5.8.12

Cultura Desportiva


Nem de propósito , quando acabei de escrever isso aí atrás sobre a prestação nacional nas Olimpíadas , e logo a seguir a ouvir uma maratonista portuguesa dizer que tinha chegado em vigésimo não sei quantos “por causa das curvas” ouvi uma declaração do chefe da delegação portuguesa , Mario Santos , a criticar os críticos , acusou-nos de “falta de cultura desportiva” , o que provavelmente é verdade.
Não tenho cultura desportiva , se isso significa conhecer as regras todas , os tempos , as competições , os recordes , os procedimentos , os treinos , os atletas e  acompanhar as competições. Se calhar as pessoas com muita cultura desportiva adoram ver as equipas e atletas nacionais a participar sem ganhar nada mas desconfio que a maior parte dos espectadores ( como Portugueses já temos pouca cultura em geral , e da desportiva teremos menos ainda) não acha assim tanta graça e ao fim de algum tempo tem que se perguntar como é que a Etiópia , que é paupérrima , ou o Luxemburgo onde não vive ninguém , ganham mais medalhas que nós.
Depois o senhor disse que “algumas vezes conseguimos vencer outras não” , se fosse exacto tinha dito que “a maior parte das vezes perdemos mas já vencemos algumas vezes” .Depois criticou “uma exigência de aposta desportiva”. Não me parece que os críticos tenham essa exigência , e pessoas lúcidas não apostam ( no sentido de fazer uma aposta em dinheiro) em atletas portugueses nos JO. A exigência , falando por mim e se é posso exigir algo , é só um bocadinho mais de humildade , de encarar as derrotas como derrotas , de pelo menos em público e à frente dos microfones e câmaras não se mostrarem tão contentes por ter ficado nos 10 primeiros. A não ser que eu esteja muito enganado e que a maior parte vá para lá já plenamente convencida de que não tem hipótese nenhuma , pelo que tudo o que vier é óptimo . Para os atletas ir aos JO é o culminar de muitos anos de trabalho mas para quem vê ( e financia como contribuinte, mesmo que pouquinho) aquilo começa na inauguração e acaba no encerramento , e o que nos interessa é o que se passa nesse intervalo de tempo. O objectivo devia ser ser Campeão Olímpico , não devia ser ir aos Jogos Olímpicos .
Os records pessoais e nacionais que se batem lá interessam apenas aos atletas e às tais pessoas cheias de cultura desportiva , ao cidadão comum não aquece nem arrefece que o record nacional da marcha atlética tenha caído , Portugal não ganhou nada , e esse , continuo eu a achar , é o objectivo de participar nas Olimpíadas. Se não ganhamos....perdemos , mas ninguém , muito menos o chefe da delegação , parece querer assumir as derrotas sucessivas , deve achar que é uma desonra assumir inferioridade , acha que os críticos deviam estar satisfeitos e apreciar as “coisas verdadeiramente históricas” que já se alcançaram . Talvez para a história do ping pong , que sem dúvida é fascinante mas o que fica mesmo para a História são as medalhas . Rosa Mota , Fernanda Ribeiro , Carlos Lopes , Nelson Évora. Esses é que ficam para a História , não são os medianos , os assim assim , os que já competiram com os melhores , os que encontram sempre desculpas para perder e os que acham que competir e representar é suficiente.

Sem comentários: