialmente se as terras estivessem todas a produzir a fundo , como noutros tempos. Como ainda não tenho terras numa fajã não tenho utilidade nenhuma para uma burra agora , antes pelo contrário, vejo-negro para alimentar as ovelhas , chega de alimárias por agora .
Acabou ontem a provação das fugas constantes e da guerra com as cercas . Por causa da lama na terra que estava melhor vedada passaram para a de cima , onde já havia uma ervazinha , regalaram-se ali uma semana e deixaram de gostar da silagem. Depois havia mais erva fresca e alta à vista , nas terras dos vizinhos , a cerca eléctrica não era suficiente para as desmotivar e o arame farpado tinha que ser muito mais tenso e com o dobro das fiadas para funcionar . Nunca tinha a certeza de que as ovelhas estavam lá quando chegava de manhã, mas pelo menos já não tinha que andar à procura , só podiam ir para três sítios . Estava sempre à espera que me viessem avisar que tinham visto as minhas ovelhas lá para cima , cheguei a ir a casa do vizinho dizer-lhe que elas tinham ido para a relva dele , várias vezes, e se ele quisesse podia levar uma vaca para lá e eu dava-lhe um rolo de silagem. Disse-me “veio-me dizer e já as tapou, não quero mais nada”. Tapei , fui tapando , mas elas iam destapando e ontem de manhã quando lá cheguei só lá estava a mãe da cordeirinha , que estava numa estaca fora da cerca.

Lá fui buscá-las pelas canadas à terra de outro vizinho , depois fui directamente comprar 50 metros de rede e fechei finalmente a cerca. Não só durmo mais descansado mesmo nas noites de temporal pior como agora consigo-as convencer muito melhor de que a silagem é nutritiva e deliciosa.

Nunca mais pára de chover , o que se por um lado me lembra de outra das minhas razões principais para vir para aqui ( nunca vai faltar água pelo menos no meu tempo de vida , venha o que vier) por outro lembra-me da desgraça que está em curso no continente. Conservar água é um hábito que se adquire mas não é de repente nem se vai lá com campanhas , e nas cidades arrisco que 95% das pessoas toma abrir uma torneira e sair água como uma coisa garantida, o que é mau. O preço da água já devia ter subido há muitos anos , e muito , essa sim é a maneira de regular o consumo de um bem que é escasso , se bem que pouca gente percebe isso até lhe faltar , mas aqui d'el Rei que os neo liberais querem cobrar por tudo. Mais uma vez , boa sorte .

No mundo irreal , e sobre um post que escrevi há pouco enervado com o tratamento dado ao ministro da economia pelo Miguel Sousa Tavares no Expresso: não fui criticado por esse texto nem corrigido , fui insultado e entre outras coisas recomendavam-me que arranjasse um cão e uma namorada , parece que as pessoas com cães e namoradas são menos acerbas , é provável. O que não pude deixar de reparar foi que o Miguel Sousa Tavares , que odeia blogues , parece acreditar que blogue é igual a opinião anónima , e isso é falso e muito mau. Há uma diferença grande entre ser desconhecido e irrelevante e ser anónimo , e se bem que muitos blogues aproveitam o anonimato para dizer o que não diriam assumidamente , muitos outros como este vosso criado assinam e até põem umas fotografiazinhas , o email está aí , qualquer pessoa pode comentar aí o que quiser e dou as satisfações que forem precisas sobre o que escrevo. Nem todos temos o privilégio de uma coluna num jornal ou comentário na televisão , mas todos temos opiniões e a liberdade de as publicar , se bem que essa concorrência e crítica , mesmo que insignificante em forma, alcance e conteúdo , por vezes não agrade . É a vida.

7.3.12

Adopção Gay

Soube ao retardador que a possibilidade de adopção por casais gay tinha sido proposta pelo Bloco de Esquerda e chumbada na Assembleia. Um dos legisladores que votou contra , Telmo Correia do CDS , justificou a sua posição dizendo que "é contra a vontade do Criador". Nem vou falar do que é um político com responsabilidades justificar seja o que for com a existência , quanto mais a vontade , de um criador . Se o Telmo Correia conhece assim tão bem a vontade do criador devia dedicar-se a zelar para que ela fosse sempre observada na sua casa em vez de querer impôr a sua noção de vontade do criador a toda a gente , independentemente de acreditarem ou não num Criador e nas interpretações da sua vontade.O Estado é laico , ele como deputado faz parte de um órgão do Estado , logo, deve ser laico no desempenho das suas funções mas parece que ninguém lhe explicou isto.
Eu tenho sérias dúvidas quanto à existência de um Criador tal como o Telmo Correia o imagina , mas mesmo aceitando a existência de um Deus à medida dos Católicos não sei onde é que está escrito , mesmo aceitando que a Sua vontade é revelada assim , por assuntos e alíneas a uns quantos escolhidos , que um órfão não deve poder ser adoptado por dois homens ou duas mulheres. Gostava de saber em que parte do Antigo Testamento é que isto vem , que parte do Novo é que fala contra isso.
Gostava ainda de perguntar aos oponentes da adopção por casais gay qual é a parte que os ofende mais , se é a possibilidade de uma criança sem pai nem mãe poder ter uma casa com pessoas que gostam dela e querem cuidá-la ou se é a parte em que duas pessoas que gostam uma da outra e querem ter uma família ficarem mais realizadas e felizes. Parece que há muita gente para a qual é preferível que os órfãos passem a vida toda em instituições do que correrem o risco horrível de ser amados e cuidados por duas pessoas do mesmo sexo.

Toda a gente sabe , está provado , que é mau para uma criança ter pais alcoólicos , ausentes , violentos , negligentes ou promíscuos mas ninguém nunca mostrou com certeza nenhuma que espécie de mal afinal vem a uma criança que tem duas mães ou dois pais , que eu acho preferível a não ter nenhum.

Aqui há anos agonizava-se por causa do estigma dos filhos de pais divorciados , era uma das razões para proibir o divórcio. Evidentemente foi uma luta que valeu muito a pena , fazia muito sentido obrigar duas pessoas que mal se podiam ver a viver juntas , era preferível as crianças viverem numa casa sem concórdia nem amor mas com os dois paizinhos lá.
Havemos de evoluir , daqui a uma década ou duas alguém vai olhar para trás e pensar nas centenas de órfãos que podiam ter tido uma família se não fossem estas pessoas tão atrasadinhas.

6.3.12

Comida de Cão


Qualquer "especialista" diz que os restos de comida humana não são um bom alimento para cães , há rações de substituição de toda a ordem , que sendo produzidas “cientificamente” e industrialmente são uma alimentação completa para os bichos , além de mais práctica e conveniente . O marketing e as modas levaram a indústria da ração para animais a coisas um bocado extremas como a secção “gourmet” , e carregaram na imagem deração de boa qualidade = cão lindo e feliz , o que é uma relação improvável. Como os cães quase não têm sentido do paladar , vai muito do cheiro , textura e consistência da coisa , e pelo pouco que sei da química moderna , muito poucos ingredientes caros , raros ou complicados são precisos para fazer uma ração saudável e que o cão coma bem. Acho que há muita gente a gastar dinheiro demais com uma qualidade superior que não aproveita muito ao animal e de certeza que não o compensa pela falta de umas corridas e brincadeiras e passeios . Ponham lado a lado um cão alimentado a trinca de arroz com molhos da cozinha que todos os dias anda perto dos donos e pode correr e brincar um bocado e outro que come Pedigree Pal Buckingham Palace Special (se não existe deviam inventá-lo) e que vive sozinho numa varanda de 2X4 com duas voltas ao quarteirão à trela por dia e uma corrida ao fim de semana e tenho a certeza de que o mais feliz é o primeiro.

Eu dou ração ao meu cão primeiro porque nunca tenho restos nenhuns , apesar de comer sempre todas a refeições em casa e prepará-las eu ( não digo cozinho porque seria abusar do termo) , tenho mão certa e faço sempre tudo à medida. Segundo porque apesar de desconfiar do marketing sei que o cão precisa mesmo de certos nutrientes , e para ter esse equilíbrio sem rações era preciso cozinhar para o cão , e isso não faço. Faço-o para mim porque não posso comer rações e mesmo que houvesse restaurantes sempre abertos aqui era incomportável , mas não o faço para o cão .Por isso o Rofe começou a existência a comer Friskies Junior , a única ração específica para cachorros disponível aqui, logo , a melhor. Melhor que Friskies Junior só nos veterinários no continente , que nos podem explicar largamente todas as vantagens das marcas superiores e muitos , por coincidência , até as vendem. Friskies Junior custa aqui 26€ por 10kgs , mas pronto , dado que quero um Super Cão pelo menos enquanto está a crescer tenho que lhe dar do melhor , aos meios quilos por dia . O fabricante recomenda dar aquilo até pelo menos um ano de idade. O Rofe tem 7 meses feitos , pelo que ainda tinha pelo menos mais 5 meses a Friskies , mais ou menos 30E por mês , o que para mim nesta altura é muito considerável . Reparei que a Associação de Agricultores também vendia rações para cão , cão em geral sem distinção de idade ou tamanho , e agora o Rofe come Ruff , a 11€ os 18kgs . O saco é como o das ração do resto do gado, a ração parece assim um género de chocapic mais pardo e mais grosso. Ele come lindamente , depois de um incentivo na forma de falta de alternativas, está melhor que nunca , de vez em quando dou-lhe um ovo cru , até parece que se vê o pêlo a brilhar mais . Tem regularmente um osso de vaca fresquinho , tipo tíbia inteira , para triturar e em geral não se ressentiu nada de ter passado da comida dos anúncios para a “marca branca” .
Entretanto começou o programa de treino , 3 vezes por semana , sessões de meia hora , a frequência é para aumentar quando chover menos. Treinar sentar-se , andar ao pé , vir e ficar , a chamada obediência básica . É muito simples e no entanto é complexo e trabalhoso , mas compensa largamente . Se estiver basicamente obediente no começo do Verão podemos subir de nível .

