2.1.13

Clandestinidade

Quando decidi voltar ao meu país e instalar-me como cidadão de plenos direitos e deveres fui tratar do meu domicílio fiscal. Como previa abandonar a minha actividade principal , que de resto era sempre exercida offshore , tive que  registar nas finanças uma actividade. Como também quis que a minha mini exploração agrícola estivesse registada e legalizada, era lógico que me registasse como agricultor , enquanto a micro cervejaria não estivesse a funcionar,até porque tinha que passar facturas dos borregos vendidos. 

Depois de ter a experiência  de tentar criar uma micro empresa do ramo agroalimentar e fracassar , deixando-me sem grandes opções senão voltar a emigrar regularmente , eis que me aparece um aviso da Segurança Social a informar-me de que como eu não lhes disse nada em 2011 me colocaram automaticamente numa categoria qualquer e isso significa que devo 120€ por mês à Segurança Social , por estar colectado como agricultor , e querem-no com retroactivos . Ninguém me perguntou sobre o tamanho , produção ou rendimento da minha exploração agrícola , ou mesmo qual era o meu rendimento pessoal , se é que o tinha . Mais uma vez a minha ignorância sobre os pormenores e operações da administração publica me traiu , porque se soubesse que exercer uma actividade que só me dá prejuízo me obrigava à mesma a contribuir , e logo com 120€ por mês  , para a Segurança Social , tinha imediatamente declarado o fim da actividade, é o que vou fazer agora assim que houver internet disponível na repartição de finanças , e se já estava mais do que desiludido com a maneira como o Estado lida com  os cidadãos , esta cartinha da segurança social marca um ponto de viragem.

O que eu gostava era que  a Segurança Social  me oferecesse a seguinte possibilidade , muito simples : Eles  não me pedem nada , nunca , eu não lhes  peço nada , nunca. 
Mesmo sem uma carreira contributiva "normal" já descontei milhares que nunca vou ver nem me vão aproveitar em nada , porque acho que é pacífico para pessoas lúcidas que consigam fazer umas continhas que pensar numa pensão do Estado em 2030 é como pensar no Sporting campeão europeu em 2014 .Não vai acontecer . A solidariedade é fraco consolo , não sou dado a socialismos e não me aquece a alma saber que os meus  descontos estão a pagar as pensões dos outros , até porque a esmagadora maioria das pensões foram negociadas e calculadas sem grande base na realidade e  na matemática , foram mais uma conquista e aquisição de um direito e quem vier atrás que feche a porta. A minha geração que não se acautela com planos privados de reforma vai passar mal e amargar por ver que não há nada de todos os descontos que foi obrigada a fazer . 
Vendo como são geridos e gastos os nossos impostos e contribuições , vendo como foi deitada fora a oportunidade de reformar este país , vendo todos os dias as notícias de reformas milionárias acumuladas , de empresas publicas que são sorvedouros de dinheiro e coios de madraços ,  vigaristas e sindicalistas ;  de milhões do Estado gastos a  incensar a memória e obra  de gente  como um Soares ou um Saramago ou a pagar dívidas como a última , 10 milhões de euros para os empreendimentos do Vítor Baía , que correram previsivelmente pior que a sua carreira de guarda redes ;  vendo a perseguição incansável aos que não se podem defender enquanto que os poderosos continuam na sua senda , intocáveis , com  toda a litania de má gestão , desperdício , incompetência ,  bandalheira e corrupção que grassa pela Administração Pública... concluo que pela minha parte não contribuo mais , rebentem . 

Daqui em diante a legalidade é para ser observada só na medida em que as consequências de não o fazer forem reais , sérias e incontornáveis . De resto, vou dedicar a energia toda a safar-me deste monstro em vez de dedicá-la a alimentá-lo para ele não me fazer mal. Eu tentei fazer as coisas bem  , mas uma pessoa sente-se estúpida , agora  mudou o paradigma.