6.12.12

Defesa e Agricultura

É notícia hoje no I , a observação de que em média, os governos gastam mais em Defesa do que em Agricultura. Os dados fazem parte do relatório de 2012 da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), hoje divulgado em Roma e que tem como lema "Investir na Agricultura para um futuro melhor".

Eu sou daqueles que tem um certo receio quando organizações globais vêm recomendar aos governos como gastar o dinheiro dos cidadãos e quais as actividades económicas em que devem “investir” esse mesmo dinheiro. Parece que é um exercício válido e útil comparar a despesa pública com a agricultura ,  um sector que no mundo civilizado está ao cargo de particulares,  com a defesa , sector que por definição , nesse mesmo mundo civilizado , tem que ser monopólio do Estado. Comparar as despesas com um e outro ( para que as pessoas percebam que estes mauzões gastam mais em submarinos que em ceifeiras debulhadoras) é tão útil como comparar o investimento em bombeiros e em taxistas , a menos que queiramos fazer um bocado de política , que eu achava que não era o mandato da FAO.
O sector agrícola do Estado tem aí a obra feita para quem se der ao trabalho de a procurar , e a influência e “investimento” , traduzido em subsídios ao sector privado nos últimos 30 anos , tem resultados prontos a serem avaliados .Temos desertificação , preços baixos à custa dos produtores , explosão dos lucros dos intermediários , crédito mal parado , políticas erráticas e imbecis ( já aqui contei que posso receber um subsídio para ter ovelhas e posso ter um subsídio para as abater , deve ser ilustração suficiente) , apoio a produções que não têm mercado e mercados sem produção e  desperdício gigantesco. Além disso é sempre muito bom lembrar que parte enorme  destes “investimentos” do Estado  é gasta a montar e sustentar a burocracia que os distribui  e regula .

Mas ainda bem que temos a FAO para nos guiar nestas assuntos , o seu director diz-nos  que "com demasiada frequência os investimentos públicos na Agricultura não obtêm a esperada produtividade, redução da pobreza e sustentabilidade” .
Logo no parágrafo seguinte :
"Não há dúvida de que se devem destinar mais recursos públicos à Agricultura", avisa o responsável, e  esta é daquelas declarações sem preço e ilustrativas de como este pessoal pensa e o que diz sem mesmo se dar conta:  os investimentos públicos não resultam muito , pelo que há que investir mais. Digam-me lá se isto não é espectacular. Mas há mais , e igualmente surpreendente:
“Devido à crise que o mundo atravessa, diz a FAO que não podem ser apenas os governos a investir na Agricultura, pelo que "os investidores privados, nomeadamente os próprios agricultores, devem  ocupar um lugar central em toda a estratégia de investimento na Agricultura".
Uma organização internacional especializada que existe há décadas vir descobrir e comunicar ao Mundo em 2012 que não podem ser apenas os governos a investir na agricultura e que , conclusão das conclusões , “os próprios agricultores devem ocupar um lugar central” é simplesmente brilhante.

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