3.3.12

Genocídio no Corvo

Acho que um dos problemas de exagerar na linguagem é que ao longo do tempo as palavras vão perdendo força. Tal como é impossível alguma coisa lavar sempre mais branco ao longo de 50 anos , uma catástrofe não pode por definição durar meses e uma falência não é uma tragédia , apesar de um buraco orçamental poder realmente ser um colosso . Muitas vezes não há medida nenhuma na escolha dos termos , se chamamos repressão policial à manutenção da ordem pública , o que é que vamos dizer no dia em que a polícia de choque dispersar uma manifestação? Guerra civil? E por falar nessa , se escrevemos que um ministro iniciou uma guerra civil por ter assinado um determinado acordo social , não estaremos a gastar depressa demais a reserva finita de hipérboles que podem fazer falta no futuro ? Chamar sempre , metodicamente e sem ser por um entusiasmo momentâneo , pacto de agressão ao acordo de financiamento da dívida portuguesa é um extremo de linguagem que não se justifica .
Os exageros e despropósitos são maus porque a vida económica e social do País depende muito dos discursos , discussões e informação que vai passando , e a linguagem apocalíptica e de confronto não só não ajuda a resolver o problema como o agrava. Os políticos e pessoas que vivem na órbita da Política precisam obviamente de atenção pública , e procuram-na como podem mas muitas vezes abusam da linguagem para marcar a sua posição e fazer a sua propaganda . Sentido das proporções , moderação e bom senso na maneira como se defendem as posições e contestam as dos oponentes faria maravilhas pelo País , e é à borla .

Este texto era para se chamar Pedro e o Lobo , o Pedro era um rapaz com uma função equivalente à dos políticos , numa metáforazinha de que gosto bastante , inspirada um bocado pela Quinta dos Animais do mestre Orwell e outras observações , nomeadamente das ovelhas e sua Economia e Sociedade .

O Rebanho somos nós , o Povo. Os políticos são os Pastores , que devem escolher , conhecer e gerir as pastagens e organizar-nos por elas , para nos ordenharem e tosquiarem regularmente , e em geral zelar pelo rebanho . Basta que haja erva fresca com fartura , que o veterinário tenha tudo sob controlo , que todos andem contentes na altura do cio e que se possa reproduzir e melhorar a espécie . A Imprensa e a Justiça são os cães , alerta aos lobos que rondam sempre de volta dos rebanhos para caçar os mais fracos , quase sempre a abanar a cauda quando vê o pastor e a olhar para o rebanho de cima , como sua responsabilidade . Dão o alarme contra os predadores , acordam o pastor se este adormece , procuram as ovelhas tresmalhadas e com sinais seguros aqui e ali lá encaminham o rebanho pelos caminhos possíveis . Estico a metáfora ao limite a acrescento que as ovelhas se entretêm e gostam de ver a actividade e truques dos cães , que lhes dão uma certa sensação de segurança.

O Pedro Pastor , desejoso de atenção como o Político , lembra-se de gritar “ lobo , lobo ” , os cães acorrem , espantam-se as ovelhas , desinquietam-se os vizinhos , mas toda a gente lhe dá atenção e ouve a sua história , louvam-lhe a coragem e garantem-lhe apoio , mesmo sem sinal de lobo . Com a repetição regular aquilo vai começando a perder efeito , e um dia os lobos vêm mesmo . Os cães já ouviram tantas vezes "lobo" sem nunca terem visto um que não sabem o que fazer , correm para o pastor , protegem umas ovelhas e descuram outras , deixam dividir o rebanho , por fim atacam os lobos mas os cães são sempre menos e pior preparados e nunca nos devemos esquecer de eles mesmos são meros lobos domesticados . O Pedro corre e grita mas os vizinhos já ouviram isso antes , e mesmo que com insistências acabem por acorrer , o dano foi feito , os lobos levaram as ovelhas que quiseram , estropiaram os cães , e o Pedro levou uma carga de pancada do pai , merecida e tardia.

A frequência e o modo como se diz é quase tão importante como o que se diz , não é só uma questão de tom e articulação , é por exemplo a diferença entre falar em "medidas impostas por credores" e "pacto de agressão" para descrever a mesma coisa. Se por um lado há uma tendência para os eufemismos (os aumentos são sempre ajustamentos , por exemplo ) que não ajuda muito à compreensão real e confiança das pessoas , que sabem a diferença entre as duas palavras , do outro há uma dramatização e conflitualidade que ajuda ainda menos .
Para o Bloco de Esquerda é um crime uma fábrica falir e despedir trabalhadores , como ainda agora ouvi o dr. Louçã reiterar num desses acontecimentos . Se o despedimento é um crime , as políticas de austeridade são uma agressão , um corte de subsídios um assalto e um aumento de impostos um massacre , perante a situação dos trabalhadores do sub empreiteiro da Castanheira e Soares no Corvo , como é que eles iriam qualificar aquilo? Genocídio?

2.3.12

A greve no Corvo

Volto ao assunto porque naturalmente a notícia passou de novo ontem de manhã mas à tarde já deu lugar a coisas mais importantes tipo o clássico desta noite . Ou seja , o problema desapareceu.
Fiz uma busca no site da RDP , apareceu este artigo DE HÁ UM MÊS , desculpem lá levantar a voz , mas provando que o problema não é de hoje , eu já ouço falar nestes infelizes há mais de 3 meses . A notícia que ouvi ontem está aqui , para guardar no álbum das ofensas à dignidade de toda a gente , desde os 7 que ainda lá estão até à minha , que tenho que partilhar um país , uma região , uma ilha , um governo e um sistema com gente capaz disto.

Esta história é horrível e tem de tudo : Obras mal explicadas e financiadas ; falta de alcance do Estado , ; incompetência ; prácticas criminosas e fraudulentas ; exploração dos trabalhadores ; racismo ; ambição ; insensibilidade ; chantagem ; isolamento geográfico e , de certa maneira , moral e miséria humana que chegue , tudo no cenário irreal da ilha do Corvo.

Eu se fosse jornalista estava só à espera que este temporal amainasse para ir para lá



1.3.12

Greve a Sério

Passa-se aqui ao lado no Corvo um drama laboral que pede meças a tudo o que de mau vai acontecendo em Portugal , a notícia foi dada ontem na Antena 1 Açores e hoje felizmente continua , mas calculo que amanhã , mesmo que não haja resolução , já não lhe liguem. No continente isto nunca interessa , porque somos poucos e estamos longe e as televisões estão mais interessadas em peças magníficas como as que vi ontem ( vi o telejornal porque estava a espera para ver a Selecção ) , uma belíssima peça de actualidade sobre a possibilidade de chuva hoje que incluía entrevistas num cabeleireiro e uma conversa com uma senhora que tinha por sua vez falado com um assassino demente que já se suicidou . Temas fortes da actualidade. Cambada de palhaços.

O mês passado escrevi aqui que a Castanheira e Soares , empresa de construção civil e o maior empregador da Ilha , estava falida. O tribunal está a apreciar um requerimento de falência porque devem 25 milhões , o sr. Castanheira , que com muito mérito foi de cantoneiro a milionário em 30 anos , diz que não , porque lhe devem 6 milhões. Esta ascensão de cantoneiro a empresário infelizmente não passou pela escolaridade obrigatória ( eu nem peço MBA's , peço que não sejam semi analfabetos) por isso o homem acha que o clima económico é favorável à recuperação uma empresa de construção civil regional com 19 milhões de euros de dívidas . A mansão incabada do sr. Castanheira vê-se na encosta sobre Santa Cruz , monumento à sua ambição , falta de gosto e destino.

Voltando ao Corvo , era uma das ilhas em que a C&S tinha obras. Como boa construtora portuguesa , a C&S subcontratava , ou seja , concorria para obras que não tinha capacidade própria de executar mas , fruto de ligações mais ou menos claras e orçamentos judiciosos ( ver o balanço actual da empresa) , ganhava as obras e depois sub contratava , ou seja , era em muitos casos um mero comissionista , sistema que custou biliões ao estado ao longo dos anos e gerou fortunas como a do Sr. Castanheira.
Desde Novembro que os operários sub contratados pela C&S no Corvo não recebem salário. O Corvo tem as contas em dia com a C&S , e ainda decorre uma obra. Os operários , depois de 3 meses sem receber , estão em greve , daquela verdadeira . O seu contrato incluía alojamento e refeições , deixo à vossa imaginação o alojamento e alimentação posto à disposição destes trabalhadores , a maior parte imigrantes.
Então ontem a C&S avisou os trabalhadores que se não voltassem ao trabalho deixavam de comer na cantina e de dormir nos barracos onde os alojam. Assim , sem mais nem menos .Devem 5 meses de salário a esta gente e como se isso não bastasse fazem chantagem : ou voltam ao trabalho , sem receber , ou não comem. Isto é quase medieval , e lembremo-nos bem de que estes homens estão isolados no extremo mais remoto do País , onde não se podem meter num autocarro ou comboio ou pedir uma boleia para outro lado qualquer. Estão isolados , muito longe de casa , não lhes pagam e querem forçá-los a trabalhar.
É a Caritas e a Acção Social que estão a amparar estes desgraçados , que provavelmente não são sindicalizados , nem portugueses , pelo que não aparecem no radar . Aliás , vou seguir o caso como puder e se algum sindicato tiver alguma intercessão neste caso além de arrotar postas de pescada e repetir cassetes , mudo de opinião sobre eles e presto-lhes aqui homenagem.

