23.3.13

Sócrates e a RTP

Passei a quase totalidade dos consulados do Sócrates fora do país , pelo que não cheguei a criar-lhe a aversão que noto na maioria das pessoas , a mesma aversão que o Passos Coelho esta a fazer um bom trabalho a desenvolver. Não sou daqueles que ache que a culpa ou responsabilidade  possa cair nuns ombros só , não foi o Sócrates sozinho que fez este lindo serviço , e nem sequer foi só ele com os seus correligionários , todos temos um bocadinho de culpa na falência do Estado . Mas uns têm muito mais do que outros e a parte de leão da responsabilidade cabe ao Primeiro Ministro.
Como eu acho que deve ser em democracia , Portugal correu inapelávelmente com o homem nas urnas , não foi aos berros na rua , e ele desapareceu , para levar uma vida de estudante milionário que faz franzir o sobrolho a quem se interrogue de onde lhe choveram os milhões , muito além do vencimento de um Primeiro Ministro. “Quem cabritos vende e cabras não tem , de algum lado lhe vem” e “ Quem não tem vergonha todo o Mundo é seu” , dois provérbios que a minha querida Avó citava de vez em quando e que vão ser certeiros e actuais até ao fim dos tempos.
Uma vez li uma entrevista dele antes de ser Primeiro Ministro , e o que me ficou foi a constante preocupação do homem em referir a cada passo as suas leituras , os seus autores preferidos , os seus livros marcantes , as frases eternas , claramente com a necessidade de mostrar que era um homem culto e bem lido , necessidade que nunca têm as pessoas que o são realmente.

Fui acompanhando o nosso colapso económico pelos jornais e disse-o algures neste blog que já tardávamos em meses a pedir a intervenção do FMI , a cada semana que passávamos sem pedir ajuda externa só nos enterrávamos mais. Bom , estamos como estamos , o Sócrates já deve poder dissertar sobre os Prolegómenos a Toda a Metafísica Futura em Francês e arranjou um trabalhinho numa multinacional farmacêutica , organizações que têm sempre lugar para vendedores experimentados de banha de cobra , que não deixa de ser um produto terapêutico.

E eis que o RTP anuncia o regresso do nosso ex primeiro , para ser comentador televisivo. O povo está indignado. Dezenas de milhar assinaram uma petição, instrumento de eficácia comprovada , para o impedir. Se eu reconhecesse ao Relvas inteligência suficiente para ser maquiavélico dizia que o convite foi obra dele , dar um objecto de ódio às pessoas , um pára raios , um avivar a lembrança da responsabilidade maior e uma causa de desconforto à política viscosa e à banalidade confrangedora do Tó Zé . Mas para isso também era preciso que na RTP houvesse jornalistas com J maiúsculo , espécie que não abunda , que o confrontassem com decisões , acções e omissões do seu tempo no poder, e isso é pedir muito. Até porque tenho a certeza absoluta que neste contrato de comentário está claramente expresso que o homem vem para comentar o presente e elocubrar sobre o futuro , e que são interditas questões potencialmente embaraçosas ou incómodas sobre o seu passado como primeiro ministro.

O que me causa uma certa , pouca , indignação não é ver o Sócrates ( até porque não tenho televisão) a comentar a actualidade, a minha opinião sobre ele está fechada e condensa-se nisto :
Dívida directa do Estado
Fevereiro 2005: 92.767 milhões de euros
Junho 2011: 172.392 milhões de euros

fonte: IGCP (séries longas)
São números oficiais e é toda a informação de que preciso para o julgar .A indignação é contra a RTP, que apesar da prometida reforma continua mais do que inútil , mesmo perniciosa. Em 1950 e tal justificava-se plenamente um serviço público de televisão, só o Estado tinha capacidade de proporcionar esse serviço aos cidadãos. Em 2013 , na era dos mil canais por cabo e da Intenet ainda temos que gramar gente a dizer que o Estado tem que ter um canal generalista . Tal como na TAP , os únicos prejudicados pela privatização ou simples extinção da RTP1 seriam os empregados da RTP , gente demais para o serviço em mãos , que em geral trabalha suave e pausadamente , ganha quase à norueguesa e nunca vê a sua prestação avaliada. Ou melhor , vê a sua prestação avaliada por quem é melhor qualificado para o fazer , o cidadão consumidor , essa avaliação é bem patente nos números das audiências mas não tem consequências , é uma empresa pública e como tal tem coração de mãe e acolhe sem problemas ao lado dos bons profissionais uma série longa de inúteis , excedentários e incompetentes , de progressão na carreira assegurada pela mera existência.
Não achava mal que o Estado tivesse um canal para as minorias , para o ballet , para ter intelectuais a falar sobre outros intelectuais , umas peças de teatro , uns filmes vanguardistas portugueses , umas análises a exposições de pintura ou performances de jovens criadores , todas essas expressões culturais que se fossem deixadas ao critério do gosto da maioria desapareciam do dia para a noite , com óbvio prejuízo para o país. Agora ver o contribuinte a pagar para programação concorrente com as Tvs privadas parece-me estúpido, e tenho a impressão de que os arquivos históricos se poderiam manter sem ser necessariamente acoplados a um canal , mas claro que quem sabe de televisão é só quem trabalha na televisão e vive de falar sobre televisão. Mais me revolta ainda a maneira como se cobra a manutenção em grande estilo das estrelas e luminárias da RTP , com a insidiosa taxa que aparece na conta de electricidade quer se queira quer não. Milhões de pessoas que nunca vêm a RTP nem precisam dela para nada , como eu , pagam para ela existir . Como em tantas outras coisas eu olho para a Inglaterra , como anglófilo empedernido que sou , e vejo como eles lidam com o financiamento da TV pública: existe uma licença de TV , quem tem televisão em casa paga-a , quem não tem , não paga. Dir-me-ão que o número de pessoas que opta por não ter televisão é ridículo, infelizmente será, mas é uma questão de princípio: a taxa é aplicada e cobrada como uma taxa independente , não vem refundida na conta da luz , e quem não tem TV , não paga. Questão de princípio no modo como o Estado lida com o contribuinte.

Por falta de coragem , de visão , de vontade de servir antes de mais o cidadão contribuinte e de disponiblidade para ceder influência e clientelas , vamos continuar com a belíssima RTP que temos , agora com o Sócrates a comentar a actualidade  . Não vem explicar o que fez e deixou de fazer , vem falar sobre o que os outros fazem e deixam de fazer , é Portugal no seu melhor.

2 comentários:

Isa disse...

a partir de 6 mil assinaturas a coisa é levada a discussão no parlamento. a petição já vai em 100 mil, serve pra isso mesmo, pra que esse filhodaputa não use um canal público de TV para se promover e ainda conseguir mais um cargo nesta república de gente sem vergonha, nomeadamente PR, pq a cara de pau não tem limites e o gajo saqueou o estado em cerca de 300 milhões que desviou pra off shores e ainda tem a lata de voltar aqui, de cara lavada. parece-me justo que vá tentar a vidinha dele pra sibéria, não sem antes merecer um verdadeiro enxerto de porrada, só pra pensar na vida.
Bjo

Jorge Ventura disse...

Até assinei , precisamente para engrossar os números e porque não me custa nada , mas como bem dizes o melhor que se pode esperar de uma petição é que leve um assunto a discutir no parlamento , não garante absolutamente mais nada. Já vai nuns 120 mil, mas se quiseres aposto aqui contigo que mesmo que tema vá a discussão o homem vai mesmo ser comentador? Quem me dera perder..