2.8.12

Projecto suspenso


O projecto da Cerveja da Ilha pode não ter acabado mas está muito mais longe do que parecia há um ano , e é muito possível que nunca passe dos 10 litros de cada vez que faço em casa .
Podia culpar mil factores , desde a Sociedade em geral aos regulamentos comunitários , à complexidade burocrática dos licenciamentos, à avareza dos bancos passando pelo colapso económico Europeu causado em parte pelos mesmos bancos , entre outros. Acontece que eu acredito na responsabilidade individual e acredito que quando alguma coisa corre mal existem sempre responsáveis. Neste caso sou eu .
É verdade que criar empresas em Portugal é mais caro , complexo e exigente que em países competitivos , que os bancos estão nesta altura interessado em salvar a pele e não necessariamente em servir e financiar clientes . É verdade que a ASAE e demais organismos ligados à segurança alimentar são draconianos e têm exigências muitas vezes idiotas , é verdade que os funcionários públicos envolvidos no licenciamento , regulamento e fiscalização das actividades económicas estão antes de tudo dedicados a manter o seu emprego sem fazer ondas nem ter iniciativa de espécie alguma , não vá a sua avaliação ser comprometida ou alguém responsabilizá-los por alguma coisa. É verdade que a TSU é o sufoco das pequenas e médias empresas e um entrave à criação de emprego e ao crescimento . É também verdade que em sítios pequenos e isolados tudo é mais difícil , lento e muitas vezes caro e que nesta época de pré colapso económico em que vivemos quem tem capital pensa 14 vezes antes de investir , com medo de tudo , principalmente dos políticos que dizem que governam a Europa .
Tudo isto é verdade , mas já era verdade antes de eu pensar em criar uma empresa e nada disto surgiu para me contrariar . A ordem e método que eu escolhi para começar e desenvolver o meu projecto podem ser muito justificáveis e fazer sentido à luz de determinadas circunstâncias mas , olhando para trás , foram escolhas más . Não me informei a tempo sobre as coisas aparentemente cruciais para a fabricação de boa cerveja tais como um edifício independente com 3 metros de pé direito em toda a área  e em geral deixei-me levar pelo meu próprio entusiasmo e optimismo. Tão cínico numas coisas e tão ingénuo noutras . Se calhar foi prematuro meter-me no processo de registo da marca antes de ter asseguradas as instalações, por exemplo...
Já suspendi a actividade da empresa , já estou apenas por descargo de consciência à espera ( sempre à espera) que o director das Obras Públicas daqui se digne a fazer 20kms para vir dar a sua opinião sobre a viabilidade de construção no terreno junto ao edifício que eu ia comprar , que se encontra junto à Estrada Regional. Se calhar é preciso um requerimento em triplicado. Eu sei , é provável que um dia queiram fazer uma autoestrada de 4 faixas entre as Lajes e a Fajã Grande , ou alguém (um construtor com amigos no Governo) pode achar que é crucial para a segurança rodoviária que a estrada actual ( excelente e renovada de fresco) seja alargada uns metros. O Director , que certamente é excelente pessoa , quase que conseguiu fazer-me perder a calma por não se limitar a responder às perguntas de um munícipe que lhe paga o ordenado e que é sua função servir , querendo saber ao telefone e antes de mais quem eu sou , onde eu vivo , o que eu faço , enfim , a pequenez da ilha pequena. Vá lá não me perguntou “você é filho de quem” , mas certamente só porque eu já lhe tinha dito que não era de cá. O facto de não me conhecer pessoalmente e “não estar a ver quem eu era” incomodava-o e impediu-o de me dar uma resposta clara e me tratar simplesmente como um cidadão com um pedido de informação relativo ao pelouro dele.
Se as Obras Públicas concluírem que um bloco de 20m2 construído a 4 metros da estrada atrás de um edifício já existente não é uma ameaça à segurança rodoviária nem compromete a expansão eventual da Estrada Regional (talvez em 2070 quando o nível do mar subir e 50 mil pessoas fugirem para aqui) , vou voltar à estaca quase zero , fazer um plano com um novo edifício e tentar outra vez financiar , licenciar , construir e legalizar a micro cervejaria. Se a construção não for possível , bom , vou procurando um terrenozinho viável e adequado , mas enquanto encontro e não encontro não vivo do ar , nem do meu rebanho de ovelhas nem da veja escalada , pelo que me vejo obrigado a voltar ao Mar e a navegar , a única coisa rentável que sei fazer.
Eu bem devia ter concluído a minha licenciatura e arranjado um emprego no Estado , como "doutor" disto ou daquilo , podia ter tido uma vida um bocadinho menos interessante mas agora não estava preocupado com a renda do mês que vem ou o seguro do carro , por exemplo. Ou se fosse mesmo esperto filiava-me numa Juventude Partidária , passava uns anos a repetir generalidades e lugares comuns, a lamber cús e a fazer-me importante e se calhar agora já era sub secretário de estado adjunto ou acessor nalguma empresa pública. Estou a brincar , arrependo-me de algumas coisas que fiz na vida mas nem uma só vez de ter deixado a universidade e entre as mil coisas pelas quais estou grato aos meus pais uma das mais importantes é não terem feito um drama desse abandono e terem continuado a apoiar-me no meu caminho sem me exigir nada a não ser que trabalhasse para ser feliz.
Não tenho vontade , nem de sair da Ilha , nem de deixar o cão , nem de viajar , nem de conhecer uma tripulação e um barco novo nem de lidar com os problemas todos dos transportes marítimos , mas é assim , um gajo tem que fazer o que um gajo tem que fazer . Muita sorte tenho eu de poder (espero...) voltar ao circuito profissional e arranjar trabalho .
A quem acreditou neste projecto e me encorajou , as minhas desculpas por tê-los desiludido. A quem sempre disse ou pensou que não ia resultar , saúdo pela presciência .

