14.1.13

Os Senhores Azuis do Deserto

Os Tuaregues ,  nómadas do Sahara ,  sempre tiveram  para os europeus uma carga forte de romantismo. A liberdade de percorrer as vastidões do deserto , a vida simples da comunidade tradicional, a filosofia independente e estóica de um povo sem pátria . Os Homens Azuis do Deserto exerciam , e exercem , uma fascinação muito particular , especialmente para os que veneram as sociedades puras  , ou livres da corrupção da modernidade. Celebrados desde o Wilfred Thessiger até ao Paris Dakar , povo livre , corajoso e autogovernado , e sendo nómadas merecedor de mais simpatia ainda .
O nómada é outra categoria da qual se lamenta o desaparecimento , como se fosse bom para as pessoas passarem a vida a circular de um lado para o outro. Ofereçam aos nómadas as condições necessárias para se fixarem a ver quantos continuam a peregrinação regular. O nomadismo existiu e existe , digo eu assim sem grandes bases científicas à mão , porque as pessoas não tinham outra opção para sobreviver, depois inventou-se uma maneira melhor . Houve tragédias em  "processos de fixação" de povos nómadas que por infortúnio histórico e político de um século para o outro viram aparecer estados e países nos territórios por onde circulavam. Isso decorre da fixação ser imposta e  forçada , mas não quer dizer que o modo de vida nómada ( falando de povos inteiros de centenas de milhar de pessoas , não de pequenos grupos) não estivesse  condenado mais ou menos desde o desenvolvimento da agricultura. 

O modo de vida tradicional dos Tuaregues, antes de os europeus lhes recortarem o território e tentarem  fronteiras  , era feudal , com escravos e tudo . As mulheres , escravos e  crianças trabalhavam de sol a sol de volta dos camelos e das tendas , os homens ocupavam-se com política , intoxicações diversas e banditismo. Especialistas na cobrança de portagens , rapto de reféns , assaltos a caravanas  , nos momentos de maior aborrecimento ou menor  movimento  guerreavam entre si . 

Como não há grande coisa no Sahara além de  areia e pedras  , até ver , os Tuaregues foram sendo deixados em paz e guardando muita da sua reputação e simpatia na Europa , e tornando-se semi nomadas . Isto vai  funcionando  e o que se podia esperar se  os Tuaregues não constituíssem uma nação era que se fossem incorporando nos vários países do Sahara por onde eles andam , Argélia , Níger , Líbia , Burkina Faso  e Mali  , e abandonassem o nomadismo aos poucos.
O diabo é que se um povo passa séculos em que a sua elite é guerreira torna-se muito difícil em 50 anos largar as armas e o modo de vida . Ainda que haja centenas de milhar de Tuaregues a viver em cidades e , presume-se , com ocupações mais ou menos iguais às do  resto dos habitantes , há sempre meia dúzia de clãs mais aguerridos e radicais que não estão dispostos a renunciar à sua  identidade . 
Isto não causou assim muitos problemas enquanto se falava de camelos e carabinas , mas mesmo os nómadas mais empedernidos preferem fazer 100  kms de toyota do que de camelo e a tecnologia que verdadeiramente lhes interessava chegou depressa aos Tuaregues. Se por acaso se lhes tivessem acabado as razões para guerrear entre si não tinham falta de conflitos na zona  para se irem meter , e uma das causas do que se passa nesta altura no Mali foi a revolução na Líbia. 
O Kadafi perante a   ingratidão do seu povo que puramente incitado pelas potencias ocidentais pegou em armas para correr com ele , recorreu aos Tuaregues da Libia , que tradicionalmente o apoiavam , sobretudo por ele aclamar o folclore e os deixar à vontade. Houve dinheiro e equipamento para os Tuaregues lutarem contra os rebeldes , e o negócio correu tão bem que rapidamente chegaram primos do Mali e da Argélia para lutar na guerra civil.
Correu mal foi ao Kadafi , e os Tuaregues , que tinham perdido muita popularidade na Líbia , voltaram às suas terras ancestrais  do Sahara mais fundo, só que voltaram em pick ups turbo diesel e com camiões cisterna , com lança granadas e armas  à vontade . Mais importante que isso , voltaram com  telefones satélite e uns números de telefone de umas mesquitas , palácios e apartamentos , do Dubai a Londres , de onde se conduz a Guerra Santa. 

Os Tuaregues nunca foram muçulmanos fervorosos e mantêm inúmeras superstições e ritos blasfemos aos olhos do Islão. As guerras coloniais contra os Franceses eram por eles serem Franceses , não era por serem Cristãos. Apesar disso agora alguns clãs decidiram tornar-se jihadistas , possuídos de fervor religioso , determinados a impor a Lei Islâmica no Mali , no caso em questão. Vinham desencabrestados por aí abaixo , afirmavam que só paravam em Bamako e os infiéis que se cuidassem.O  Mali tem um exército largamente ficcional e se os estados vizinhos africanos decidissem intervir demoravam  meia eternidade a organizar-se  , mesmo que os Tuaregues fossem de camelo chegavam a Bamako muito antes de aparecerem capacetes azuis.  Vi na TV francesa imagens destes guerreiros   , parte de uma força de combate  de mil homens , bem equipados e reconhecidamente profissionais da coisa , os turbantes azuis dos Tuaregues em grande evidência,  as pick ups e a artilharia ligeira alinhadas nas dunas , era bonito , a estética  tipo Lawrence da Arábia no cinema ,  impunha respeito . E  se eu fosse Maliano ou vivesse naquelas bandas impunha terror , porque aquela rapaziada  vem para tirar as meninas da escola, amputar os ladrões , fechar as mulheres em casa , proibir a música e a dança e impor outras prescrições do Corão , e assegurar que todos são Fiéis. 
Por causa do pedido de ajuda formal do presidente do Mali a França mandou tropas e começou operações aéreas para parar a caravana . As pessoas que fornecem a estes Tuaregues a ideologia e o equipamento já fizeram saber que a França e os Franceses vão sofrer retaliações .
A TSF dá a notícia de uma dessas acções com o título "Bombardeamentos das forças francesas fazem 60 mortos no Mali". O corpo da notícia informa que "60 militantes islamitas" foram mortos , é claro que descriminar no título quem morreu não vale a pena . Não ouvi mas não deve tardar a indignação e protesto contra a intervenção francesa , daqueles que acham que os islamistas são maus mas que se podem combater ou eliminar sem violência nem danos colaterais  , a brigada das omoletes sem ovos . 
 
Retirei essa fotografia de um blog onde podem ler uma descrição asséptica e cor de rosa dos Tuaregues e que está publicada  na série "Sociedades antigas que não causam dano ao planeta e sobreviveram milhares de anos".


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