27.2.12

Movimentos Contra a Crise

O governo montou um site chamado "o meu movimento" a convidar as pessoas a dar ideias para apreciação e discussão pública. O promotor da que tiver mais apoiantes ao fim de não sei quanto tempo vai almoçar com o Primeiro Ministro e expor-lhe o seu plano. Acho óptimo , devia ser expandido , anunciado na televisão e rádio e alargado o prazo e o “prémio” a encontros com outros ministros , consoante a área da proposta . Podem-me dizer que é uma operação de relações públicas , é e também fazem falta , mas é obviamente bom , a não ser para quem desconfia das capacidades do cidadão que não se move em organizações partidárias , que pode nem ter opinião política formada mas é atento e pode olhar para uma coisa que está mal e pensar numa maneira de a resolver , e se lhe derem oportunidade até a desenvolve e estrutura.
No meio de tanta ideia que já apareceu e de tantas que ainda estão para aparecer ,algumas imbecis e impracticáveis , a maior parte quer dinheiro sob a designação de "dignificação" ou "melhoramento" , aparecerem até ver 985 propostas , até há quem queira acabar com a "economia baseada em recursos" , o que certamente seria interessante e inovador , mas há uma que me parece estupenda , e que apoio sem reservas: a adopção de uniformes em todas as Escolas Públicas do país. O senhor que o criou apresenta a medida como "eliminar vícios do consumismo" , o que é um bocado redutor , e não se explicou muito bem , o que é pena . Vantagens :

Desincentiva-se (para não dizer acaba) a distinção e discriminação entre alunos baseada na roupa que vestem . Essa pressão social das marcas é perniciosa , acho que isto é consensual , e se toda a gente vai para escola vestido de igual , especialmente desde pequenino , há mais igualdade onde ela mais conta , nos bancos da escola onde se aprende a ser gente . Há-de sempre haver os que têm nikes e outros que não , mas se anda tudo de sapatilhas brancas pouco se nota.
A poupança para os pais é tremenda , tanto para os que apenas querem que os seus filhos andem limpos e apresentáveis como para os que fazem dos filhos montra do seu gosto e poder de compra. Dois uniformes para um ano lectivo inteiro , e que ainda podem ficar para os irmãos , são centenas de euros de poupança.
As escolas têm mais facilidade em identificar e controlar as hordas , e aproveitam para instilar orgulho na sua escola que os alunos devem ter. Os uniformes ajudam a isso , e até são bons para os rebeldes , sai muito mais barato e simples infringir as normas e queixarem-se da opressão.
É uma maneira muito eficaz e simples , quer-me parecer , de prestar apoio social aos alunos mais pobres , com uns 200 euros por ano (não fiz as contas , parece-me) compram-se dois uniformes , e com essa quantia anual tão pequena faz-se uma diferença grande no orçamento das famílias e na dignidade dos alunos mais pobres . Acho que é um investimento com muito retorno.
As escolas podem escolher se querem desenhar os uniformes ( tantos professores de artes visuais e milhares de alunos desejosos de projectos certamente conseguem) ou adaptar um desenho a partir de um modelo geral , mas quanto mais independentes nesse aspecto mais serviço dão ao textil nacional e negócios locais. Não é re-inventar a roda , fazer passagens de modelos ou ter uma ideia original para o uniforme , toda a gente tem uma ideia muito clara do que é um uniforme escolar tal como toda a gente tem uma ideia muito clara da farda de um enfermeiro ou hospedeira , apesar das centenas de variedades que há.
Hoje os uniformes têm o efeito de conceder uma real ou aparente excelência , superioridade e distinção aos colégios privados , junto do público em geral e dos dos próprios miúdos . Não tenho absolutamente nada contra o ensino privado e é muito necessário , mas adorava ver , de um ano lectivo para o outro , todos os alunos do País a ir para a escola vestidos de alunos.
Desvantagens? Não vejo. Há-de haver objecções , os sindicatos terão forçosamente que ter várias e gostava de as conhecer . Dado que é uma medida que não afecta absolutamente nada os professores , nem nos seus deveres nem obrigações , parece-me que o sindicato dos professores não tem por onde lhe pegar , mas eu já ouvi o chefe do sindicato dos professores indignado contra uma medida qualquer que o Governo queria implementar e que já não me ocorre , mas não me esqueço das suas palavras : “ninguém sabe qual pode ser o resultado desta medida!”. Ou seja , ele também não sabia se podia ser bom ou mau , obviamente o que estava em causa ali era que havia uma medida do governo , que pela sua natureza exige oposição.
Existirão objecções e dificuldades de implementação , mas acredito que é daquelas coisas que podia ser mudada com um meia dúzia de parágrafos ( falo sujeito a ser severamente corrigido) e pode fazer uma grande diferença no curto e longo prazo , não apenas pela poupança agregada das famílias nem pela eficiência da gestão ou melhores resultados dos alunos mas muito mais pela valorização da igualdade desde pequenos. Não vejo nenhuma objecção válida que alguém possa ter nesta altura , além dos próprios alunos . Esses naturalmente só têm que ouvir , dos pais : tens 12 anos , não tens voto nessa matéria.

PS: o movimento que vai provavelmente "ganhar" este concurso é um pela proibição das Touradas. Pedem-se ideias para combater a crise , oferece-se uma para combater um espectáculo , arte e ofício que uma minoria não aprecia , destruir uma indústria e uma raça animal e chatear centenas de milhar de pessoas , com impacto económico negativo para o País . Acho que não era esse o objectivo do exercício.

24.2.12

Falklands Forever

Há 30 anos os generais que mandavam na Argentina começaram a ver o caso malparado porque os abusos e malfeitorias já não passavam muito bem. Recorreram então ao velho truque de encontrar um inimigo externo para desviar as atenções da própria incompetência e focar a energia nacional unindo o povo numa causa comum , com eles à cabeça. Já funcionou muitas vezes e teve practicantes famosos e ainda vivos , desde o Fidel Castro ao George W. Bush. Escolheram as Falklands , ou Malvinas e acharam que o Reino Unido , afogado numa crise económica e de valores , não ia lutar numa causa que não só era globalmente impopular se fosse apresentada como neo-colonialismo mas como estavam a 8 mil milhas de distância a sua posição era muito difícil. Puxaram o lustro aos galões de generais que nunca tinham lutado numa guerra sendo a sua experiência militar a de oprimir o próprio povo , fizeram discursos inflamados , mandaram tocar a banda e avançar para as ilhas uma força de ocupação. A diferença entre "libertação" e "ocupação" é muitas vezes pouco clara , este foi mais um caso. Os Argentinos nunca tinham feito nada pelo arquipélago , antes ou depois de 1833 , altura em que o estatuto foi definitivamente estabelecido.
A invasãozinha correu-lhes mal , se soubessem um pouco de História tinham percebido que os Britânicos nunca foram conhecidos por deixar que lhes roubassem territórios , mesmo pequenas ilhas remotas, antes pelo contrário. Mas o cálculo mais fatal que fizeram foi subestimar a senhora Thatcher. Uma mulher , o que é que vai fazer uma mulher? Bom , a mulher não hesitou e mandou a Marinha e os Fuzileiros com tudo o que tinham . Os Argentinos invadiram em Abril , em Junho já tinham levado uma tareia e voltado a Buenos Aires , muitos deles a pedir contas aos generais pela ideia de merda que tinham tido . A queda da Junta militar não demorou , pelo que os Argentinos ainda deviam era agradecer aos Ingleses terem dado o empurrão aos generais.
Mas não. Passam 30 anos , e na Argentina já não mandam generais , manda uma vamp chamada Cristina Kirshner que herdou a presidência por simpatia ao marido ex presidente , senhora muito populista num país onde isso é tradição enraizada . Entre outros métodos , antes da última eleição disse que tinha cancro e ia ser operada , a simpatia impulsionou em muito as intenções de voto, ganhou e veio dizer que afinal não tinha cancro. Ou a Presidência Argentina está muito mal servida de médicos ou foi pura artimanha . As Malvinas são outra . A recuperação do desastre da falência de 2002 começa a perder fôlego , muita gente não gosta de prepotência dela e acha que neste século para Evita só a Madonna , pelo que em vez de resolver os problemas reais da economia e dos cidadãos escolhe galvanizar o povo com o famoso inimigo externo , e tem em curso uma campanha pela "recuperação" das Malvinas.
O PM Inglês já disse várias vezes , tal como tinha dito o seu antecessor: A Inglaterra não discute a soberania das Malvinas a menos que seja essa a vontade dos habitantes das Malvinas. Isto parece-me a mim uma posição inequívoca e inatacável , e dado que os 3 mil e tal Falklanders querem continuar tal como estão e já o disseram várias vezes ( e resistiram a tiro aos Argentinos em 82) , a questão devia estar encerrada e os Argentinos deviam ter vergonha , especialmente o ministro dos negócios estrangeiros , que por incrível que pareça veio acusar os Ingleses de "tentar desviar as atenções dos seus problemas internos".Outro que se esqueceu que em primeiro lugar se a questão ainda existe é porque os Argentinos a levantam , em segundo que em 82 os problemas da Inglaterra eram muito mais graves que hoje e mesmo assim chegou bem para derrotar e pôr em fuga os Argentinos. A sra Kirschner devia-se dedicar a outras manobras tipo fingir cancros para ganhar eleições , que pelo menos essas não arriscam levar o país para a guerra .

22.2.12

Já vai para mais de uma semana com o céu enevoado ou mesmo cerrado , vendavais e aguaceiros , está-me a mexer um bocadinho com os nervos. Antes de vir para aqui perguntavam-me “então e aguentas-te com aqueles Invernos?”. Até ver aguento , mas começa-me a custar , ensombra-me a disposição , são os pormenores que irritam como ter que ter a roupa a secar dentro de casa .
Mas já se vêm rebentos , daqui a um mesinho começa a Primavera , está quase. E depois para o próximo Inverno já devo estar na minha própria casa , pensada , sonhada , desenhada e reconstruída por mim à minha medida exacta e isso vai fazer uma grande diferença. Mas por agora estou quase saturado de bruma , chuva , vento e céu encoberto , felizmente nunca está muito frio , essa é uma das razões porque eu adoro isto , nunca faz muito frio. Passei os últimos 10 anos com pouco ou nenhum Inverno tal como o entendemos , tinha períodos curtos em sítios onde estava frio mas a vida era principalmente nos Trópicos e tinha duas estações , ambas quentes. Dava-me bem com isso , mas o clima não compensava as outras desvantagens de viver nos Trópicos , nomeadamente ter que me adaptar ao resto das pessoas que vive nos Trópicos.
Bom , tudo indica que vou sobreviver ao afamado e agreste Inverno Açoreano sem dar em mais maluco ainda , apesar de não me ter lembrado que tendo animais ao meu cuidado ia estar exposto diariamente às intempéries , e sair dessa exposição obrigatória foi uma das razões que me fez deixar de navegar....

