30.11.12

Explicações

Relativamente ao que escrevi aí sobre os estivadores , as motivações para a greve deles e a minha embirração com as greves em geral perguntaram-me o que é que eu diria se os meus empregadores começassem a contratar gente menos qualificada e mais barata. Essa é fácil .

Primeiro , há poucas profissões mais precárias que a minha , em 12 anos de carreira nunca tive um contrato que durasse mais que um serviço , nem benefícios ou regalias sociais de espécie nenhuma . Tens X para fazer este serviço e acabou , é pegar ou largar . Depois vais para casa até haver outra vez trabalho, seja um mês sejam cinco, e recebes zero enquanto esperas. Para os que acham que resulta bem porque ganho muito , informo que , feitas as contas por horas , recebo , quando estou de serviço , cerca  de 13€ por hora , isto quando as coisas correm bem e  sendo responsável último por barcos que valem centenas de milhar , quando não milhões como o último , e pela vida das tripulações em qualquer condição , atravessando Oceanos e de serviço 24/24 , 7 dias por semana , e já passei muitos Natais e anos novos no mar sem receber mais nada por isso . Para isto qualifiquei-me à minha custa . A minha “simpatia” por pessoas que ganham mais de 1500€ por mês, como os estivadores ,  é nula , dou-lhes os parabéns e estou disposto a exercer a minha profissão pelo mesmo se alguém me oferecer um contrato de trabalho por esse número . O ano passado concorri para encarregado da nova marina daqui , posto que pagava 650€ por mês e tinha ficado felicíssimo se tivesse sido escolhido mas sendo isto Portugal os concursos público são-no só de nome e ficamos por aqui.
No dia em que não puder trabalhar mais vou ter para viver o que tiver poupado porque só um imbecil pode pensar que alguém que como eu tenha agora 40 anos ( 39 e meio mas anda-me a saber bem dizer que tenho 40) vai ter alguma reforma do Estado daqui a 20 ou 25 anos .
Isto para perceberem onde é que eu estou quando falo contra greves , sindicatos , reinvindicações e protestos de miséria , e bom mesmo era que toda a gente , antes de vir largar publicamente a sua sentença sobre salários e condições de vida divulgasse a sua situação . Se o cavernícola da CGTP ou o Soares , antes de cada aleivosia que mandam e cartas abertas ao raio que os abrase declarassem quanto ganham ( mais exactamente , quanto recebem) e o que têm, as pessoas prestavam-lhes atenção diferente.

Segundo , quando comecei a minha carreira marítima foi para uma companhia inglesa que se especializava em apresentar preços mais baratos que todos os concorrentes. Os americanos criticavam-nos porque fazíamos o mesmo por menos , depois começaram a aparecer sul africanos e russos que o fazem ainda por menos do que nós. Não podemos fazer greve contra isso porque os patrões diriam simplesmente: o amigo não quer trabalhar por esse preço? Temos pena , há muito quem queira , até qualquer dia e felicidades. E mesmo que conseguíssemos imaginar uma greve de skippers ,uma classe não muito dada ao associativismo fora dos bares , estava condenada à partida , e porquê? Porque parando de trabalhar não prejudicávamos ninguém , condição essencial para o sucesso de qualquer greve.
Prejudicavas o patrão, pelo menos , dir-me-ão. Pois sim , mas só prejudicava muito brevemente e uma vez , e acabava-se o trabalho .E depois , sinceramente , a lógica de confronto e luta , a táctica de prejudicar alguém para alcancar um objectivo sempre me pareceu perniciosa e todas as pessoas que conheço que tiveram sucesso na vida foram precisamente as que conseguiram ver para além desse espartilho ideológico e bafiento . Admito que a minha definição de “sucesso” não será a mais comum.
Trabalho hoje pelo mesmo que trabalhava há 12 anos , em dólares , e é se quero. Já tentei mudar de actividade para algo mais sedentário , menos arriscado e idealmente mais rentável mas ainda não consegui e no fundo gosto daquilo . Será obrigação do Estado providenciar para que toda a gente trabalhe naquilo que gosta? Será culpa do neoliberalismo , dos ricos ou da direita que a maioria das pessoas olhe para o seu trabalho como algo que tem que aguentar para receber algum ao fim do mês? Devo ter pena de pessoas que se angustiam e sentem inferiores se não vestirem roupas de marca ou usarem telemóveis de última geração? Era suposto a pobreza acabar no século XXI ? Assim nunca nada chega nem satisfaz , e a culpa é sempre dos outros.
Não acho que o Mundo me deva um emprego nem que os clientes me devam pagar o que eu acho que mereço só porque sim . Tenho que me sujeitar , porque não vivo a sonhar com um Mundo Justo & Ideal , vivo no mundo real , gosto de viver num Mercado Livre , e se há muita gente a fazer o que eu faço, os preços vão baixar. Dói a muita gente , dói-me a mim às vezes , mas é a realidade e não vale a pena vir com choradinhos ou tangas de que um outro mundo é possível , a menos que me queiram convencer de que isto era mesmo bom era numa economia de planificação central. Já se experimentou , correu como se viu, mas ainda temos que aturar os saudosos dessa era que têm memória selectiva , quando a têm.
O que me resta , e aos outros , é ser cada vez melhor , é diferenciarmo-nos do resto pela qualidade do serviço e experiência , é estarmos sempre prontos a atender as exigências de quem nos paga e , no trabalho , viver sempre com a preocupação de defender os interesses dessas mesmas pessoas que nos pagam e empregam . Depois vem o reconhecimento , não vem antes , com exigências à cabeça e reivindicações baseadas na concepção que algum teórico sindical tem do valor do meu trabalho ou em artigos postos na Constituição há 40 anos por advogados e políticos que nunca “trabalharam” um dia na sua vida , ou geriram uma empresa.
Ainda na ultima viagem que fiz , quando apresentei o orçamento pediram-me para baixar o preço. Eu , que precisava desesperadamente de trabalhar , acedi , dei o meu melhor por menos e é por isso que me vão ligar outra vez quando for hora e dar-me mais trabalho, e vou poder cobrar mais porque já me conhecem.Outra atitude tinha-me valido resultado diferente .
Quando estou do outro lado, a pagar por serviços , procuro sempre pagar o menos possível pelo mesmo serviço , mas para algumas pessoas isso é uma espécie de crime e deve fazer de mim um explorador. Se há alguém que se prontifica a fazer o mesmo por menos , a culpa disso é dos patrões? É desse trabalhador? É do Estado? Devemos lutar contra isso ou deve haver Liberdade de contratar e despedir , comprar e vender , ir e vir , vender o nosso trabalho pelo que entendermos ? Onde é que está a Liberdade, ó gente dos sindicatos? É que a Liberdade tem desses “efeitos colaterais” , por exemplo se defendemos a liberdade de expressão não nos podemos queixar que digam mal de nós , não é?

