26.4.11

Energia Nuclear

O desastre do Japão trouxe outra vez para a actualidade o debate sobre a energia nuclear , com o pessoal a tirar a poeira aos slogans e cartazes dos anos 80 , nuclear não obrigado . Este slogan era muito honesto , porque quando dizemos "não , obrigado" reconhecemos que a oferta tem valor , nós é que não estamos interessados , e foi pena que não estivéssemos. Nos anos 80 ainda não conhecíamos bem a extensão do problema das emissões de CO2 para a atmosfera e as consequências que têm para o futuro da Terra . Hoje já as conhecemos melhor , pelo que seria de esperar que o facto de o nuclear ter zero emissões fosse mais levado em conta , mas parece que não é. Eu sou a favor da energia nuclear mas sei bem que Portugal muito dificilmente alguma vez vai ter essa tecnologia , especialmente agora que não há dinheiro , e tenho pena. A minha defesa do nuclear :

- Alguns dos países mais desenvolvidos e ricos do mundo como EUA , Reino Unido , França e Alemanha usam a energia nuclear . O preço da electricidade não é um pormenor de somenos nas contas do PIB , já para não falar na ciência que esses países são obrigados a desenvolver para montar e operar os sistemas.

- O risco de acidentes existe , mas morre por ano mais de um milhão de pessoas nas estradas do mundo , só em Portugal a sinistralidade rodoviária custa ao país 4 mil milhões de Euros por ano (!) e não é por isso que se faz campanha contra os automóveis nem se propõe que deixemos de conduzir.

- A central nuclear espanhola de Almaraz está a menos de 100kms da fronteira. Isto faz--me pensar que partilhamos a maioria dos riscos enquanto não temos nenhum benefício , e é mau.

- No geral das instalações nucleares do mundo , Three Mile Island , Chernobyl e Fukushima (onde houve acidentes) representam uma parte ínfima . A probabilidade de morrer contaminado por radiações é ainda mais pequena do que morrer num acidente de automóvel ou de uma congestão , mas o folclore em torno da coisa é maior , pelo que mete muito mais medo.

- Resíduos à parte , é a tecnologia geradora de energia mais limpa que conhecemos. Os ambientalistas fundamentalistas que são os críticos mais acérrimos do nuclear não nos oferecem alternativas além da redução do consumo ou energia eólica ou solar que sai , contas feitas e no estado presente da tecnologia , umas 3 vezes mais cara. Boas intenções nunca pagaram as contas ao fim do mês.

- Até no Japão não há falta de sítios onde não haja terremotos nem tsunamis , e a tecnologia de construção moderna é tal que sem estes fenómenos externos garantem-nos que as centrais são 99.9% seguras. Há quem diga que nem esse 0.1% é tolerável , eu acho-o risco mais do que tolerável para os benefícios de ter electricidade produzida no país , barata e limpa.


Por isso tive muita pena que a desgraça dos Japoneses contribuísse para lançar a causa do nuclear 20 anos para trás no tempo e para carimbar definitivamente Portugal como país livre de nuclear .

5 comentários:

Anónimo disse...

Caro Jorge Ventura
Já agora que tal um comentário ou reflexão sobre a energia hídrica e os fundamentalistas a não quererem a construção de barragens?
Um abraço
João GM

J.Ventura disse...

Caro João , isto da energia é um assunto vasto , eu não sou muito optimista e tenho duas medidas diferentes:
A primeira vale para mim pessoalmente , e defendo as teses mais radicais , tenho uma casinha nos Açores que vou começar começar a recuperar para a semana e vai funcionar a 12V como um barco , gerador eólico e consumo mínimo.
Mas sei bem que não se pode pedir a toda a gente que viva assim , de onde precisarmos de fontes de energia "sérias" como as barragens , centrais térmicas e , noutros países , nucleares.

