26.9.12

S.Miguel

Para não estar com "suspenses" desnecessários, correu tudo bem até aqui. Saí do porto se não em grande estilo pelo menos sem bater em nada nem assustar ninguém , que é o objectivo do exercício. Com a tripulação fixa (somos 3 a bordo) veio um técnico francês do estaleiro para nos acompanhar até Málaga , coisa que eu agradeci muito porque nunca recuso nem torço o nariz a possíveis ajudas e não tenho problemas nenhuns em perguntar quando não sei . Cruzámos o Mediterrâneo Ocidental sem novidade , entrei no porto de Málaga para deixar o francês sem sequer amarrar o barco e umas horas mais tarde amarrei na doca do carburante em Gibraltar , o gasóleo mais barato da Europa do Sul. Fomos os últimos clientes , meti 2500 litros de gasóleo e fiquei contentíssimo porque uma hora mais tarde implicava perder 14 horas em Gibraltar e nesta viagem cada hora conta. 
Como de costume fomos cuspidos do Mediterrâneo por um Levante de 40 nós e passados dois dias estávamos a travar conhecimento com as bordas da tempestade tropical Nadine , estava previsto mas eu nunca tinha estado em mau tempo num barco a motor ,e digo só que não é nada bom , um veleiro com quilha funda e velame no ar é muito mais balanceado , o movimento principal é pela linha popa-proa ao passo que estas traineiras abanam e saltam por todos os ângulos , não é fácil descansar  , cozinhar e assim. O barco aguenta isso e muito mais , mas é nestas alturas que gostava de ter a bordo aquele pessoal que diz que tenho uma vidinha santa e que queriam ter um trabalho destes , que acham que é ligar a chave , escolher a proa e olhar para o por do sol. 

Entrámos ontem de madrugada em S.Miguel, onde o pessoal da marina ainda se lembra bem de mim e é sempre bom ser bem recebido , não é que recebam mal o resto das pessoas mas é diferente. abro o computador e vejo que a tempestade Nadine não só ainda vive como voltou para Norte e agora foi-se por mesmo mesmo no meu caminho. Ora isto é uma grande inconveniência por duas razões, a primeira , este barco é destinado a Salão Náutico de Annapolis que começa dia 11 de Outubro. É a 2500 milhas daqui, nunca menos de 13 dias de viagem. 
A segunda é que tenho dois bilhetes de Boston para as Flores dia 12 de Outubro , e se não chego a tempo perco-os e o lucro todo desta viagem é gasto no meu regresso e do meu tripulante às Flores. 

Disse há bocado ao pessoal que temos 25% de hipóteses , partindo amanhã , de re-encontrar a Nadine e ganhar a distinção histórica de ser das poucas , senão únicas pessoas a passar pela mesma tempestade tropical num espaço de uma semana e em dois sítios distantes de mil milhas. Na America já lhe chamam "Never Die Nadine" e esta vai para os anais da meteorogia. 
Do estaleiro dizem-me que a decisão é minha , que eu já sabia , e vistas todas as coisas , apesar de reservar a decisão final para amanhã , tudo indica que vamos mesmo, tenho um telefone satélite pelo que recebo as actualizações da posição da tempestade, tenho toneladas de gasóleo para me desviar , um barco forte e uma reputação a manter e reforçar , andando na linha entre a imprudência e a coragem , e sendo um marinheiro Português tenho mais responsabilidades que os outros. 


3 comentários:

António Matos disse...

Força

Rui Silva disse...

Daqui do sofá.....máquinas a vante!

Isa disse...

Porra, vai com Deus, e com o espirito navegante português na veia, apesar de nao ter nada a ver...
Boa viagem!