Ontem como todas as manhãs entrei com um braçado de silagem no cercado das ovelhas , nisto o carneiro recuou três passos , investiu e deu-me uma marrada que me assustou mais do que doeu e me deixou espantado. Como tinha escrito aqui antes , ele até me vinha comer à mão e em 3 meses nunca tinha sequer ameaçado nada disto. Saí , voltei a entrar , ele fez o mesmo mas desta vez não me apanhou porque fugi a tempo. Ri-me a pensar que ele estava agastado com a derrota do Benfica em Guimarães (ele chama-se Lampião) , fui buscar um barrote e voltei. Ele fez o mesmo e levou com o barrote na cabeça , duas vezes para a mensagem passar. Fiquei intrigado com aquilo , e preocupado porque se o carneiro agora deu em marrar complica-me bastante a vida , mas os animais são mais fáceis de compreender e lidar do que as pessoas , e já tenho uma explicação , ainda por confirmar: uma das ovelhas deve estar com o cio , o amor está no ar e o gajo não quer concorrência. Isto é outra mina para os meus amigos australianos e ingleses que têm um fundo enorme de piadas sobre as relações entre pastores e ovelhas e perdem poucas oportunidades de mo lembrar . Espero bem que seja isso que agastou o carneiro , o meu livro não diz nada sobre o assunto ( aliás , o livro é uma bela merda , indicado para quem quer ter ovelhas como bicho de estimação) e não queria agora passar a ter que ir de barrote na mão de cada vez que entro no cercado , sempre de olho no Lampião.

Entretanto está tudo a postos para vender borregos para o talho da Associação Agrícola , eles compram um por semana seguindo uma lista em que os sócios se inscrevem , para a semana vai o primeiro meu , com 6 ovelhas posso chegar a vender um por mês , mais ou menos . Estou contente porque apesar de ter que vender uns 30 borregos até recuperar o investimento inicial é o princípio que conta , tenho a minha exploração agrícola regularizada , tenho o sistema montado , melhor ou pior , sou sócio da Associação e vou ter um rendimento com uma coisa que criei sozinho. No futuro espero poder ter mais que um borrego por mês , já para não falar das aplicações da lã e , quem sabe , queijo de ovelha .

E a cerveja , espero finalmente ver aprovado o último nome que escolhi : Da Ilha , Cerveja da Ilha. Nada mau.

18.2.12

Carnaval

Devia ter uns 7 anos quando a minha irmã me subornou com 5 escudos para ir para a escola mascarado de minhota. Não seu qual seria a correspondência actual dos cinco escudos mas a fotografia que existe do evento mostra que não estava muito convencido nem encantado pela ideia , devia ter alguma utilização pensada para a quantia que fazia a humilhação valer a pena.
Há coisa de 20 anos mascarámo-nos , o gang das motos , à Ku Klux Klan , cruz a a arder e tudo , o que à distância parece estúpido e seria ofensivo se houvesse negros na minha terra nessa altura . Não tenho mais memórias nem participei em mais carnavais , sobretudo por causa da música. Dpois de séculos de entrudo tradicional um iluminado qualquer foi ao Brasil e regressou com o samba como banda sonora exclusiva. Ao samba juntou-se o axé , o forró , a miríade de géneros e ritmos em que os Brasileiros se excedem e que maravilham o mundo , menos a mim. Gosto da ideia dos bailes de máscaras , mas a cabeleira do zezé e o tira o pé do chão dão-me camadas de nervos e comprometeram a minha participação nos festejos. E depois o excesso e rebaldaria pode ser libertador , mas eu sempre descomprimi quando precisava e não quando estava marcado que era hora de descomprimir , sempre desconfiei da folia com hora marcada , não acho mal mas prefiro não colaborar.
Ontem já era Carnaval , de manhã cedo recebi um telefonema de dois grandes amigos para os quais ainda era de noite , um deles estava incoerente o outro falava do Deco na capa de uma revista cheia de gasóleo, o Carnaval também é feito dessas coisas e eu para esse peditório já dei , apesar de ter ficado contente por eles se terem lembrado de me mandar um abraço mesmo com os neurónios todos em curto circuito.

Aqui há danças de Carnaval , tradições com séculos em que as Freguesias se juntam , mascaram , fazem umas músicas e vão visitar outras freguesias . Há uma fajã , a que se chega depois de uns 2kms a pé por caminhos onde não passa um carro , a pique pela encosta abaixo , onde até há 50 anos viviam pessoas , e não eram poucas , só mesmo indo lá abaixo se pode apreciar o que era o isolamento e as condições de vida destas pessoas . Todos os anos até pelo menos 1950 as pessoas do Porto da Lomba , que viviam no limiar da miséria , juntavam-se , mascaravam-se com o que havia e subiam às Lajes com cantos e danças. Não havia samba nem fantasias elaboradas , havia alegria genuína, porque rara , e versões disto havia por todo o país. Nessa altura em primeiro lugar havia uma religiosidade que hoje desapareceu , para o bem e para o mal, e festejava-se porque a seguir começava a Quaresma , tempo de contrição , reflexão e sacrifício . Também se celebrava porque ao longo do ano não havia quase mais ocasião nenhuma , nem meios , para festejar . São resquícios disso que se vêm nas moças de biquini , lantejoulas e plumas , enregeladas por Ovar ou Torres Vedras , uma reminiscência de uma tradição que quiseram injectar com a alegria e ritmo dos Trópicos com um resultado que eu acho patético. Mas o que eu acho mesmo é que as pessoas se devem divertir como bem entendem desde que não prejudiquem o próximo .
O ano passado deu-se a circunstância muito curiosa de termos a chegar a Portugal o grupo de pessoas que ia coordenar o nosso resgate financeiro , as pessoas que iam assinar o cheque para evitar a falência da Nação. Enquanto estes indivíduos , alvo do escárnio e insultos de muita gente que acha que as más notícias desaparecem se matarmos o mensageiro , se instalaram num gabinete a coordenar esse regaste a Nação meteu 5 dias de férias , mascarou-se e foi sambar , ou ver sambar. Não gostava de ter sido eu a explicar à Troika o que se estava a passar , e se eu fosse parte da Troika , ao saber que havia feriado e "tolerância de ponto" , metia os meus papéis na pastinha , dizia "então bom Carnaval e felicidades" e chamava um taxi para o aeroporto.
Este ano o 1º Ministro achou que já chegava de vergonhas e "acabou com o Carnaval". A mim e desconfio que à vasta maioria da população isto não altera a vida em nada , mas claro que há sempre alguém prejudicado . Como em tantas outras medidas e declarações do Governo , houve falha de comunicação grande , acho que eles ainda não percebem bem o povo que governam. Em vez de meter os pés pelas mãos com adjectivos ( logo transformados em insultos gerais ao Povo) o PM devia ter simplesmente dito que este ano não há tolerância de ponto , o tempo não está para pontes nem tolerâncias de ponto , quanto mais não seja por uma questão de imagem internacional , mais importante hoje em dia que forrobodó e especialmente com a Troika de volta ao país . Para o ano , correndo as coisas de feição ou pelo menos evitando-se a catástrofe , poderemos outra vez ter o fim de semana prolongado para carnaval ou simplesmente para descansar

O que se passa é que o governo ordenou , as Câmaras e demais organismos ignoram e desobedecem , pelo que além da imagem bizarra de um país encravado e falido a parar de trabalhar para fazer bailes de carnaval ( ou recuperar entre uns e outros) damos outra muito pior , um Governo que ordena mas não é obedecido . Isto tá bem encaminhadinho .

16.2.12

Outra Chegada

O meu principal problema agrícola nesta altura é a falta de pastos . Um indivíduo que eu conheço há muitos anos e contava entre os meus amigos voltou atrás com a palavra que me tinha dado e renegou um acordo em que me vendia em Janeiro uma terra onde eu ia instalar a maior parte do rebanho , ficando os pastos ao pé da casa só para mães com crias pequenas. Não mudou de ideias sobre a venda , vendeu a terra a outra pessoa , e eu levei a mal . Como voltar atrás com a palavra dada é coisa que não concebo estava confiante e satisfeito e antes de ir ao continente em Dezembro troquei as cabras por mais ovelhas , comprei a preta que é o animal mais cómico que já tive ou vi , tirando talvez os suricatas e os macacos bonobos , em aspecto e atitudes , e que corresponde bem ao estereótipo da Ovelha Negra , e ainda comprei um carneiro reprodutor ( chama-se Lampião e vem-me comer à mão) .

Caiu o negócio da terra , chegou o Inverno à séria e vejo-me com 3/10 da superfície que necessitava para ter este gado em condições , continuo à procura de uma terra mas não é fácil . Por razões a que talvez volte mais tarde o mercado aqui é bastante distorcido , entre outras coisas pelos subsídios agrícolas , mais uma perversão da PAC que compensa a posse de terra sub utilizada e ineficiente.

Tenho já preparada a única solução possível se não arranjar pelo menos 1000m2 de pasto até ao fim da Primavera : fico com o Lampião , com as duas ovelhas melhores e com a preta , meto o resto na bagageira do Mégane (duas de cada vez) e vou até ao matadouro . Podia pedir a um amigo que as matasse e desmanchasse à borla ou quase , mas para isso eu tinha que estar presente , e eu se puder evitar ver matar , evito. É parte da ordem natural das coisas e não quero criar ovelhas para elas morrerem de velhas e as enterrar , mas dispenso ver matanças. Já com os porcos arranjo maneira de chegar à festa já com o bicho defunto , chamem-me piegas , parece que é um adjectivo em voga.

As ovelhas já se habituaram à silagem ( é engraçado como a fome e a ausência de alternativas melhora o sabor dos alimentos) , a semana passada choveu todos os dias quase todo o dia pelo que o problema era a lama , mas já melhorou. O meu palheiro , a uns esperados 6 meses de se tornar na minha casa reverteu à função original , ando a desmanchar os rolos de silagem e a guardá-la lá dentro , dura mais do que embrulhada nos plásticos na rua , se não apodrecesse nem fermentasse nada tinha comida para elas até ao Verão. Além da silagem comem verduras que vou cortando das minhas sebes e pelas canadas quase todos os dias e um bocadinho de milho de vez em quando , para não perderem o condicionamento de me seguir quando eu ando com um balde na mão , muito práctico para as ir buscar quando fogem.

Bom , é com estas preocupações que vou todas as manhãs , mesmo com 60 nós de vento e chuva horizontal , tratar delas e ontem de manhã houve outro momento daqueles em que o Mundo pára e mostra-nos , só a nós , o Milagre da Vida . Nem os verdadeiros lavradores e criadores de gado ficam indiferentes ao nascimento de uma cria , mesmo que no momento seguinte comecem a pensar em contas , ver um bicho acabado de nascer a dar os primeiros passos e a chamar pela mãe aquece a alma e faz sorrir os mais calejados , sorumbáticos e pessimistas. O meu vizinho mais próximo , que não é dado a eufemismos , não é pessoa de grandes sensibilidades e também tem ovelhas , contava-me a semana passada que lhe chegaram mais duas cordeirinhas .