Não estou informado sobre o potencial hídrico do nosso país , se há condições para mais barragens , lembro-me da parvoíce que foi a história de Foz Coa para ao fim de quê , 15 anos , e milhões perdidos em obras paradas e custos de oportunidade , aquilo ter sido visitado por 30 mil pessoas.Achava que deviam ter pegado nas gravuras e feito um museu numa cota alta , mas não , parou tudo.

Por isso para mim pessoalmente defendo o que defendem os ambientalistas: redução do consumo ao mínimo e exploração de energias limpas e renováveis. Para "o resto" acho que o importante é lembrar aquela das omeletes e dos ovos , não podemos ter o nível de vida e os hábitos que temos sem os custos da produção e distribuição de energia , sejam eles poluição atmosférica , guerras no medio oriente , aldeias afundadas ou riscos de acidente nuclear.

Anónimo disse...

Senhor Jorge sou seu conterrâneo e também tenho um barco onde às vezes ando para me afastar deste nojo todo. Há uns meses quando comecei a visitar o seu blog se soubesse que não passa de um manifesto pró Bush não tinha perdido o meu tempo a ler e comentar. Parece que afinal tinha razão e o senhor assumiu que isto não tem nada a ver com honestidade intelectual só com interesses. Você também tem ideais e todos juntos são a receita da “tempestade perfeita” . Monarquia, neoliberalismo, direito de ingerência sem ideais, centrais nucleares, falta alguma coisa? Parece que não viu noticias nos últimos 5 anos. Percebo que tem muitos amigos e admiradores fieis sorte a sua desejo-lhe sinceras felicidades.

J.Ventura disse...

Caro Anónimo , lamento que se tenha sentido desiludido e que tenha desperdiçado o seu tempo a ler o que escrevo , pensava que as pessoas que me liam identificavam logo à primeira as minhas inclinações.
Essa do pró Bush é que não pode passar , desafio-o a encontrar nos anos de publicação disto um só escrito em que eu defenda o homem. A honestidade intelectual nunca valeu para políticos nem nações , vale para indivíduos e para mim significa não alterar nem inventar factos , aplicar os mesmos argumentos e lógicas a realidades diferentes , ter opiniões sólidas e justificá-las , tirar conclusões de factos passados. Desonestidade intelectual seria ralhar contra os "interesses" em público ao mesmo tempo que admitimos em privado que são e sempre foram o motor do mundo. Todos temos os nossos e é preciso discuti-los abertamente e encontrar os que são comuns a toda a gente.

A Monarquia constitucional que eu prefiro como regime político não vai avançar em lado nenhum e não é no fundo uma proposta realista , mas não é por isso que não deve ser discutida.
Sou adepto do liberalismo , é verdade, isso está escrito aqui por todo o lado,mas se pelo uso do prefixo "neo" se fala da desregulação total e outras coisas associadas à administração Bush , por exemplo , sou contra , e mais uma vez está aí tudo o que tenho escrito para prová-lo.
Defendo o direito de ingerência mas o "sem ideais" não percebo. As razões que levam à autorização legal internacional são guiadas por ideais , tal como aquele que diz que um governo não deve matar os próprios cidadãos ou o que diz que deve haver liberdade política. Nunca defendi intervenções aleatórias , unilaterais ou difíceis de justificar.
Quanto ao nuclear , estão claras , parece-me , neste post as razões pelas quais o defendo e não me parecem muito fracas.

Não só tenho visto notícias nos últimos 5 anos como estudo as notícias de há 100 e 200 , acredite que dá uma perspectiva muito interessante das coisas.

Tenho pena é de passar mais tempo aqui a falar de política do que o que passo a falar de vela e navegação , mas as coisas são como são , agora é isto até voltar outra vez à navegação.

Cumprimentos

Anónimo disse...

Espero que a casa seja numa das ilhas onde ainda se pode deixar a porta aberta sem chave, circular quase sem trânsito, etc.
Estou a prever voltar lá, à vela, este Verão.
Um abraço
João GM