7 comentários:

Isa disse...

Frases muito boas neste post, análises super certeiras. adorei, mesmo. e longe de ser uma desilusão, só falha quem tenta e eu nao acho que tenhas falhado ainda, ou percebi mal?

Deparamo-nos com os mesmos dilemas...
Bjo

Isa disse...

e ainda aprendi uma palavra nova... a última :o

Jorge Ventura disse...

pois , falhar falhar ainda não falhei...mas dá-me ideia que não estou mais perto do sucesso passado um ano , e isto é capaz de ser um bocado como as pessoas que dizem "vamos dar um tempo" que no fundo é igual a "isto acabou mas vamos fazer de conta que vai acabar aos poucos".
beijinho

Rui Silva disse...

Eu sabia que ia ser muito dificil, não impossivel, mas muiooooto dificil. E nem me refiro ao dinheiro, mas sim por ser na área do ramo alimentar.Todas as dificuldades que relatas são mesmo assim, mas não acabam se chegares a produzir, talvez até aumentem. Considera essas dificuldades um pronuncio de algo muito maior, mais complexo e acima de tudo que te suga a vida sem dares por isso. Eu, que estou nessa situação encararia a "outra" possibilidade como uma lufada de oxigenio, uma vida nova, um rejuvenescimento. Claro que esta minha opinião está carregada de azedume e portanto não é para ser levada em consideração.

Jorge Ventura disse...

Rui , a "outra" possibilidade é uma lufada de oxigénio , mas não é um rejuvenescimento nem vida nova , é um retorno a uma vida velha mas com mais custos ainda por estar baseado num sítio remoto e por ser causado por um certo falhanço.Se conseguir voltar aos transportes de barcos é por necessidade mesmo...

Anónimo disse...

Se calhar ando iludida com outras ideias: eu espero aqui um George Orwell português. Acredito muito nisto. Até o primeiro nome é Jorge. Um dia lanço uma linha de souvenirs e tudo; começo eu a ganhar dinheiro antes do escritor se fazer, que se há gente a comprar garrafas com ar do concerto da Madona, também há-de haver quem me leve umas canecas Jorge Ventura.

Jorge Ventura disse...

:)