Estou farto até à ponta dos cabelos de sindicalistas que sempre foram sindicalistas e cujo modo de vida e fonte de rendimento é a agitação laboral. Já não suporto mais gente que se acha investida da autoridade de julgar o que é justo e o que é injusto para os outros só porque estudou Marx e tem uma vida de Comunismo atrás de si. Não aguento mais esta gente que depende da falta de cultura , discernimento e iniciativa das classes trabalhadoras para se arvorar em seu defensor único , como se deixar a cada indivíduo a escolha sobre a sua vida e trabalho fosse impossível e se as massas se perdessem sem a orientação dos sindicatos , ou se os sindicatos tivessem sido ungidos por uma força superior como os únicos representantes legítimos dos trabalhadores. E apesar dos números mostrarem que não são, temos que os ouvir a dizer que são.
É por isto , pela minha situação , experiência e convicções pessoais que sou contra as greves tal como as conhecemos e contra os sindicatos que temos , cujo principal interesse é o de todas as organizações políticas : obter e manter poder e influência.

Já aqui escrevi que só reconheço como sério e válido um tipo de greve , e não é aquela que consiste em parar um dia , dar cabo das receitas às empresas ou encravar a vida aos clientes e utentes e voltar no dia seguinte ao trabalho como se não fosse nada , que é o que acontece cá sempre . Se a situação é tão má como nos querem fazer crer todos os dias , e sem dúvida que é para muita gente , então vamos para a greve , mas a sério: pára-se de trabalhar até se verem as reinvindicações satisfeitas , que foi o que aconteceu em todas as greves verdadeiramente importantes e transformadoras da História.

10 comentários:

Isa disse...

nem mais, nem mais e nem mais. E ainda me fizeste rir.

Fuschia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fuschia disse...

Não consigo generalizar, mas pelo menos na minha área (design gráfico), não faz sentido contratar tendo em conta meramente o preço. Quer dizer, há quem o faça (a grande maioria) mas também há quem o não faça. Se eu tivesse de contratar, o que pagasse dependeria do que tivesse para gastar e tendo em conta que o que estamos dispostos a pagar, pode afectar a qualidade que vamos receber.

Flor disse...

Um bom relato! Gostei!

Jorge Ventura disse...

Isso para mim é o melhor , porque não vale a pena andar aqui a tentar convencer ninguém , se desabafamos e ainda fazemos rir está o exercício validado.Beijinho

Jorge Ventura disse...

Claro que o preço não pode ser o único critério é verdade quando dizemos que o barato pode sair caro , acho é que quem paga deve ser livre de escolher e decidir , e se quiser só comprar nos chineses , encomendar gráficos no Malawi ou contratar um skipper no Bangladesh não devem ser os sindicatos a dizer que é uma vergonha e não pode ser. Quando procuras trabalho , não mandas só a tabela de preços , irá também um portfolio, se os clientes acharem que é caro ou quiserem mais simples devem poder comprar sem serem chamados de exploradores miseráveis , seja o Estado seja uma empresa seja um particular. Olha , ando à procura de quem me desenhe uns rótulos para a minha cerveja caseira , hás-de me mandar um orçamento ;)

Jorge Ventura disse...

obrigado e volte sempre

marsanto disse...

"A PANTERA QUE RI"
Um conhecido humorista brasileiro conta a seguinte estória:
"diz-se que a pantera come carne em decomposição , só faz sexo uma vez por ano e está sempre a rir."
"Pergunta-se:Então se a pantera come carne podre e só phode uma vez por ano ,RI DE QUÊ?"

Jorge Ventura disse...

Talvez se ria de todas as vezes que a confundem com hienas

marsanto disse...

Boa e inteligente resposta!Pena é que ,o riso "consciente" da Pantera não contribua para mudar a sua "miserável" condição!