14.2.12

Amarras Económicas

Criar valor, produzir , poupar , trabalhar mais e melhor , é o que temos a fazer para sair da crise , diz o Governo e eu concordo , parece-me óbvio. Como quem cria valor e produz são as pessoas e não os Governos , para mim o objectivo deste devia ser criar condições para que as pessoas possam fazer isso em vez de condicionar o modo como o fazem e cobrar-lhes dinheiro por trabalhar. Criar condições passa mais por não estorvar do que por ajudar, o que parece simples mas na realidade é muito difícil , estorvar a actividade económica é das ocupações e rendimentos principais dos Estados em todo o Mundo.
Entre Socialistas que acham que o Estado deve regular , controlar , dirigir e taxar tudo fortemente e Liberais que acham que o Estado deve ser reduzido à sua expressão mínima sobra pouco meio termo . Para as esquerdas mais ou menos radicais esta crise prova que o capitalismo tem que ser restringido e controlado , para as direitas a crise prova que o que tem que ser restringido e controlado é o Estado e a Despesa Pública. Para mim reduzir o Estado é reduzir o poder e a importância de processos e pessoas que têm como motivação principal ganhar e manter poder , ganhar eleições e avançar agendas políticas , pessoas com acesso ao Poder mesmo sendo incompetentes e/ou corruptas. Reduzir o Estado é reduzir senão esta gente pelo menos a sua influência . Restringir o Capitalismo a maior parte das vezes é restringir e taxar a actividade económica , as ideias e processos que criam riqueza, empregos e inovação , a liberdade e facilidade de criar e produzir . Como em quase tudo a virtude está no meio , eu nem quero que o Estado desapareça nem que a Economia fique entregue a si própria e desregulada , mas gostava muito de ver o Estado reduzido fortemente e a Economia solta de amarras . Usando essa imagem náutica , um barco não navega se estiver amarrado , mas nem por isso deve deixar de levar no porão as amarras que vão sempre fazer falta . Têm é que ser boas e usadas criteriosamente , um barco pode sofrer danos numa tempestade no cais se estiver amarrado à toa com 12 cabos e ficaria certinho se amarrado com 6 nos sítios certos. E quando a tempestade passa , retiram-se logo duas e assim que o vento é de feição, largam-se as restantes . Os ultra liberais acham que nem no cais o barco precisa de amarras e que pode navegar à vontade , os socialistas acham que é melhor embrulhar o barco num teia e ir ao mar só pela certa.

Em Julho passado criei uma empresa. Ainda não tinha nem financiamento nem meios de produção mas tinha a ideia e o plano e formalizei uma sociedade por quotas. É relativamente recente a possibilidade de criar uma sociedade com capital social simbólico , achei um avanço separar a criação e formalização das organizações da sua operação. Uma coisa é ter um projecto , outra é ter o capital , como diria o sr.de La Palisse . Bom , passados 6 meses a Companhia está preparada para começar a operar , pelo que o novo contabilista da empresa ( eu tive que ser substituído nessas funções por razões legais e também por incompetência) foi declarar o início de actividade às Finanças. Houve um hiato entre a constituição da empresa e a declaração de início de actividade, pelo que há 150 euros de multa a pagar para regularizar a nossa situação fiscal.Eu sabia que ia precisar de um técnico de contas , e se já tivesse um quando criei a empresa ele tinha-me dito que havia este regulamento, mas eu tinha esta ingenuidade de achar que o senso comum se aplica em regra à Administração Pública e pensei que se a empresa não está em actividade não tenho que declarar nada, quando começasse a contratar , comprar , fazer e vender , ou seja , quando entrasse em actividade , declarava o início da mesma. Parecia- me lógico mas a lógica não é o forte das Finanças e é preciso declarar início de actividade mesmo que não haja actividade .

Deste modo o Estado , ainda antes de eu ter começado a trabalhar e para além das boas centenas em taxas e emolumentos que já me cobrou para reconhecer a minha existência , multa-me porque me atrasei a declarar a minha intenção de começar a trabalhar .

10.2.12

Livros e Economia

As livrarias tradicionais estão em crise , já estavam antes desta ultima versão de crise em que vivemos. Não conheço a evolução dos números totais da venda de livros em Portugal , sei que nunca foram motivo de orgulho para muita gente e que andam a par de outros indicadores do nosso atraso. Cresci e vivi numa cidadezinha que já teve 3 livrarias , e mais umas 3 ou 4 papelarias daquelas que também vendiam livros mas em estantes atrás do balcão . Hoje creio que terá uma , e em dificuldades. A terra onde vivia nos EU tinha quase 300 mil pessoas servidas por 2 grandes livrarias e duas ( sei porque procurei exaustivamente , anos e anos) que se poderiam dizer “clássicas” , pequenas , com secções de livros usados e tudo . Uma das grandes faliu e fechou o ano passado mesmo antes de me vir embora , e de todas as queixas que se ouvem ou lêm , cá ou lá , nenhuma é relativa à dificuldades no acesso a livros , além do preço.
Aqui na Ilha não há livrarias . Os correios vendem uns romances e Paulos Coelhos , há uma biblioteca pública ( com excelentes instalações e um fundo a crescer ) e é só. Mas ninguém nesta ilha , tal como em Alcobaça ou Fort Lauderdale , vive hoje em dia sem acesso a livros , emprestados ou comprados , só porque as livrarias fecham umas atrás das outras ou nem chegam a abrir.
Não tenho mais nem menos simpatia pelos editores ou livreiros do que tenho pelos padeiros , jardineiros ou motoristas de autocarro e sou insensível ao argumento que diz que o livro é um bem excepcional , favorito de quem vive de os fazer e vender . Para mim os livros são de facto excepcionais , não imagino viver sem eles e melhor tolerava uma vida sem música do que sem livros , mas apesar disso acho que o Livro não deixa de ser um objecto e um produto como os outros , que tem que seguir a mesma lógica fundamental de mercado , há uma procura de livros e os empresários organizam-se para lhe dar a resposta mais eficiente . Se me dizem que os livros são excepcionais porque ao contrário de um aspirador ou uma lata de atum são veículos de ideias e respondo que hoje em dia quem tem uma ideia em que acredite e queira fazer chegar a muitas pessoas não se põe a escrever um livro , lança-se online , com ou sem livro. Os livros eram a embalagem das ideias ,o digital tirou-lhes o exclusivo pelo que acabou a excepcionalidade enquanto objecto e produto.

Comprei o grosso dos livros que tinha a comprar nos anos de vacas gordas , de 2000 a 2010. Eram o meu luxo , entrava numa livraria e comprava o que queria , seguro de que era também um investimento. Comprava sempre “pela certa” , sempre por géneros e autores ou meus conhecidos ou de recomendação segura , nunca comprei livros para ler “depois” ou a ver se gostava , são muito caros para isso. Hoje estou contente porque estou preparado , com a minha modesta biblioteca , para o Armagedão económico que vejo às vezes anunciado , é muito provável que muito em breve vá deixar de ter orçamento para livros , especialmente sabendo que , como nos lembrou recentemente essa lufada de ar fresco que é o novo secretário geral da CGTP , estamos a caminhar para o Feudalismo . Espero que tarde um bocadinho , e senão , espero que o novo Capitão Donatário da ilha não me obrigue a plantar milho, que dá muito trabalho , e que me permita manter os meus livros , depois de obviamente passarem pela aprovação do Bispo de Angra.
Agora a sério , a escassez material é muito provável e o consumismo para mim está practicamente banido ( e digo isto com um sorriso) pelo que me vou instalar a reler o que tenho e a confiar na Biblioteca Pública para ter variedade e novidades . E espero ainda poder , muito de vez em quando e por necessidades especiais , pegar numa folga orçamental e encomendar um livro específico , como fiz agora com um sobre ovelhas e outro sobre Labradores Retriever , assuntos muito presentes na minha vida que justificam o investimento.
Que uma pessoa num canto remoto possa sentar-se a um computador e encomendar um livro que passados uns dias , ou semanas , lhe é entregue à porta com um custo módico é para mim sinal claro de que o mercado funciona bem do ponto de vista do consumidor , o meu .
Isto veio a propósito de uma peça que li num suplemento recente do Expresso , prescisamente sobre a crise do mercado livreiro . Chamava-se “Círculo Vicioso” e falava sobre os problemas com que se debatem as editoras e as pequenas livrarias independentes , o tom era sombrio mas acabava por realçar a multiplicação de pequenas livrarias e editoras independentes e especializadas (para mim as melhores ). O director, ou editor , da Antígona dizia que entre outras tentativas à procura da solução ( lamento muito já não encontrar o suplemento porque gostava de citar textualmente) estava a preparação de uma loja online.

A Amazon abriu a primeira livraria online em 1995. Há 17 anos , portanto . Eu tinha nessa data uma ténue ideia do que era a Internet , e não acho que o editor da Antígona devesse ter muito melhor , mas nos 17 anos seguintes o debate e revolução na Comunicação e Distribuição fizeram-se só e apenas de internet, e esses já esperava que os editores acompanhassem e participassem a fundo . Estar em 2012 a preparar as vendas online de uma editora com décadas é muito estranho . As qualidades necessárias para fazer um bom produto não são as mesmas necessárias para o gerir e vender , e por incrível que pareça muita gente desconhece isto .

6.2.12

Fantástico!

Tenho que aplaudir a Notícias Magazine porque faz , ou pelo menos a mim parece-me que faz , um esforço para dar a conhecer as coisas boas e notáveis de Portugal e a edição de 29 de Janeiro é um bom exemplo disso. Publica uma entrevista inspiradora a um homem extraordinário , José Redondo , filho de um mais extraordinário ainda, com o mesmo nome .
Com a quarta classe , a trabalhar numa fábrica na Lousã desde os 12 anos , José Redondo pai foi despedido numa das épocas mais difíceis da História , a da Segunda Guerra Mundial.Com as economias (!) comprou a receita e a fabriqueta do licor ao genro do farmacêutico que o criara como xarope e pediu um empréstimo para promover a bebida.
Na Lousã , em 1940 , um homem com a 4a classe sabia perfeitamente o valor e a importância da publicidade e , mais importante , lançou-se ao trabalho sem medo. Inventou os cartazes nas estradas , e por causa deles teve mil problemas : "quando foi proibida a publicidade nas estradas , em 1961 , foi a tribunal 93 vezes.Só perdeu a primeira vez , porque levou um advogado que não soube defendê-lo e o juiz acabou por o condenar . A partir daí ia sozinho , todas as semanas , duas , três vezes, em várias comarcas do país.E ganhou-as todas".
Republicano convicto , mandava foguetes no 5 de Outubro , apesar de ser proibido , dizendo que celebrava o seu aniversário de casamento , especialmente para chatear as velhas famílias monárquicas . Apesar de republicano e anti clerical , funda o CDS na Lousã , motivado , digo eu , pela necessidade de fazer alguma coisa de concreto pela situação real dentro dos seus princípios , sem grandes preocupações com contradições ideológicas.

