27.8.12

Marinaleda

Um jornalista do I foi à Andaluzia cobrir uma ocupação de terras e gostou tanto daquilo que escreveu duas peças diferentes em dias seguintes , e ainda bem porque me deu assunto com fartura.
Entre as obras da minha casinha ( já tem telhado) , o contrato do próximo trabalho de navegação , o começo miserável do Sporting , reflexões sobre os horrores das tarefas domésticas para quem vive sozinho em aldeias remotas e uma reflexão sobre as contradições entre liberalismo e restrições à liberdade total de imprensa que um amigo me fez ver e sobre as quais ainda ando a pensar, faltava-me assunto. Ou vontade de escrever , mas o jornalista Nuno Ramos de Almeida resolveu-me o problema , à grande.
Então hoje aparece no I este belíssimo título : “Chegou a hora de dizernão aos grande bancos alemães que mandam na Europa”. Era um senhor de barbas e lenço palestiniano , como bom Andaluz , que é presidente da junta , ou melhor , alcaide. Diz o jornalista embevecido que ele “combate a troika em Espanha” , e não se coíbe (o alcaide) de explicar que nós temos que fazer o mesmo. Vou já. A primeira linha deste combate é Marinaleda , uma aldeola de 2500 pessoas que é gerida em regime comunista , ou melhor , não é bem comunista porque quem quer pode ir-se embora . O caminho de Marinaleda para o Socialismo começou em 1980 quando este revolucionário liderou uma ocupação de uma propriedade de um aristocrata local , as terras foram colectivizadas na medida em que a Lei o permitiu e o senhor Sanchez Gordillo tornou-se o Presidente  , cargo que ocupa há 30 anos. Legitimamente , visto que em Espanha e ao contrário de sítios que o homem declaradamente admira , há eleições de 4 em 4 anos. Se votam nele alguma coisa de bem tem feito , tal como o Alberto João Jardim.
Então este presidente de junta diz , como um deputado do PS aqui há tempos , que há que dizer não à Troika , sem no entanto explicar a seguir de onde é que vem o dinheiro para pagar as contas e as dívidas , ou se a solução é mesmo dizer "não pagamos" , escolha de eficácia dúbia a menos que deixemos de precisar de dinheiro. Pelo menos apresenta-nos uma solução concreta e visível , o colectivo de Marinaleda , onde não há desemprego porque toda a gente trabalha na Cooperativa Agrícola e toda a gente tem casa própria graças a um esquema muito engenhoso . O senhor Gordillo acha que “o modelo pode ser expandido a toda a Espanha , sem dúvida , falta é vontade política”. Eu arrisco dizer que também faltará alguma vontade da parte dos Espanhóis desempregados ( 20 e tal %?) de se tornarem todos camponeses e construírem as próprias casas , já para não falar dos problemas práticos de juntar assim uns milhões de pessoas à força de trabalho agrícola , mas certamente que há nos ilustres antepassados alguma solução. O Mao Tse Tung , por exemplo, integrou bem os desempregados na agricultura.
A Cooperativa é um sucesso . Como o sr Gordillo detesta o Grande Capital e as ingerências estrangeiras e critica a agricultura intensiva dos grandes lavradores e seus subsídios , seria de esperar que funcionasse autonomamente , como puro colectivo , mas tal como toda e qualquer empresa agrícola , cooperativa ou não , da Europa , em Marinaleda faz-se uso forte dos subsídios que escorrem de Bruxelas. Quando é para receber ajuda , venha a nós , para pagar contas , são uns exploradores .
Não me podia ficar só pela visão do jornalista do I , de certeza que ele próprio também anda de lenço palestiniano quando está fora de serviço , para não o acusarem de militância , e fiz uma pesquisa , que proponho a todos a quem esta história interessar , basta pôr “Marinaleda” no google e ir lendo sobre as glórias e sucessos de 30 anos de colectivo comunista.
Então além de encher a aldeia com citações de revolucionários latino americanos (sempre actuais e pertinentes na Europa do século XXI) ; todos os Sábados proporcionar aos seus munícipes uma hora de educação política e cultural na TV , tipo o seu ídolo Castro mas mais comedido no tempo , porque ao contrário dos Cubanos os Marinaledenses têm escolha ; organizar semana sim semana não um “Domingo Vermelho” em que a população é convocada a oferecer-se como voluntária para trabalhar a limpar as ruas e a prestar outros serviços comunitários , o alcaide gostava de ser “o Ghandi do século XXI”. Há quem ache que parece menos megalómano e egocêntrico se se declarar discípulo de algum personagem venerado e consensual. Aliás , os paralelismos entre a Índia de 1933 e a Andaluzia de 2012 devem ser claros , eu não os estou a ver mas sou suspeito .
