3.3.12

Genocídio no Corvo

Acho que um dos problemas de exagerar na linguagem é que ao longo do tempo as palavras vão perdendo força. Tal como é impossível alguma coisa lavar sempre mais branco ao longo de 50 anos , uma catástrofe não pode por definição durar meses e uma falência não é uma tragédia , apesar de um buraco orçamental poder realmente ser um colosso . Muitas vezes não há medida nenhuma na escolha dos termos , se chamamos repressão policial à manutenção da ordem pública , o que é que vamos dizer no dia em que a polícia de choque dispersar uma manifestação? Guerra civil? E por falar nessa , se escrevemos que um ministro iniciou uma guerra civil por ter assinado um determinado acordo social , não estaremos a gastar depressa demais a reserva finita de hipérboles que podem fazer falta no futuro ? Chamar sempre , metodicamente e sem ser por um entusiasmo momentâneo , pacto de agressão ao acordo de financiamento da dívida portuguesa é um extremo de linguagem que não se justifica .
Os exageros e despropósitos são maus porque a vida económica e social do País depende muito dos discursos , discussões e informação que vai passando , e a linguagem apocalíptica e de confronto não só não ajuda a resolver o problema como o agrava. Os políticos e pessoas que vivem na órbita da Política precisam obviamente de atenção pública , e procuram-na como podem mas muitas vezes abusam da linguagem para marcar a sua posição e fazer a sua propaganda . Sentido das proporções , moderação e bom senso na maneira como se defendem as posições e contestam as dos oponentes faria maravilhas pelo País , e é à borla .

Este texto era para se chamar Pedro e o Lobo , o Pedro era um rapaz com uma função equivalente à dos políticos , numa metáforazinha de que gosto bastante , inspirada um bocado pela Quinta dos Animais do mestre Orwell e outras observações , nomeadamente das ovelhas e sua Economia e Sociedade .

O Rebanho somos nós , o Povo. Os políticos são os Pastores , que devem escolher , conhecer e gerir as pastagens e organizar-nos por elas , para nos ordenharem e tosquiarem regularmente , e em geral zelar pelo rebanho . Basta que haja erva fresca com fartura , que o veterinário tenha tudo sob controlo , que todos andem contentes na altura do cio e que se possa reproduzir e melhorar a espécie . A Imprensa e a Justiça são os cães , alerta aos lobos que rondam sempre de volta dos rebanhos para caçar os mais fracos , quase sempre a abanar a cauda quando vê o pastor e a olhar para o rebanho de cima , como sua responsabilidade . Dão o alarme contra os predadores , acordam o pastor se este adormece , procuram as ovelhas tresmalhadas e com sinais seguros aqui e ali lá encaminham o rebanho pelos caminhos possíveis . Estico a metáfora ao limite a acrescento que as ovelhas se entretêm e gostam de ver a actividade e truques dos cães , que lhes dão uma certa sensação de segurança.

O Pedro Pastor , desejoso de atenção como o Político , lembra-se de gritar “ lobo , lobo ” , os cães acorrem , espantam-se as ovelhas , desinquietam-se os vizinhos , mas toda a gente lhe dá atenção e ouve a sua história , louvam-lhe a coragem e garantem-lhe apoio , mesmo sem sinal de lobo . Com a repetição regular aquilo vai começando a perder efeito , e um dia os lobos vêm mesmo . Os cães já ouviram tantas vezes "lobo" sem nunca terem visto um que não sabem o que fazer , correm para o pastor , protegem umas ovelhas e descuram outras , deixam dividir o rebanho , por fim atacam os lobos mas os cães são sempre menos e pior preparados e nunca nos devemos esquecer de eles mesmos são meros lobos domesticados . O Pedro corre e grita mas os vizinhos já ouviram isso antes , e mesmo que com insistências acabem por acorrer , o dano foi feito , os lobos levaram as ovelhas que quiseram , estropiaram os cães , e o Pedro levou uma carga de pancada do pai , merecida e tardia.

A frequência e o modo como se diz é quase tão importante como o que se diz , não é só uma questão de tom e articulação , é por exemplo a diferença entre falar em "medidas impostas por credores" e "pacto de agressão" para descrever a mesma coisa. Se por um lado há uma tendência para os eufemismos (os aumentos são sempre ajustamentos , por exemplo ) que não ajuda muito à compreensão real e confiança das pessoas , que sabem a diferença entre as duas palavras , do outro há uma dramatização e conflitualidade que ajuda ainda menos .
Para o Bloco de Esquerda é um crime uma fábrica falir e despedir trabalhadores , como ainda agora ouvi o dr. Louçã reiterar num desses acontecimentos . Se o despedimento é um crime , as políticas de austeridade são uma agressão , um corte de subsídios um assalto e um aumento de impostos um massacre , perante a situação dos trabalhadores do sub empreiteiro da Castanheira e Soares no Corvo , como é que eles iriam qualificar aquilo? Genocídio?

1 comentário:

Anónimo disse...

As palavras são preciosas e frágeis e há quem insista em torná-las corriqueiras e quase vãs.

abraço,
gonçalo