O filho , que tem hoje 69 anos , só é menos impressionante que o pai porque já teve outra educação e já viveu num tempo moderno . Habituado a trabalhar e poupar desde garoto , fez do Licor Beirão e da empresa o que ela é hoje , 32 empregados que ganham em média 900 euros , produzem quatro milhões de garrafas , tem 18 milhões de euros de facturação por ano e exporta para todo o Mundo.Levanta-se às 5 da manhã para ler os jornais e pediu a reforma com 2 anos de atraso porque se esqueceu. Automatizou a parte possível da produção com capitais próprios e "serve-se dos bancos para lhe pagarem rendimentos".
Além da família , da Lousã e do trabalho tem uma paixão por rugby e inventou as camisolas justas que não permitem os jogadores agarrar-se aos adversários nas placagens , que são usadas por todas as equipas hoje em dia. Dois dos 4 filhos trabalham com ele e alguns dos 10 netos pequenos andam pela fábrica e fazem "relatórios" para o avô , que lhes paga com referência a uma tabela negociada, entre um e cinco euros. Quando no futuro este miúdos tiverem sucesso vai haver quem diga que foi por terem nascido ricos e não por terem aprendido desde miúdos a estudar , trabalhar e poupar.
Enfim , vale a pena ler uma entrevista excelente com um homem excepcional para nos fazer pensar sobre Portugal e o que é possível fazer aqui. Se um rapaz de família humilde , com a 4a classe , a viver no interior atrasado de um país que vivia sob uma ditadura num continente em guerra consegue fazer o que fez José Carranca Redondo, qual é a nossa desculpa ?

A publicidade do Beirão , sendo pioneira em Portugal , sempre foi das melhores , desde o slogan "o Beirão de quem todos gostam" , dando o toque ao Salazar , até ao Porsche amarelo do Futre passando por contratar o Manuel João Vieira há uns anos , e esse gajo a mim faz-me rir só de olhar para ele . A última , a oferecer o Licor à Merkel e ao Sarkozy e a dizer "Portugal está a dar o seu melhor" mostra um pouco a filosofia deste homem . Acho que em Portugal toda a gente que sabe o que é licor conhece o Beirão , eu gosto mas só bebia um muito de vez em quando .
Nestes dias só bebo álcool numa ocasião , que é quando há jogos do Sporting , a mesma única ocasião em que saio de casa à noite , vejo televisão ou passo mais do que 5 minutos num café . Bebia uma meia dúzia de minis por jogo , agora bebo Licor Beirão , o Licor de Portugal.

2.2.12

50 anos de PAC

"A Europa Num Minuto" é um programa de rádio que dura isso mesmo , é transmitido na Antena 1 Açores e é propaganda da União Europeia. Hoje celebrava os 50 anos da PAC , "50 anos de segurança alimentar e espaços rurais vivos na Europa".

É pacífico que a União Europeia proporcionou a Portugal 30 anos de um nível de vida muito superior às suas possibilidades , por isso vir agora ralhar contra a UE é um bocado mau. Apesar disso , acho que a PAC é um desastre inqualificável , e tem piada que se celebrem os 50 anos desta aberração no dia em que soube que além de haver um subsídio para ter ovelhas posso também ter um para as abater. A PAC em toda a sua racionalidade e esplendor.

Ao que os eurocratas chamam "segurança alimentar" chamo eu proteccionismo e dirigismo económico , barrando o acesso a produtos mais baratos de Africa ou da America do Sul e mantendo os preços dos alimentos artificialmente baixos à custa de subsídios , gastando fortunas para coisas fulcrais ao bem estar dos cidadãos como fazer com que as maçãs venham todas com 6cm de diâmetro ou coisa que o valha. Manter os espaços rurais "vivos" à custa de gastar biliões a pagar a agricultores para não produzir ou para produzir o que o mercado não quer a preços que o mercado não comporta também é muito esperto. Era interessante que os eurocratas perguntassem às pessoas que eles supostamente representam se acham que manter um "espaço rural vivo" merece o investimento colossal que foi feito ou se gostavam mais de melhores hospitais ou menos impostos , por exemplo . Esta do "espaço rural vivo" como objectivo ainda é mais engraçada quando se vê a distribuição dos subsídios da PAC: creio que uns 75% dos apoios vão para as grandes empresas agro industriais , uma maneira interessante de manter o espaço vivo e pitoresco , com a sua maquinaria gigante , latifúndios , overdoses de química e outras características da agricultura industrial. Ao mesmo tempo que se financiavam assim esses gigantes agrários impediam-se os pequenos agricultores de trabalhar , sufocando-os com regras e condicionamentos , pervertendo a liberdade de produzir o que se quisesse , escolhendo as culturas que lá em Bruxelas achavam indicadas. Cabe dizer que a PAC é obra e benefício da França , não é uma ideia saída "da Europa" . Dirigismo , estatismo e socialismo mais ou menos disfarçado, é a França no seu melhor.
Para o consumidor , sem dúvida muitíssimo grato por estar livre do horror de ter legumes de tamanhos diferentes e do medo constante de ter leite Argentino ou kiwis Marroquinos mais baratos , o principal resultado da PAC são os preços artificialmente baixos , que como só são possíveis por subsídios que vêm dos orçamentos de estado em última análise são pagos pelos contribuintes , e uma paisagem rural que está , pelo menos em Portugal , muito longe de estar viva .Não darem acesso à Europa a produtos agrícolas do terceiro mundo para depois gastarem milhões em auxílio humanitário também é muito inteligente.

Agora decidiram regular os galinheiros , quem produz ovos tem que ter 750cm2 por cada galinha , com uma cama , um poleiro e algo para desgastarem as unhas. Quem escreve estas regras não se incomoda muito se a dúzia de ovos dobrar de preço por causa desta intervenção , reclamada pelas galinhas há décadas , até porque devem estar a prever um apoio da PAC aos produtores de ovos , para que os contribuintes paguem aos produtores para terem galinhas felizes sem que os preços na loja subam demasiado. É com estas merdas que estes gajos se preocupam , com a União a tremer nas suas fundações , os mercados em queda livre , o desemprego a subir e a confiança dos cidadãos em colapso. Mas temos laranjas normalizadas , galinhas confortáveis e pagamos por um litro de leite na loja menos do que o que ele custa a produzir e levar ao mercad . Isto há-de fazer sentido para alguém.


30.1.12

Contas

Notícia do dia na Antena 1 Açores relativa aqui à Ilha : o Banif , um dos 2 bancos existentes aqui , pede a insolvência de uma empresa de construção que , fiquei a saber , era a maior empregadora desta ilha. Devem ao Banif 25 milhões de euros e protestam contra este pedido que deu entrada hoje no Tribunal de Santa Cruz porque , dizem , têm também eles dívidas a receber. Entre autarquias e outras instituições regionais a empresa tem 6 milhões de euros de créditos. Como já ouvi a notícia 3 vezes não me enganei: devem 25 milhões , mas como lhes devem 6 acham que não deviam abrir falência. É a contas destas que devemos a nossa situação presente.

Sousa Tavares , o Álvaro e os Pastéis de Nata

Não é ódio de estimação mas é quase , a implicância que eu tenho com o Miguel Sousa Tavares. É curioso porque até concordo com grande parte dos princípios e posições dele , acho que é principalmente uma questão de estilo.
Ofereceram-me uma vez um livro dele chamado Sul , baseado num ego valente e anedotazecas banais , pesquisa escassa , análise superficial e opiniões requentadas , dinheiro esbanjado pelos empregadores ( muitas vezes o Estado) que lhe diziam “tome lá este cartão de crédito e vá à Guiné Bissau escrever uma peça” , a fundação ideal para uma “aventura” , daquelas que começam a uma Terça e acabam a uma Quinta com itinerário e bilhete de regresso marcado .
Ele provavelmente diz que esse livro foi a “fundação” para uma geração de novos escritores de viagens , dos que nos oferecem obras como o recente “As Minhas Viagens pelo Mundo” , livro cujo título revela logo as aptidões literárias do autor. Obrigado ao MST pela fundação , sobre mediocridade não pode ser edificada outra coisa.

Da sua prodigiosa e celebrada carreira jornalística sobressai a direcção da Grande Reportagem , que por acaso até faliu mas isso deve ter sido por culpa de todos menos de quem a fazia e geria. Ah , é verdade , ele já não era director quando faliu, era outro grande gestor que agora por acaso é Secretário de Estado.
Alguns anos depois ofereceram-me o Rio das Flores , que tive que ler para poder ter uma opinião sobre o talento do homem nos romances . Aborreceu-me de morte , falei do livro neste post , e depois disso claro que nunca mais li nada dele , à primeira todos caem , à segunda nem por isso. No Equador parece que parágrafos inteiros e cenas e personagens completas coincidiam com uma obra anterior por pura coincidência e fruto da "influência" , e depois disse modestamente que "pôs o país a ler" , o que é no mínimo inverificável e no máximo uma mentira desavergonhada . Num país como o nosso a parte que “pôs a ler” , eventualmente , foi o segmento das pessoas que compram os livros que estão na pilha maior do supermercado e aparecem nos tops , entrando nesse interessantíssimo círculo que diz que um livro está no top porque é conhecido , e é conhecido porque está no top. Uma mina para figuras televisivas , abrindo caminho para valores como a Margarida Rebelo Pinto e José Rodrigues dos Santos , outros dos nossos colossos literários.

