15.3.13

Inverno Agreste

No Domingo começou a chover fortemente e ainda não parou. No mesmo dia as minhas reservas de saúde foram-se abaixo e meti-me na cama , bastante atrapalhado. 
Tenho uma doença crónica que floresceu numa base genética já comprometida quando lhe juntei uns comportamentos irracionais ao longo dos anos. O meu avô materno morreu com asma aos 30 e tal , a minha mãe tem asma , o meu irmão também , o filho mais velho dele também , é assim . Tenho a consciência perfeita de que se não fosse a química moderna eu já estava morto há pelo menos uma dúzia de anos , e é uma das razões que me faz olhar com escárnio para os críticos acérrimos das grandes multinacionais da saúde , a investigação com células estaminais e a manipulação genética , por exemplo. Era um mundo muito melhor e mais justo sem elas , sem os grandes laboratórios que gastam biliões a sintetizar e experimentar drogas , era o mundo natural e mais puro em que o meu avô morreu sufocado a inalar vapor de folhas de eucalipto. Não tenho ilusões nenhumas quanto ao meu prazo de validade e se a minha saúde física tivesse figurado entre os critérios para escolher um lugar para viver , nunca teria vindo para esta ilha , ou fazia como a maioria dos que proclamam o seu amor por ela : passava cá o Verão.  
O ano passado por esta altura estive por pouco , deixei acabar as drogas , deixei de conseguir respirar ,  a meio de uma noite meti-me no carro e nem sei bem como conduzi 18 km até ao centro de saúde , com o cão ao lado quase mais angustiado do que eu , mesmo se quisesse ligar aos bombeiros não tinha conseguido falar , sem querer dramatizar demais pensei algumas vezes no caminho que desta é que era . Quase caí lá à porta , ligaram-me à botija , injectaram-me daquela boa e ao fim de umas horas voltei a respirar como uma pessoa. 
Na Segunda passada os meus químicos entraram na fase assustadora de não fazer efeito , comecei a ver o mar mais alto que a terra , a ver as horas passar sentado na cama , à espera daquele sinal que me ia dizer , “tens que ligar já para os bombeiros “ , o sinal não apareceu , consegui ir respirando e  nasceu o dia. Nasceu  medonho , de vendaval , escuro , frio e de chuva horizontal. Ir à cozinha dar comida ao cão já me deixava sem fôlego , mas tenho o cão e também tenho as ovelhas , que já andavam a passar um mau bocado fruto deste Inverno abismal que estamos a ter. Lá fui , muito a custo e muito devagarinho , o meu vizinho viu-me a sair de casa da sua oficina e ficou um bocado alarmado . 
Disse que começou a chover no Domingo mas devia ter dito que começou a chover em Outubro , as terras estão uma miséria , nas que não estão alagadas e lamacentas a erva não rebenta nem cresce , os lavradores deitam as mãos à cabeça , gastam fortunas em rações que às vezes não chegam cá porque o navio não vem , esta semana não conseguiu acostar .Anda aí muita fome entre os animais e angústia entre as pessoas  , e isto parte o coração a uma pessoa , quer viva da pecuária quer não. 
No dia seguinte o vizinho bateu-me à porta com uma grande panela de sopa grossa e rica , a fumegar, mandada pela mulher que me ordenava que a comesse toda já porque já vinha aí mais . Há muito tempo que não agradecia nada com tanta convicção , porque não tenho problemas emocionais por viver sozinho mas não me faltam problemas materiais e práticos  , já sou um gajo que come pouco e odeia cozinhar mesmo num pico de saúde , estando naquelas condições a dois iogurtes por dia não ia longe . Outro vizinho e amigo foi à farmácia buscar-me um antibiótico de combate que a senhora gentilmente avançou com a promessa de receita próxima e mandei uma mensagem a um tipo que às vezes trabalha para mim para lhe pedir que me fosse dar comida às ovelhas. O tempo não acalmou mas os pulmões acalmaram , vocês não fazem ideia da doçura e felicidade que é respirar. Ontem , com mortos com derrocadas em S.Miguel e estragos que cheguem aqui na ilha ( só vacas mortas declaradas aos serviços foram 22) , equipei-me como se fosse subir ao convés de um dos meus barcos numa noite de tormenta , menos o arnês e colete salva vidas, peguei no cão que já não esticava as pernas há que tempos , fui ver as ovelhas e fiquei bem triste , estavam todas enlameadas , e esfaimadas porque a palha que andam a comer só por si não chega, especialmente para as que estão a amamentar . Felizmente , como numa premonição , tinha-as juntado todas na mesma terra , fui comprar um saco de ração e fiz os meus planos para as tirar dali e levar para um sítio sem lama , o único sítio sem lama que ainda me resta , e dar-lhes mais ração . Foi esta manhã , foi tarde demais , cheguei lá e dei com um dos cordeirinhos enrolado morto no meio da lama , e tal como vê-los nascer aquece o coração de um homem , isto parte-o .

 O tempo não vai melhorar tão cedo , não vivo aqui há tempo que chegue para poder dizer se é extraordinário ou não , mas não há como um Inverno agreste para nos dar umas lições valentes sobre as coisas verdadeiramente importantes da Vida.

2 comentários:

Isa disse...

Se cuida, garouto…
Bjo

Rui Silva disse...

Isso não está facil, hem!