29.6.12

Estrangeiros


Uma das razões que me fez deixar os Estados Unidos e a vida ambulante em geral foi estar farto de ser estrangeiro. 
O Sócrates disse que era um Cidadão do Mundo não por ter vivido e conhecido o Mundo , mas porque pensava o Mundo como um todo , para além da sua Grécia onde passou a vidinha toda , sempre a falar Grego e comer comida Grega.
Os Cidadãos do Mundo contemporâneos são membros de uma classe muito selecta da humanidade que tem raízes de facto difusas , origens diversas e vivências dispersas , que tem que pensar e elaborar uma resposta mais ou menos longa à pergunta “você é de onde?” , ou então são “cosmopolitas” no sentido em que estão à vontade em diversos países e culturas , têm um determinado grau de sofisticação , falam línguas e conhecem uma parte do Mundo. Mesmo esses , por muito que a ideia lhes desagrade , são sempre estrangeiros fora do seu país , são  sempre tratados como tal e têm uma resposta de uma palavra só à pergunta “você é de onde?”.
Cidadãos do Mundo , se formos a ver , somos 7 biliões .

Ao fim de uma dúzia redonda de anos como estrangeiro em muito sítio o conforto , segurança e familiariedade de se viver no próprio país ganha um valor muito maior do que aquele que tem para quem nunca de lá saiu. Mesmo o emigrante ou refugiado mais revoltado e desiludido tem sempre horas em que se lembra e anseia pela sua Terra , que é muito mais do que um Estado , um regime político , uma língua , uma paisagem ou um género musical.
Aqui na Ilha sou de fora , mas não sou estrangeiro , é a minha terra porque é Portugal , que é o sítio onde vivem os Portugueses em geral . Aqui há mais estrangeiros que gente de fora , e chego assim onde queria chegar quando comecei a escrever isto.
Nesta Ilha já viveram mais de 10 mil pessoas , hoje vivem bem menos de 4 mil. Falta gente , a maior parte dos que cá nasceram e viveram sempre queria ir-se embora ( provavelmente como eu , se estivesse na posição deles) , quase só vêm para cá outros Portugueses “obrigados” , funcionários públicos.
É sabido e provado que os emigrantes são em geral pessoas mais dinâmicas e corajosas (senão nunca tomavam a iniciativa de abalar) , com vontade e espírito de trabalho e esforço. Por isso precisávamos aqui de umas centenas de emigrantes , estrangeiros ou nacionais , mas os que chegam mais são os estrangeiros ,  e eu sou a favor disso , apesar de me darem camadas de nervos negras quando comparo o que um Americano precisa de fazer para se instalar aqui e o que nós temos que passar na terra deles. 
Venham , vivam , criem , trabalhem e participem. Agora , se não for para isso , não , não são bem vindos . 
Há aqui três classes de Estrangeiros , a primeira é a dos que chega , apanha a febre , instala-se , legaliza-se com maior ou menor esforço , trabalha , produz , aprende Português , fala com os vizinhos , ajuda , partilha , vai às festas , enfim , vive cá. Felizmente há bastantes , e está-se aí a criar uma geração de garotos que há-de espantar o Mundo , acredito eu.
A segunda é dos que chega , procura febrilmente ( a febre é uma ocorrência comum) uma propriedade , compra-a inflacionando terrivelmente os preços , reconstrói-a com a mesma receita e depois vem cá passar quinze dias por ano , deixando-nos a distorção no mercado imobiliário e uma casa fechada e morta todo o ano.
A terceira são os que fazem tudo assim mas não é para férias , vivem cá só que se isolam , pura e simplesmente. Nunca aprendem a língua , importam tudo directamente , raramente saem de casa ,só falam com os outros alemães ( são a maior parte ) , desprezam e exasperam-se com os modos daqui e têm zero de sensibilidade ou apreço pela nossa Cultura .
 Não tenho nada contra quem quer uma vida de relativa reclusão e recolhimento mas desprezo quem consegue viver uma década num país sem aprender a língua desse país. Devia ser obrigatório, o requisito mínimo. Aqui é Portugal, se quer viver cá tem que aprender  Português , porque é que isto não é óbvio?

2 comentários:

humming disse...

Fazes-me ponderar os Açores de uma maneira que nunca imaginei fazer. Nada mau ter mais opções, em especial porque já senti isso de ser a estrangeira e estimei que senti-lo durante algum tempo poderia levar-me à saturação. Mas enquanto não saturar (uma saturação leva a precipitação, não é linda a Química na vida também?) outros voos me esperam, depois de me desenterrar de Lisboa.

Jorge Ventura disse...

Se faço ponderar , seja o que for , o exercício não é completamente fútil , fico contente