3.6.11

Da língua Portuguesa

O Poeta dizia que a Pátria dele era a língua Portuguesa , eu nunca me revi na frase. A minha Pátria é o país que me viu nascer e onde me fiz gente , quando eu nasci era um bocadinho maior do que é hoje , não lamento o “encolhimento” , a História não pára , os Impérios nascem , crescem e morrem . Hoje a minha Pátria é o rectângulo no extremo da Península e as Ilhas , mas apesar de restringir a noção de Pátria à Geografia tenho muito orgulho em que o Português seja falado por dezenas de milhões por todo o Mundo , em todas as suas variantes.
Não sei de quem foi a ideia da tentativa de homogeneização da escrita do Português, nunca compreendi a necessidade nem o valor de tal coisa. Aprendi a ler em grande parte com a ajuda de livros de quadradinhos em Português do Brasil , não me fez mal nenhum , antes pelo contrário . Já li muita coisa na mesma variante e nunca tive dificuldade em perceber o que estava a ler , tirando uma ou outra gíria ou regionalismo. Qualquer Brasileiro com um mínimo de educação compreende bem um Português ou um Angolano , e vice versa. Sempre achei que o facto de termos uma língua falada em vários continentes por várias culturas era uma vantagem enorme , garantia do dinamismo , evolução e projecção da mesma.
Por isso gostava muito de saber de quem foi a ideia peregrina , gostava que me explicassem a relação custo - benefício ( que eu gosto muito de ver as coisas nesses termos) do Acordo Ortográfico.
No outro dia estava a ler um semanário e uma nota de rodapé de um artigo dizia “o autor escreve de acordo com a ortografia clássica” , ou coisa que o valha. Tendo em conta que o autor em causa era o Miguel Sousa Tavares , o snobismo ( cagança , em Português clássico) não me surpreendeu nada . A menos que por imposição do editor , que me parece improvável , é uma nota um bocado parva porque qualquer leitor percebe o que está a ler e não precisa que lhe digam “olha , estás a ver , eu escrevo à antiga , é só classe e independência”, e como forma de contestação ao Acordo parece-me ineficaz e presumida , a melhor maneira de o contestar é continuar a ignorá-lo .

Este assunto aparece aqui porque anteontem de manhã estava no Gabinete do Empreendedor em Santa Cruz , uma instituição que (neste país que é uma miséria e um descalabro e uma degenerescência como estamos sempre a ouvir) existe para apoiar com financiamentos quem tem ideias viáveis e produtivas , estava à espera de uma reunião e comecei a falar do Acordo com o secretário daquilo , que também é contra como de resto a maioria das pessoas , parece-me , e daí passámos à questão dos estrangeiros e suas obrigações , ou desobrigações. Estava lá um casal de Alemães ao mesmo que eu . Vivem nas Flores há uns anos , não sei precisar quantos. A directora (e o resto do pessoal de lá ) fala com eles em Inglês esforçado , e isto enerva-me profundamente.
Sou a favor da movimentação de pessoas de uns países para os outros , e no nosso caso de Europeus esse movimento está protegido por lei , esses Alemães têm todo o direito de se estabelecerem aqui e de usufruírem de tudo o que está ao dispor dos Portugueses. Agora , que não vão além do bom dia , boa tarde e obrigado é que já não pode ser. Não devia poder ser.
Os turistas podem sem dúvida depender da boa vontade e do desenrascanço nacional e passar aqui as férias sem uma palavra de Português , é uma das nossas mais valias como destino turístico. Mas se querem vir para cá viver e trabalhar , aprendam a língua , porra! Chegasse eu a um Gabinete do Empreendedor na Alemanha ou noutro país qualquer da Europa para tratar da minha vida em Português e era corrido a risos . Esta ilha , como já disse aqui antes , é muito cosmopolita e tem uma grande percentagem de estrangeiros que se dividem em duas categorias : os que querem ser daqui , e ter uma vida social e fazer parte da vizinhança , são os que se esforçam , e aprendem rápido a língua , mesmo que nunca a dominem ; e os bichos do mato , que não se dão com ninguém a não ser com outros da mesma extracção ( repararam , extracção com dois cês , hã?) , nunca aprendem nada e mantêm que isto era mesmo bom era se fossem eles a mandar , porque há sempre mil problemas e defeitos e os Portugueses , coitados , apesar de viverem aqui há mais de 500 anos ainda não sabem andar nisto tão bem como os Arianos , que claro que sabem e fazem tudo melhor. Não há paciência .

Voltando ao famigerado Acordo , não faço nem nunca fiz tenção de alterar um hífen que seja ao meu Português tal como mo ensinaram na Escola , e tive bons professores. Toda a gente me percebe mesmo sem eu ter que avisar no fim dos meus textos que eles são escritos com ortografia “à antiga” , eu percebo o que leio mesmo se for escrito em “pós acordo” e não vejo razão absolutamente nenhuma para mudar. Não é por casmurrice , é porque não faz sentido nenhum para mim . E gostava mesmo muito de saber quem foi o pai ou a mãe da ideia e quais os argumentos apresentados. Porque em matéria de ideias de merda é do melhorzinho que o século passado produziu.

3 comentários:

Isa disse...

Editoras, prás editoras encherem os bolsos.

Estando aqui verifico que é ainda mais absurdo. Não resolve as questões de que as editoras se queixam, os regionalismos e tal, e só chateia meio mundo.

O AO é ridículo, não faz sentido no português de portugal e muitas coisas foram alteradas por alguém que parece não ser linguista, a questão das consoantes mudas.
Como estou aqui deste lado do Atlântico, é-me muito mais fácil aceitar. Tu habituas-te a ver as palavras escritas de outra forma e o que te passa a causar estranheza é um monte de consoantes a mais. Escrevo de acordo com o acordo, nem sei as regras, limito-me a tirar consoantes e pouco mais. E confesso que há mais coisas contra as quais reagir do que esta, que foi aceite, está aí e daqui a um ano ou dois vai ser obrigatório. Apesar do povo do acordo dizer que ele foi feito para as gerações futuras e não para as nossas.
Enfim :)
Bjos

Anónimo disse...

Oi jo,

Creio que a Isa disse o que havia a dizer. Isto é para facilitar a vida a editoras, nomeadamente brasileiras, que tendem a dominar ao mercado devido à diferença de tamanho, reale potencial. E também, por exemplo, para facilitar a vida aos gajos do software, e dos teclados, e coisas do genero.

Por mim não mudava. Continuo a escrever com antes. O meu português, devido a outros motivos, já era meio abrasileirado. E sinceramente tanto me fez, e me faz. A língua não é dos linguistas...

Só discordo de uma coisa que dizes: os portugueses quase todos entendem o português do Brasil, mas boa parte dos brasileiros, mesmo medianamente instruidos, não entendem facilmente o português de Portugal. Principalmente na oralidade.

Depois de uma semana inteira a conviver com uma brasileira perguntou-me se era Argentino!!!?? E isto não é assim tão raro acontecer.

António m

joaocarioca disse...

Uma vez em Salvador da Baía (Bahia ? porquê ?) quando um local me disse que não me entendia, comecei a falar mais devagar e com o melhor sotaque alentejano que consegui !!! Sabe que mais ? Passou a perceber tudo e...rimos os dois que nos fartámos !!!
Um abraço