Estava então a ler as declarações deste senhor que vem directo dos anos 70 para nos mostrar o caminho quando vi que ontem o I já tinha publicado outra história sobre isto : “A Aldeia Andaluza que faztremer o governo de Espanha”. Li do princípio ao fim com muita atenção , depois reli e ainda não consigo descortinar como é que esta aldeia de 2500 pessoas que vive num regime comunista ou perto faz tremer o governo de Espanha , ou qualquer outro. Absolutamente nada na peça ( ou na aldeia) leva a crer que o governo Espanhol trema ou mesmo se importe , a menos que ao vermos aparecer a polícia para controlar uma ocupação achemos que é o Governo a tremer.
A bolha imobiliária e financeira rebentou na Espanha e isto , na óptica do alcaide , só prova que o Comunismo é a solução. Marinaleda , além de não ter desempregados porque são todos camponeses , não tem problemas de habitação , todos têm casa própria. Então o problema da habitação resolve-se assim :
O município oferece o terreno , o que é óptimo se queremos viver onde o município tem terrenos . Depois os materiais de construção são oferecidos pelo Governo Regional ( custam ao contribuinte Espanhol, comunista ou não , cerca de 25 mil euros) e os cidadãos constroem a própria casa , dando um mínimo de 450 horas de trabalho para o efeito . Os restantes custos são abatidos com uma mensalidade de 15€ e a casa nunca pode ser vendida . Isto é explicado como se tratasse de uma coisa boa ou desejável , atingindo-se assim  um dos pontos mais imbecis que já vi no jornalismo nacional , que não parou para perguntar ao alcaide visionário como é que este esquema se pode generalizar ou ser solução ,e se está a pensar também abolir a propriedade privada.
Por isso para todos os nostálgicos do Comunismo, a todos os que acreditam que “Um outro mundo é possível” e que há que “lutar contra a troika” e podem inserir aqui mil clichés incluindo o genial slogan que a população de Marinaleda utilizou na sua última marcha : “Não somos banqueiros, não somos marqueses, somos andaluzes, somos jornaleiros” , muito bem pensado e cheio de esperança e visão , têm aqui a solução:
-Ocupam terras que não são vossas e fazem uma cooperativa com subsídios de Bruxelas sem parar de vituperar a política agrícola comum , tornam-se operários agrícolas , constroem a vossa própria casa num terreno cedido pela Câmara com materiais cedidos pelo Estado sem parar de ralhar contra o Estado e os bandidos que o gerem , e assim podem viver numa utopia moderna.
Desejo todo o sucesso , paz e crescimento a Marinaleda , especialmente porque não atingindo a Utopia a sua concretização total como outras que vimos , qualquer pessoa pode ir-se embora , e continuam sujeitos às mesmas leis que o resto dos Espanhóis , mas acho patético que o Nuno Ramos de Almeida tenha produzido estas duas quase apologias do comunismo actual sem se dar conta do ridículo que é descrever  Marinaleda como solução que se pode estender ao resto da Espanha e do Mundo , como defende e profetiza o Querido Presidente da Junta.
Se um governo viesse propor combater o desemprego pondo as pessoas a trabalhar na agricultura e a falta de habitação pondo as pessoas a construir as próprias casas , onde eles diziam e obrigados a viver lá para sempre, levantavam-se uivos de ultraje , talvez com o PCP à cabeça . Como é um anti troika de lenço palestiniano , vem para os jornais como um visionário e atropelam-se para o defender e louvar. Pode ser que além do humor estas publicações  sirvam para fazer algumas centenas de portugueses a emigrar para Marinaleda , ou melhor ainda , a criar o seu próprio colectivo comunista. Sem ironias , acho que seria uma coisa muito boa porque não há falta de terras incultas e aldeias desertas , e acho que toda a gente tem o direito a implementar a solução que acha melhor para a sua vida, agora por favor não venham gozar connosco a dizer que é esta a solução para os problemas com que a Europa se debate.

3 comentários:

Anonimo disse...

Xii, tanto strawman. Antes de criticar Comunismo, aprende o que significa.

Jorge Ventura disse...

Explica-me lá então o que significa e em que é que eu estou errado

Anónimo disse...

Também acho que para ignorante só te falta as tuas orelhas, de resto tens todas as caraterísticas. Não basta pegar no teclado e zurzir, é também necessário o bom senso para o que se escreve seja acolhido com respeito, mas tu, não mereces respeito porque a ignorância combate-se até à extinção do último dos ignorantes e claro que a arma não é parte do arsenal militar de ninguém é o esclarecimento, que é propriedade dos mais esclarecidos, o que não é o meu caso e convenhamos que também, por maioria de razões, não é de todo o teu.