14.8.12

Se não tens nada bom para dizer...

Não digas nada. É um aforismo muito interessante e lembro-me dele muitas vezes , especialmente em conversas sobre pessoas . É mais seguro , mais delicado , mais diplomático e mais pacífico , e além disso realça o valor do silêncio e da vantagem de não dizer nada sobre dizer possíveis asneiras.
A propósito da prestação nacional nos últimos jogos olímpicos lembraram-mo outra vez , quando eu dizia que não era capaz de aplaudir vigésimos lugares . Entre o aplauso e a crítica há o silêncio , fizeram-me ver , outra formulação de  “se não tens nada de bom para dizer , cala-te”. Fiquei a pensar nisto , e acho que se é um bom conselho quando se trata de indivíduos já não é assim tão bom quando falamos de entidades , actividades , organizações , colectivos e estruturas de toda a ordem. Não tenho nada de bom a dizer sobre o Nazismo , a poluição ou o Benfica mas não é por causa disso que não posso ou não devo falar sobre eles.
É certo que entre o aplauso e a crítica há o silêncio e a indiferença , mas é difícil porque a organização olímpica e a comunicação social forçam uma pessoa, mesmo uma que não tenha televisão , a apanhar com os Olímpicos . Os próprios atletas e treinadores/ agentes exortam toda a gente a apoiar e reclamam este apoio como dever nacional , e no fim das competições reclamam o aplauso e protestam com os críticos e indiferentes, sobre os quais também não têm nada de bom a dizer mas não é por isso que se calam.
Por isso continuo pirrónico com os jogos Olímpicos e a nossa prestação , salva apenas pelos homens da canoagem que trouxeram a tal medalhinha . Continuo sem perceber como é que ganhamos sempre várias medalhas nos  Paraolímpicos ( como se vai provar de novo) ao passo que nos jogos “normais” é sempre isto , a menos que me queiram convencer de que temos melhores  apoios, estruturas e condições para os atletas com deficiências do que para os outros, ou que é porque há muito menos países a mandar atletas a esses jogos .
A ouvir os atletas portugueses ninguém diria que foi uma prestação pior que nas olimpíadas anteriores , a ouvir os responsáveis a razão pela qual não dá para mais é a falta de dinheiro. O senhor que manda no comité olímpico português há 17 anos (!) e que à partida nos disse que esta era a missão melhor preparada de sempre  agora no rescaldo veio com uma lista do que há a fazer, uma pessoa podia ser perdoada por lhe perguntar se ele sabe isso tudo e tem a receita , e ainda por cima manda no comité , tem-se dedicado a quê este tempo todo?
 Ah , não tem dinheiro para mais . Isto tem piada porque ainda ontem ouvi a treinadora da equipa de ciclismo da França ( país que ganhou umas 30 medalhas ) a queixar-se de que o orçamento dos Ingleses era muito superior e por isso eles não podiam competir por igual. Se perguntarem a um gajo do ciclismo português ele diz logo que se tivéssemos o orçamento da França outro galo cantaria. As medalhas do Uganda , da República Dominicana ou da Jamaica devem ser aberrações , porque pelos vistos sem muito dinheiro é impossível  ganhá-las , só por milagre. Como estamos em recessão e já sabemos que não podemos exigir medalhas sem muito mais dinheiro para o desporto , para a preparação para o Rio , todos a Fátima acender umas velinhas. 

4 comentários:

Isa disse...

:)
não sei se leste a sequência de comentários. nem se leste o post em que dizia que (eu) tinha caído no miserabilismo da falta de dinheiro para justificar a prestaçao dos atletas portugueses, falei inclusive na etiópia...
transcrevo-te apenas o último comentário, na sequência de outro, tb ele pertinente, como o teu:

hoje li uma reportagem sobre isso, uma atleta brasileira, do salto à vara, nem tentou ficando de fora da qualificação para tentar saltar 4,55m ela que já tinah saltado 4,85m. a colega russa, bronze, passou-se, diz que estranhou. na revista dizia que tinha a ver com o pensar nos movimentos, lembrares-te dos movimentos que fizeste quando atingiste o teu máximo, ao invés de nao pensar e deixar o corpo responder sozinho.

pensar em excesso faz mal :)

acrescento outro: a grande questão aqui que faço aos jornalistas críticos é: quantos prémios, medalhas, reconhecimento, ganharam pela atividade à qual decidiram dedicar a vida? é isso, às vezes competir e dedicar a vida a uma causa só não chega, é preciso mais. sabe deus o quê, mas mais...
Bjo

Rui Silva disse...

Tambem acho que entre o aplauso e a critica há o silencio. Aquele grupo aqui da zona , que há 18 anos embirra em fazer musicas hard rock e que eu não gosto, nunca gostei e por este caminho....., não me atrevo a criticar, são muitos anos a batalhar num estilo em que muitos não tiveram a coragem (entre os quais eu) nem pouco mais ou menos de tentar. Ontem ouvi o Adam Lambert (!) a cantar com os Quenn e sempre fora de pé (tom) fazendo carcarejos com a voz mais parecendo uma galinha....critico, porque não tem justificação.
Quanto aos jogos, ficou para a historia a participação da Jamaica nos jogos de inverno em....tobogã, está tudo dito.

Isa disse...

belo exemplo esse do tobogã na jamaica, tá tudo dito mesmo!

António Matos disse...

Jó, fala que a gente gosta de ler-te!

Opinião:nunca fui aos J.O.. Mas fui (e sou) atleta, inclusive de alta competição. e representei Portugal no estrangeiro. Sei que estes gajos que lá foram são os melhores do país. Nem são apenas os melhores. São os melhores que conseguiram ir aos JO, porque nem todos os campeões nacionais de tudo vão lá. E sei que a maioria deles viveu os últimos anos 100% dedicados a ir lá. E acho que há lugar a ir para participar. Senão iam só os 8 melhores de cada disciplina para encher as pistas vagas(bastavam 2 ou 4, que já se sabe mais ou menos bem quem vai ganhar...), fazia-se uma serie e já está!

De qualquer forma, nacionalismos à parte, a maioria destes desportistas são desportistas individuais. Alguns poucos apoios têm. Outros até têm muitos... Não se pode generalizar. Alguns até treinam nos EUA...

Não sei se há receitas mágicas para fabricar campeões, nem se isso é algum objectivo a ter. Mas o que vejo é que muita gente que nem 100 consegue correr critica alto e bom som se os que lá vão não trazem uma medalhita...Uma medalhita, é tão fácil não é?