Descartada a prosa de ficção resta a crónica no Expresso. Farto-me de rir a lê-lo a defender a causa do fumo livre , o píncaro do egoísmo retrógrado que confunde a liberdade de fazer o que lhe apetece sempre e em qualquer lado , mesmo actividades comprovadamente perniciosas para ele e os outros , com a liberdade individual.
Na penúltima crónica brindou-nos com uma frase cujos editores do Expresso pespegaram gulosamente na primeira página , falava das nomeações da EDP e ridicularizava o suposto sotaque Chinês com a brincadeira muito espirituosa de escrever “quelemos o Edualdo Catloga e a Celeste Caldona” , ou coisa que o valha. Isto é achincalhamento gratuito , como é moda malhar nos chineses passa , gostava de saber o que é se levantaria se escrevesse “é pá , quérémos qui os gerenti dos nosso Banco novo pá seja o Amáral “ . Caía o Carmo e a Trindade , não só porque é de mau gosto gozar publicamente com os sotaques das pessoas mas porque os Angolanos estão mais atentos a estas coisas que os Chineses , têm cá mais músculo e alguém ia pagar. Depois deste floreado jornalístico tão engraçado e edificante fala na última edição sobre o Ministro da Economia. Este Ministro tem um problema básico e grave: é um estrangeirado , que em Portugal raramente é passaporte para o sucesso e frequentemente é garantia de ostracismo. Antes queremos os medíocres do costume nascidos e criados aqui que alguém “de fora” nos venha dizer como fazer as coisas. O Ministro , que conhecia obviamente pouco de Portugal e vinha carregado de boas intenções , cometeu logo o erro de pedir que o tratassem por Álvaro. Num país em que qualquer licenciado é Doutor e qualquer borra botas que estudou à noite e que ocupa um “cargo” é Excelência , isto despertou obviamente escárnio . Mas isto foi há seis meses , por isso esperava-se que agora a brincadeira tivesse perdido a piada , mas não.
Miguel Sousa Tavares , do alto da sua excelência académica , experiência de gestão Pública e Privada e negociação laboral , veio escoriar o Ministro a propósito do acordo de Concertação Social. Numa demonstração de mesquinhez e um sentido de humor e estilo na linha de ridicularizar o sotaque dos chineses , intitula a crónica “E os patrões , Álvaro?” e a partir daí usa mais de 20 vezes a palavra “Álvaro” , como se a repetição reforçasse a sua opinião abalizadíssima sobre a Concertação Social e este pretenso ridicularizar do ministro acrescentasse alguma coisa à força da sua análise. Olhando para a sua bola de cristal e servido da sua linha directa para “os empresários” , MST assegura o Álvaro que “os bons patrões não precisam do seu pacto nem acreditam nele e os maus vão exigir o que falta”. Como é que ele sabe isto ? Diz que tem pena do Álvaro , provavelmente porque os seus esforços para reformar o país vão ser vãos ou contraproducentes ( “você iniciou uma guerra civil") ao passo que os esforços e responsabilidades do Miguel Sousa Tavares para reformar e ajudar o país são...ah , é verdade , foram , são e serão inexistentes , a menos que se conte dar opiniões e escrever novelas como contribuição para as reformas e o crescimento económico.
O que eu gostava mesmo era de ver o MST , sempre a retorcer as mãos e a agonizar sobre a desgraça da Pátria e a fraca qualidade dos Portugueses como Povo , pegar no seu capital de figura pública , autor celebrado , pena sagaz , independência e honradez hereditárias e competência a toda a prova , e candidatar-se a um cargo público. Podia ser coisa pequena , mas um cargo onde ele pudesse contribuir para corrigir e melhorar a situação e lutar contra as injustiças , que ele de certeza que sabe o que há a fazer na Saúde , na Educação , na Justiça , enfim , no País , e tem que se dar oportunidade a pessoas destas para salvar Portugal. Depressa se ia ver reduzido à sua dimensão real e acabava-se-lhe o gosto pelas piadinhas com os chineses e o Álvaro , mas uma coisa que o homem não é é estúpido , por isso nunca se vai meter nisso , é muito mais seguro e confortável assim , não tem que fazer nada a não ser criticar e os cheques pelas críticas vão caindo ao fim do mês. Um bom exemplo disto é o Francisco José Viegas , que anda muito mais caladinho, discreto , respeitoso e humilde desde que passou a ser Secretário de Estado responsável em vez de debitador de críticas como dantes.
Podiam-me fazer a mesma crítica , resguardando as devidas dimensões : também falo muito mas para reformar e desenvolver o país concretamente faço pouco , mas é uma questão de escala: quem escreve todas as semanas no Expresso , aparece nas televisões todas e é conhecido nacionalmente tem responsabilidades bem diferentes dos desconhecidos que escrevem em blogs obscuros .

Voltando ao Álvaro , o homem teve a desfaçatez ridícula de sugerir que um produto Português , de qualidade incontestada e apreciação generalizada , fosse trabalhado pelo seu potencial enorme de exportação. Desde os cartoons com um pastel de nata no meio da bandeira nacional até ao Ricardo Araújo Pereira na Visão , passando pelo Carlos Zorrinho , personalidade que transborda de boas ideias para internacionalizar e dinamizar a economia que infelizmente não lhe ocorreram nos seis anos em que foi governo , toda a gente malhou nos pastéis de nata do Álvaro. Claro que para a pergunta “então se os pastéis de nata são uma má ideia , sugerem o quê?” , as respostas escasseiam. O sector das tecnologias de ponta , dizia um , como se fosse questão de abrir uma fábrica de tecnologias. De todas as críticas que li , desde as civilizadas e bem escritas até às javardices estúpidas , ninguém foi capaz de dizer “ internacionalizar os pastéis de nata é má ideia porque A, B e C e o que se devia fazer em vez disso era E , F e G”. Não. Deitar simplesmente abaixo , como se homem tivesse vindo dizer que os pastéis de nata iam resolver o défice.

Não sei se vamos alguma vez exportar toneladas de pastéis de nata , não sei se o acordo de concertação social vai dinamizar a economia ; não sei se a receita do Governo vai resultar ou se vai deixar Portugal na miséria , mas tenho simpatia pelo Álvaro , não só por ser liberal convicto como pela coragem e patriotismo que mostrou em vir-se meter neste ninho de víboras e tentar impor a sua visão e fazer as reformas em que acredita , ao invés de ficar descansado na sua cadeira a fazer críticas e crónicas .

26.1.12

Cercas & Ovelhas


Há uma diferença considerável entre uma cerca ou muro que pare uma ovelha nas suas deambulações e ruminações normais e uma que faça o mesmo a uma ovelha assustada.
Estava todo satisfeito com a meu último melhoramento agrícola , duas cercas com uns 300m2 cada uma , com estacas , duas fiadas de arame farpado e alguns muros e sebes pelo meio , que eram suposto conter o rebanho e permitir alternar entre uma e outra terra durante o inverno , para não haver lamaçal e a erva ir rebentando. Até fiz uma cancela e pintei-a de azul , estava como dizia muito satisfeito para receber o pessoal dos Serviços Agrícolas que vêm desparasitar e tirar amostras de sangue às ovelhas , uma vez por ano. Ora as ovelhas não estão habituadas a receber muita gente e são bichos de rotinas , o nível de tolerância em geral é um , e também têm alguma memória.A última vez que viram 3 indivíduos de fato macaco azul a caminhar para elas foi para serem picadas , metidos tubos pela boca abaixo e terem as orelhas furadas a alicate. Isto são coisas desagradáveis , e elas compreensivelmente revoltaram-se. E foi uma ovelhada , versão inversa da tourada em que o bicho foge em vez de carregar e os lidadores perseguem em vez de evitar, com direito a fintas e placagens e tudo.
Se não estivesse tão ralado com a operação toda tinha pegado na máquina fotográfica para documentar ovelhas a saltar muros de um metro e meio em sequência , prontas a serem contadas para adormecer, ou a enfiarem-se em fila ordenada e rapidíssima por buracos no arame farpado que iam alargando enquanto deixavam bocados de lã agarrados.Até o prender o cão foi ajudando a espalhar a confusão , e aquilo tudo demorou mais do que os homens estavam à espera e causou mais danos do que seria de esperar nas minhas cercas e nas minhas irrisórias credenciais de pastor . No fim montei outra vez a cerca eléctrica enquanto peço um novo projecto de cerca ao meu Departamento de Infraestruturas Agrárias . Não é que elas se apoquentem muito com os choques quando estão assustadas ou esganadas com fome , até porque a lã dá um certo isolamento e tolerância , mas , lá está , elas lembram-se bem que aquilo dá choque e só em desespero de causa é que se lembram de se aproximar.
Se alguma vez fizerem uma cerca para ovelhas a melhor coisa para verem se está boa ou não é porem lá as ovelhas e depois espantá-las , e depois logo se se vêm os pontos fracos.
Entretanto , com medo de não ter comida que chegue para o inverno , comprei 5 rolos de silagem para aí de 500kg cada um , num nítido exagero saído da ignorância , temo que grande parte apodreça até porque as ovelhas , nesta primeira semana não mostraram grande apetite pela nova dieta. Ao contrário do cão , que à variedade quase infinita de coisas que gosta de comer juntou a silagem do gado.

25.1.12

Gosto de pelo menos escrever uma vez por semana mas às vezes falha , por várias razões. Ou escrevo coisas que em segunda leitura valem pouco , ou não tenho assunto , ou tenho mil assuntos que me ocupam e preocupam e que não são para publicar .

Do lado da política , parece-me que desisto , não de ter opiniões , naturalmente , mas de as publicar. Aliás , estou a ponderar seriamente deixar pura e simplesmente de seguir a actualidade tal como ela nos é retratada pela comunicação social . Mesmo sem TV e com jornais uma vez por semana estou saturado de “notícias” , ainda por cima quanto mais vou percebendo que isto tudo que estamos a viver é velho como o dia , já foi tudo inventado , feito e dissecado. No outro dia estava a ler um livro sobre a Batalha de Aljubarrota e havia um parágrafo inteiro sobre a Crise que se vivia na Europa que podia ser transcrito integralmente e fazia todo o sentido se disséssemos que era em 2012 ao invés de 1384 . Os Homens são os mesmos , com os mesmos motivos e relações de poder, o que de certa maneira é deprimente porque se esperaria que milénios de misérias tivessem ensinado alguma coisa às pessoas , ensinaram muito mas não o suficiente para não termos sempre os mesmos problemas , sempre com tendência a serem mais graves e abrangentes dado o crescimento do Mundo. Tenho a certeza que encontrei a solução , mas é uma solução egoísta e impracticável numa escala global ou mesmo nacional . Encontrei a minha solução , e precisamente por ser inviável e indesejável que toda a gente a siga é que não vale a pena elaborar muito sobre ela.

