1.3.12

Greve a Sério

Passa-se aqui ao lado no Corvo um drama laboral que pede meças a tudo o que de mau vai acontecendo em Portugal , a notícia foi dada ontem na Antena 1 Açores e hoje felizmente continua , mas calculo que amanhã , mesmo que não haja resolução , já não lhe liguem. No continente isto nunca interessa , porque somos poucos e estamos longe e as televisões estão mais interessadas em peças magníficas como as que vi ontem ( vi o telejornal porque estava a espera para ver a Selecção ) , uma belíssima peça de actualidade sobre a possibilidade de chuva hoje que incluía entrevistas num cabeleireiro e uma conversa com uma senhora que tinha por sua vez falado com um assassino demente que já se suicidou . Temas fortes da actualidade. Cambada de palhaços.

O mês passado escrevi aqui que a Castanheira e Soares , empresa de construção civil e o maior empregador da Ilha , estava falida. O tribunal está a apreciar um requerimento de falência porque devem 25 milhões , o sr. Castanheira , que com muito mérito foi de cantoneiro a milionário em 30 anos , diz que não , porque lhe devem 6 milhões. Esta ascensão de cantoneiro a empresário infelizmente não passou pela escolaridade obrigatória ( eu nem peço MBA's , peço que não sejam semi analfabetos) por isso o homem acha que o clima económico é favorável à recuperação uma empresa de construção civil regional com 19 milhões de euros de dívidas . A mansão incabada do sr. Castanheira vê-se na encosta sobre Santa Cruz , monumento à sua ambição , falta de gosto e destino.

Voltando ao Corvo , era uma das ilhas em que a C&S tinha obras. Como boa construtora portuguesa , a C&S subcontratava , ou seja , concorria para obras que não tinha capacidade própria de executar mas , fruto de ligações mais ou menos claras e orçamentos judiciosos ( ver o balanço actual da empresa) , ganhava as obras e depois sub contratava , ou seja , era em muitos casos um mero comissionista , sistema que custou biliões ao estado ao longo dos anos e gerou fortunas como a do Sr. Castanheira.
Desde Novembro que os operários sub contratados pela C&S no Corvo não recebem salário. O Corvo tem as contas em dia com a C&S , e ainda decorre uma obra. Os operários , depois de 3 meses sem receber , estão em greve , daquela verdadeira . O seu contrato incluía alojamento e refeições , deixo à vossa imaginação o alojamento e alimentação posto à disposição destes trabalhadores , a maior parte imigrantes.
Então ontem a C&S avisou os trabalhadores que se não voltassem ao trabalho deixavam de comer na cantina e de dormir nos barracos onde os alojam. Assim , sem mais nem menos .Devem 5 meses de salário a esta gente e como se isso não bastasse fazem chantagem : ou voltam ao trabalho , sem receber , ou não comem. Isto é quase medieval , e lembremo-nos bem de que estes homens estão isolados no extremo mais remoto do País , onde não se podem meter num autocarro ou comboio ou pedir uma boleia para outro lado qualquer. Estão isolados , muito longe de casa , não lhes pagam e querem forçá-los a trabalhar.
É a Caritas e a Acção Social que estão a amparar estes desgraçados , que provavelmente não são sindicalizados , nem portugueses , pelo que não aparecem no radar . Aliás , vou seguir o caso como puder e se algum sindicato tiver alguma intercessão neste caso além de arrotar postas de pescada e repetir cassetes , mudo de opinião sobre eles e presto-lhes aqui homenagem.

1 comentário:

Rui Silva disse...

Quando não há TV nem parangonas e os cartazes floridos não trazem dividendos politicos, quando afinal de contas há "apenas" seres humanos para proteger, os arautos da liberdade e da democracia, os porta vozes da defesa da dignidade humana.....não aparecem.