5.1.12

Terra pouco Santa

Duas coisas me levaram a abordar este assunto espinhoso : a primeira , umas imagens que correram mundo pelo Natal , as dos padres cristãos de diferentes seitas pegados à bordoada na Capela da Natividade . Vimos o sítio ou área onde alegadamente nasceu Cristo , pessoa venerada há 2011 anos e que pregava acima de tudo Paz entre os Homens e os homens encarregados de zelar pela sua memória lutam entre si por protagonismo , poder , relevância , privilégios , o costume. Se nem na própria Capela da Natividade há Paz entre os "vigários de Cristo na Terra" podemos calibrar as nossas esperanças de Paz geral por aí. E isto é só entre Cristãos , porque a coisa piora mesmo quando falamos das relações e perspectivas de relação entre Cristãos e Muçulmanos.

A segunda foi um comentário que fiz num blog , coisa rara. O blog é daqueles que vive de apresentar links para notícias e pensamentos de outras pessoas , e o último era uma peça de um jornaleco de segunda linha que só por ser de Nova Iorque é logo espectacular e credível. Falava sobre ódio instilado nas crianças Palestinianas como arma política. Eu disse que podíamos estar descansados porque em Israel todas as crianças são educadas na estreita observância dos ideais de paz , fraternidade e boa vizinhança. Caiu mal , até me devem ter rotulado de anti semita, e esse é outro problema enorme dessa questão , o extremar das posições e a impossibilidade practica de acordos e pontos de vista comuns. Quem critica Israel e os Judeus é anti semita e comunista quem critica os Palestinianos é sionista e fascista , e por aí segue o discurso , com as toneladas de argumentos de que ambos os lados dispõem .

A minha opinião sobre este vespeiro é esta:

- Israel é uma criação artificial ditada por considerações políticas de terceiros. A partir da constatação desse facto acho que todos os argumentos que falam de direitos ancestrais e milenares não valem nada.
- Israel resistiu e resiste fisicamente como Nação graças ao influxo massivo de recursos exteriores , seja da diaspora Judaica , seja indirectamente dos EUA reflectindo o poder político da mesma , seja devido ao sentimento de culpa de países como a Alemanha e a França pelo seu papel asqueroso na Segunda Guerra Mundial.
- Os Palestinianos são uma ficção como Povo , são um ajuntamento de árabes que vivia por ali , nunca foram uma nação , nunca tiveram unidade política , nunca se conseguiram organizar coerentemente e não têm realmente um projecto nacional , têm reivindicações e queixas.
- Ouvimos muito sobre os fundamentalistas do Hamas e do Hezbollah , sobre o ódio todo que grassa em Gaza e na Cisjordânia mas ouvimos menos sobre partidos como o Ysrael Beitenu ou o Shas , um partido fundamentalista de ideologia medieval que até faz parte do governo actual e defende o bulldozer e o tanque como instrumentos políticos . E há mais partidos ultra ortodoxos , daquele pessoal que deixa crescer os caracóis porque vem na Bíblia , não toca nas mulheres porque são impuras , não trabalha porque só se deve estudar a Torah , acha os árabes infra humanos e marra nas paredes para falar com Deus mas os malucos são os árabes.
- Os Israelitas temem , justificadamente , pela sua segurança física , dado que os Hamazes e Hezbolás são dados a lançar mísseis e a fazerem-se explodir quando conseguem. Vai morrendo gente e caem umas paredes. Os árabes temem pura e simplesmente ficar sem terra para poder levar uma vida , criar um filho e pensar no futuro , porque a água é cortada , os colonatos expandem-se todos os dias e os recursos são estrangulados. Um camião de mercadorias tem que passar uns 5 checkpoints israelitas numa dúzia de quilómetros para ir de Gaza a outro lado da vizinhança , e depois dizem que os Palestinianos não conseguem desenvolver-se economicamente. Assim é difícil.
- Os Árabes olham para os Israelitas como o inimigo opressor , e para um árabe da Palestina com menos de 30 anos é difícil concluir outra coisa. Os Israelitas olham para os Árabes como um problema que precisa de uma solução. A história do soldado Shalit foi muito elucidativa: foi trocado por uns mil Árabes , mostrando bem como é que cada lado se valoriza e opera no conflito.
-As crianças Israelitas têm que sair das suas salas de aula e jardins para treinos anti míssil e sabem todas pôr uma máscara de gás. As crianças palestinianas vivem no meio do entulho, ignorância , pobreza e fundamentalismo religioso , vigiadas por soldados e torres de control , com família na prisão e sem grande possibilidade de sonhar, e depois estranha-se que cresçam com ódio.

Para resolver o que não tem solução , só sugestões impraticáveis , como estas:

-Jerusalém deve ser colocada sob mandato da ONU e declarada território internacional neutro. Não é capital nem de uns nem de outros , fica para os turistas irem ver as pedras e os religiosos irem rezar e adorar em paz , se conseguirem não se pegar à estalada .
- Os colonatos têm que parar , e os que foram construídos além das fronteiras de 1967 têm que ser demolidos
- Os Palestinianos têm que abandonar a ideia de acabar com os Judeus , os Judeus têm que aceitar a ideia de que os Palestinianos têm direito a uma terra e aspirar a uma vida decente e livre.
- O auxílio estrangeiro às duas partes deve ser condicionado pela observância de coisas simples como : há violência? Então não há dinheiro.
- Os políticos Americanos deviam crescer uma espinha dorsal e ter menos medo do lobby judeu e os políticos do Golfo deviam deixar de ver as coisas em termos de xiitas e sunitas , judeus e cruzados , ou seja , deviam ter uma visão menos retrógrada e ser mais criteriosos com os milhões que mandam para lá.


Parece simples , mas é impossível , ou seja , este texto foi mais um exercício inútil sobre a Paz no Médio Oriente , expressão que já parece um oximoro.

4 comentário (s):

António Matos disse...

concordo em pleno...

Jorge Ventura disse...

especialmente com a parte do "exercício inútil..." ;)

António Matos disse...

Com todas as partes, incluindo essa...

A falta de idealismo fundamentalistas quase sempre acrescenta realismo e lucidez, digo eu...

Já quando se mete idealismo (comunismo, liberalismo, nacionalismo, etc) na politica deriva para o sonho incoerente, pretensioso, sectario,hipócrita etc. Quando aos idealismos políticos se juntam e misturam os religiosos é o fim da picada.

A palestina-israel mistura tudo. Não tem solução.

Rui Silva disse...

Devem de haver pessoas, familias crianças que escapam á loucura geral, que afinal só querem viver em paz, essas que saiam de lá, os outros que se matam a ver se eu me importo!
Muito eu me ri com os padres á paulada, e pensava...se realmente Deus existe deve ter uma ideia das religiões que os homens criaram?! cá para mim deve adoptar a mesma atitude que para o exemplo acima.