E tenho medo , como toda a gente com um certo discernimento , pelo futuro de Portugal , que não vai acabar mas ainda vai sofrer muito. Como o Sporting , mas o Sporting ainda pode vir a ser campeão nas próximas décadas enquanto que Portugal ...vai-se arrastar nisto , nem sequer o meio da tabela quanto mais líder do campeonato.

O PSD ia fazer as imprescindíveis ( pelo menos desde o 25 de Abril ) reformas do Estado. É certo que a legislatura ainda mal começou , mas todos os cancros ou se mantêm ou reforçam. Nem equilibrar o orçamento os gajos conseguem , com a população de cabeça baixa a aceitar o que venha , nem assim , com maioria e mão livre , estes gajos conseguem equilibrar o primeiro orçamento quanto mais reformar o Estado. Vão bardamerda , é insultar a inteligência das pessoas , é pensar que a nação tem amnésia colectiva e que se pode vir dizer uma coisa num dia e passado dois meses vir dizer outra e achar que as pessoas desculpam tudo.Ainda ontem o 1º Ministro dava "garantias" sobre uma coisa qualquer , que valem naturalmente tanto como as outras garantias que já nos deu no passado recente.

E o desespero vem de saber que ninguém tem solução . O PSD é igual ao PS , com umas cambiantes quase imperceptíveis , e não são os comunistas nem os fascistas , que continuam a achar que o que teoricamente resultaria em 1950 pode resolver os problemas de 2012. Nem os “independentes” ( a figurinha do Fernando Nobre....) , nem os “movimentos” que podem às vezes pôr o dedo na ferida mas o dedo está sujo e não têm gazes nem desinfectantes nem vitaminas. Não temos modelos no estrangeiro para emular , e não me venham com a Islândia . Lembro-me de uma vez o Sócrates ( o execrável , não o Filósofo) dizer que queria “prosseguir o modelo Escandinavo”. Em que altura ele abandonou a ideia e porquê , é incerto , sei que nesse estudo e intenções devem ter escorrido umas centenas de milhar mas o que nós adoptámos do modelo escandinavo, se ele existe , foi zero. Nem as nossas escolas , nem os nossos tribunais , nem a Assembleia , nem a fiscalidade , nem o resto , têm alguma coisa de vagamente Escandinavo. Estou convencido de que é impossível importar um modelo completo de outro país , mesmo que isso fosse desejável . Podem-se importar individualmente métodos , ideias e processos , mas é impossível importar um modelo completo. Temos o modelo Português , que pelo menos já deu para estarmos aqui 900 anos , mas há pessoas que almejam um bocadinho mais do que simplesmente existir , e para esses o nosso modelo sempre foi muito claro , e eficaz : façam-se à vida , lancem-se ao Ultramar , saiam daqui para descobrir e ser descobertos.

É um desespero ver que não há um governo e um Estado capazes de olhar para o que resulta e não resulta por esse Mundo fora , implementar cá o que resulta e descartar o que já deu provas de ser pernicioso. Não há , e a razão é simples: o Estado não tem interesse em reformar-se a si próprio , e como só ele pode fazê-lo , estamos conversados. As reformas que fariam a diferença , na minha humilde opinião , implicariam sempre perda de poder , influência , controlo , prerrogativas e rendimentos para o Estado , e é difícil isso ser aceite . Experimentem lá propor à Assembleia da República que vote , por exemplo , sobre cortes nos privilégios e aumentos nas obrigações dos deputados a ver onde é que chegam. Desde que há aqui eleições livres que percebemos que os políticos querem ganhá-las antes de querer o Bem da Nação , e muitas vezes essas duas coisas excluem-se mutuamente. Não há volta a dar-lhe.

No mudo real , tem sido só cercas , muros , ovelhas , e árvores . Ontem plantei um limoeiro, hoje vai ser um castanheiro , 4 tangerineiras e uma criptoméria. As ovelhas estão quase quase arrumadas , ainda assim ontem deitaram abaixo um muro de pedra e escaparam-se , as 6 mais a cria ( o carneiro não foi porque não cabia) pelo buraco que ficou, passei umas horas à procura delas e a trazê-las de volta. O cão ainda não atingiu bem os objectivos do exercício e não é grande ajuda , mas é sempre companhia , e estas fugas são más porque corro o risco de elas entrarem numa terra qualquer e comerem e estragarem a erva, o que desagrada muito aos donos , mas são sempre passeios muito cénicos , e nem tem chovido....

16.1.12

Telhas

Um dos meus principais objectivos para este ano é ter casa própria. Quem vir a minha propriedade assim de repente não aposta muito nas possibilidades de uma habitação decente poder existir ali dentro de de 8 meses , mas vai ser possível . Nem quero pensar na quantidade de coisas estranhas , extraordinárias e inesperadas que vão acontecer , só espero que sejam mais alegres que tristes , menos negativas e mais positivas , como a que me aconteceu este fim de semana .
Aqui há coisas que custam menos por via dos impostos reduzidos , como o gasóleo ou o tabaco , mas há outras que custam muito mais , como os materiais de construção. Por exemplo , as telhas , uma custa aqui 1,2 euros e em Alcobaça custa 39 cêntimos. Eu preciso de , contas redondas , 500 telhas , duas paletes. Se as comprar aqui custam-me 600 euros e vão-mas pôr à porta (na Primavera quando a passagem pela terra vizinha estiver livre da manada de vacas e do lamaçal que lá está nesta altura) . Se as comprar no continente custam-me 195 euros , mas tenho que as trazer para cá. Os 400 euros da diferença davam bem para o transporte , especialmente porque há mais coisas para "importar" , não era muito simples , mas era o que ia acontecer.
Ontem de manhã recebi uma mensagem a dizer-me que um indivíduo daqui perto vendia mil telhas por cem euros , mas tinha ser já . Se fosse amanhã já eram 150 , e por aí além. O homem estava a limpar uma terra que quer vender , um amigo meu levava umas 3 carradas de areia e a pedra toda de um palheiro caído e eu se quisesse levava a telha, eram de uma antiga escola primária. Foram seis viagens no fiel Mégane quase a bater a suspensão e duas numa land rover pick up , carregadas e descarregadas 4 kms depois para as traseiras do posto do leite à beira da estrada e depois mais uns 100 metros às costas e de carro de mão por essa canada (flores no meu caminho em Janeiro) que é o meu acesso .
Alistei a ajuda de um moço daí que me crava uns trocos sempre que me vê , eu gosto mais de lhe dar trabalho , beneficiamos os dois. Não prima pela inteligência mas não há o que não perceber em "carregar telhas , descarregar telhas" , é trabalhador e bom rapaz , ou pelo menos a mim parece-me . Podia fazer tudo sozinho mas levava 2 dias , assim ficou tudo feito em 8 horas. Não são mil telhas mas quase , e é certo que são velhas , mas são muito melhores e mais novas do que as que estão no telhado agora e tenho de sobra para a casa toda , um alpendre e para um curral para as ovelhas , tudo por 135 euros, já estão à porta e nem choveu. Ganhei bem o fim de semana!

12.1.12

A Islândia

Esta ilha maravilhosa que toda a gente gostava de visitar mas onde poucos além dos Islandeses gostavam de viver volta outra vez à baila nos jornais e redes sociais porque vai crescer outra vez , depois de prenderem a maioria dos banqueiros e correrem com a maior parte dos políticos. Segundo um site neutro , equilibrado e credibilíssimo chamado "Anti Nova Ordem Mundial" , o crescimento da Islândia triplicará em 2012. Há mais notícias do género , anda muita gente exaltada com a Islândia e eu gostava de dizer o seguinte sobre isto:

-A Islândia "triplicará" ( notar o uso do futuro condicional) o seu crescimento este ano na opinião de alguns economistas ou analistas , que quando concordam com a nossa visão são credíveis e honestos , quando nos dizem coisas das quais não gostamos são uns incompetentes feitos com o sistema.
- A crise da Islândia tem pouco a ver com a nossa. Lá o sistema bancário implodiu fruto de fraudes e investimentos desmiolados , e foi isso que arrastou o resto da economia. Daí que os banqueiros islandeses tenham responsabilidades criminais claras , inequívocas e generalizadas , que possibilitaram serem todos presos , ou quase. Nesse nível de roubalheira cá , que eu saiba , só o BPN. Cadeia para esses , mas achar que "os banqueiros devem ir todos presos" é pueril.

- A Islândia tem 320 mil pessoas. Portugal tem 10 milhões e meio. Alguém no seu perfeito juízo pode defender soluções iguais , ou mesmo semelhantes , para essas duas realidades? Uma das coisas concebíveis no caso da Islândia e inconcebíveis em realidades maiores é o modo como estão a fazer , ou já fizeram , a nova constituição: o crowdsorcing , um método que eu não gostava de ver experimentado aqui mas acho bem que alguém experimente nalgum lado. O pessoal anti globalização já conta esta constituição como um êxito, um triunfo depois de 4 meses .

Desejo sorte aos Islandeses , que bem precisam e merecem porque vivem num ermo gelado e vazio que em boa parte do ano tem 4 ou 5 horas de luz por dia. Parece que há muitos portugueses que não se importavam de viver assim , se lhe dessem mais 2 ou 3 mil euros por mês. É claro que muita gente gente tem uma opinião aqui , que depois seria calibrada com a realidade , mas por agora a Islândia é um espectáculo, até prendeu os banqueiros e o governo (mais correctamente , substituiu-os) e agora vai crescer em saltos e pulos.

Fiquemos atentos a como corre a vida dessa nação ainda mais irrelevante do que nós na Economia Mundial , e entretanto acho que estão a dar visas de imigração pelo que é uma oportunidade única para muitos críticos e desesperados poderem mudar de vida.

Acho que o Grupo Desportivo de Carrazeda de Ansiães despediu o contabilista , demitiu a direcção em assembleia geral , alterou os estatutos e pagou as dívidas , estando agora muito competitivo na distrital série E . Porque é que o Benfica e o Sporting não fazem o mesmo?