3.4.12

Polícia de Choque

Percebi bastante cedo que uma das coisas menos inteligentes que se podem fazer na vida é desobedecer à polícia , que pior ainda é insultar a polícia e , noutro nível ainda , agredir a polícia. No plano puramente material é imbecil porque mesmo que sejamos o Chuck Norris há sempre mais polícias , e com mais equipamento e treino , é daquelas coisas que nunca , nunca podem acabar bem.
No plano moral , podem-me dizer que se estamos contra o Governo e não lhe reconhecemos legitimidade , e sendo a polícia a face visível da autoridade do Governo , não só é um direito como um dever afrontá-la. Até podia concordar , mas acho que a polícia representa mais o Estado que o Governo , é verdade que também há quem seja contra o Estado em geral , mas com esses não se pode discutir . Há muitas formas de protesto e manifestação que não passam por desordens , insultos e agressões , como de resto provam as centrais sindicais há muitos anos. Se não somos anarquistas temos que partir do princípio que a polícia é precisa e tem que ser respeitada. Eu nasci em 73 , sempre vivi em liberdade e democracia pelo que me posso sentir oprimido e ameaçado por muitas coisas mas a polícia não é certamente uma delas. Muito simplesmente , cumprir a lei pode não nos trazer mil recompensas mas permite-nos não ter nada a temer da polícia (os tribunais são outra coisa ) , e da de choque ainda menos. Chamem-me ingénuo ou priviligiado mas eu acredito que a polícia existe para me servir e até ver não tenho provas em contrário.
Tive a sorte de estar em países onde , para não me alongar e porque todos vemos imagens do mundo , as coisas funcionam de uma maneira muito diferente , a polícia é um perigo , só responde aos seus chefes e usa a violência quer haja tensão social quer não , pelo que acho uma certa piada ao tom de ultraje com que se encararam os “incidentes do Chiado” e o que se diz às vezes da polícia portuguesa.
Eu sei , não podemos ter os padrões do Mali nem ficar satisfeitos se isto é melhor que a Bielorrússia mas isso não impede de distinguir entre um incidente com um polícia transtornado e violência e repressão polícial.
Os polícias de choque são treinados para não ferver em pouca água ou sentirem -se pessoalmente insultados quando no fundo o que lhe insultam é o uniforme e o trabalho ( o que não deixa de ser insulto grave ) , mas as pessoas também não se podem espantar se quando chega as voz de avançar , depois de horas a ouvir tudo , um homem vá com muito mais entusiasmo e menos discernimento.
Era muito pedagógico que o Ministério da Administração Interna fizesse uma campanha a explicar como é que trabalha a polícia de choque , quando são chamados e não , quantos mandam em quantos , quem tem autoridade para mandar fazer o quê e em que circunstâncias , o que é que desencadeia uma carga e pormenores desses.
As claques de futebol sabem bem onde é que está traçada linha , de que lado da linha é que a polícia está lá para os “enquadrar” e de que lado é que começa ferver bastonada. Há um mundo a aprender sobre estas coisas por exemplo acompanhando a Juve Leo ao Estádio da Luz . Os hooligans não são completamente estúpidos , interessam-se por arruaças e por brigar com os do outro clube mas raramente estão interessados em só levar porrada que é o que acontece sempre que se metem com a polícia. Aos manifestantes indignados falta-lhes talvez perceber isso e planear de acordo, a menos que parte da estratégia seja mesmo provocar reacções violentas.
Este pessoal não é o Povo em luta , como toda a gente reparou há muito tempo . Chamar movimento político a esses grupos de jovens contestatários é como dizer que eu e o meu vizinho temos aqui um think tank .
Tenho pena que a fotógrafa que levou a bastonada no Chiado não tivesse conseguido fazer o seu trabalho a uma distância segura . Se é de confrontos que estamos a falar , como assegura muita da imprensa , tenho ideia que os repórteres de guerra bons e que não querem morrer não se vão pôr directamente na linha de fogo , no espaço físico entre os “beligerantes” , que era onde estava esta enquanto fotografava o seu namorado ( o rapaz do carrapito na famosa foto) a lutar contra as desigualdades , o desemprego e o aumento do custo de vida por meio de insultos à polícia e uma ou outra garrafa ou cadeira de esplanada arremessada com indignação . Tempos heróicos .

Sem comentários: