26.3.12

Projectos legais


O meu projecto da microcervejaria tem pouco mais de um ano mas já teve pelo menos 4 configurações possíveis , vai nesta altura na 5ª versão , que espero seja a final .
Depois da garagem de um amigo , de um prédio velho para recuperar , de uma barraca na minha propriedade e de um módulo pré-fabricado , tenho um acordo de compra para esse edifício da foto . Mesmo que alguma das soluções anteriores se realizasse o objectivo a longo prazo era instalar-me num edifício com carácter , como este , que tem muitas vantagens. É sabido que a cerveja é muito diferente se sair de um módulo pré fabricado ou de uma oficina assim, mesmo que seja absolutamente idêntica , por isso fiquei muito contente , a localização é óptima , tem um certo carisma , é tradicional e o interior está renovado , impecável e giro .

Estou optimista que dos biliões que re-capitalizaram os bancos sobrem uns trocos para fazer um crédito à minha empresa para comprar aquilo mais uns equipamentos e umas obrazinhas , sei bem que não é um projecto daqueles bons , tipo uma produtora de eventos, uma loja de roupa ou uma agência de viagens , é uma simples mini fábrica de cerveja , talvez não entre nos critérios das empresas a conceder crédito , e eu não sou de nenhum partido nem conheço ninguém mas tenho sempre esperança , confio no meu projecto e além disso pago juros como os outros pelo que em princípio interesso aos bancos.

Muito mais que o financiamento preocupa-me o licenciamento.
Em Portugal já foi muito pior mas licenciar uma empresa ainda é um calvário , é daqueles custos em tempo e dinheiro que afugentam investidores , dificultam a vida aos empresários e são a razão de ser de um exército de funcionários públicos que muitas vezes não tem noção nenhuma do que está a licenciar . Falam muito da Empresa na Hora , que foi de facto um grande avanço mas costumam esquecer-se de que é diferente criar uma empresa e obter a licença para trabalhar. Se a empresa tem a infelicidade de querer produzir alguma coisa em vez de prestar serviços ou vender coisas feitas por outros , é um percurso tortuoso e frustrante . Os licenciamentos de micro cervejarias comerciais em Portugal são mais que raros ( há só uma , que eu saiba , na Maia , a produzir a Cerveja Sovina ) pelo que antecipo ainda mais atrasos e complicações.
Como ainda estou à espera de que se concluam as actualizações do artigo do edifício na Câmara e nas Finanças para o pedido de crédito entrar na engrenagem bancária resolvi antecipar os problemas , fui hoje mostrar as instalações ao engenheiro da Câmara responsável e disse-lhe que íamos começar a analisar as necessidades como se fosse para uma queijaria , porque não há falta de experiência a licenciá-las e no máximo o que me podia acontecer era pecar por excesso.
A primeira observação arrefeceu-me logo o sangue: para uma queijaria artesanal daqui ( que processa 20litros de leite por dia) exigiram duas portas , uma para entrarem as matérias primas e outra para sair o produto. Existe risco ou inconveniência se se utilizar a mesma porta para entrar e sair , segundo os reguladores , o que é das coisas mais absurdas que tenho ouvido nos últimos meses , e eu até leio comunicados da CGTP.

Eu quero muito fazer tudo dentro da legalidade , desde as licenças até aos impostos e contribuições todas. Já estou a pagar à segurança social por estar a trabalhar para mim próprio quando estou a mais de 5 meses das primeiras vendas , para que se veja. Sei bem que não posso esperar que começar um negócio seja tão simples em Portugal como nos EUA ou noutros países que prezam empreendedores e crescimento económico sem ser apenas no papel e nos discursos , mas tenho os meus limites.

Se os atrasos , dificuldades , incongruências e pura estupidez como a história das duas portas prevalecerem não estou disposto a consumir-me ao sabor de um Estado que cada vez me desilude mais . Vim para aqui não só porque queria viver descansado no meu país mas porque acho que tenho alguma coisa para contribuir e nas alturas difíceis é que é preciso trabalhar com mais força, mas levantem-me muitos mais obstáculos idiotas e em menos tempo do que leva a contar as coisas mudam .

A legalidade é uma coisa muito relativa. Por exemplo há uns anos era legal ter outras pessoas como propriedade privada , há menos tempo era ilegal ter um isqueiro sem licença e já no meu tempo estava na Lei que todos os homens tinham que ir à tropa. O que é ilegal hoje amanhã pode ser legal , e vice versa , e quando conhecemos as criaturas que fazem as leis e o modo como elas são feitas perdemos depressa a noção da legalidade como valor absoluto.

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