16.9.13

Regresso

Os bilhetes de regresso à ilha (sempre 4 ou 5 voos) foram comprados pelo B , não tinha uma impressora à mão e escreveu-me  num papel a informação. Já há muitos anos que não me passa um bilhete de avião pela mão , nem sequer um papel impresso : depois de reservar o bilhete escrevo num papel  a data , o aeroporto , a linha aérea , o voo e a hora e quando chego ao check in mostro  a identificação e chega.
 O B escreveu-me no papel : 9/10 , DCA - ( um dos aerportos de Washington) , TAP 104 , 1430 , é o que basta. Gosto pouco de ir com pressa para apanhar aviões, às vezes calha mas antes quero apanhar uma seca monstra num aeroporto do que não ter margem de segurança para imprevistos. Metemo-nos num carro emprestado com tempo de sobra e só depois de 45 minutos e de alguma desconfiança sobre o trajecto é que perguntei: 
-Não estamos a caminho de Baltimore? 
-Estamos 
-O voo é de DCA.... 
Pensava que o B sabia o que estava a fazer e não se podia ter esquecido do aeroporto , tendo sido ele a comprar os bilhetes . BWI é o aeroporto que usamos quase sempre quando chegamos ou partimos de Annapolis e o reflexo levou-o para lá. Chegamos a DC ainda com tempo , mas depois tivemos que dar mais umas voltas e pedir direcções porque ele não se lembrava bem do caminho e aquilo está mal sinalizado, muito mal sinalizado. Chegamos ao aeroporto e não via “TAP” em lado nenhum , demorou tempo e nervos até descobrir que era um voo em code share com a United , e íamos primeiro a Newark e só depois para Lisboa. O voo atrasou duas horas , o que fez com que a passagem pelo aeroporto de Newark fosse a literalmente  a correr de um portão ao outro , já estavam a chamar os nossos nomes. Viagem tranquila para Lisboa , chegámos pelas 6 da manhã mas a mochila do meu amigo tinha ficado em Newark , ainda demorámos um bocado a preencher os papéis e lá foi ele a correr para apanhar o voo para casa, eu fiquei 24 horas , tempo para ver a familia. 

No dia seguinte voltei  ao aeroporto  e lembrei-me  com um sorriso dos rios de  tinta que correram  , do discurso que se produziu e do dinheiro que foi derretido com a questão do aeroporto aqui há 6 anos. Questão crucial , estruturante , não se podia adiar mais , a Portela era uma vergonha à beira do colapso , um travão na economia , enfim , o país viu-se forçado a encarar o seu futuro em torno da questão “onde é que vai ser o novo aeroporto?” , visto que a questão prévia “ é preciso um novo aeroporto?” , foi arrumada logo à cabeça por ser , sei lá , pouco profunda . 
Ota , Alcochete , e agora senhores, uma ponte no montijo , e o metro , como é que vai ser , e quanto levaremos depois a chegar a casa? Na altura deixei que a seita de medíocres incompetentes e corruptos que nos administram e pretensamente informam me convencesse de que sim , de que fazia falta um aeroporto novo , seria uma coisa boa . Dos sítios à escolha eu favorecia Alcochete , por razões económicas e pelo que ouvia dos peritos em aeronáutica. Eis-me na Portela em 2013 , um aeroporto confortável e moderno , igual a milhares de outros por esse mundo civilizado , com os números de tráfego a crescer , ligado ao centro da cidade por excelentes transportes, com o seu record imaculado de acidentes ou problemas , excepto os problemas causados periodicamente pelos sindicatos. ninguém nos vem pedir desculpa pela trapalhada bem cara que foi o fogacho do novo aeroporto.

Pelas livrarias vi duas coisas interessantes , parece que os portugueses estão finalmente a desenvolver um apetite por livros que os ensinem a gerir as suas finanças pessoais , mais vale tarde que nunca , e há uma explosão de títulos , incluindo  livros que nos ensinam a ganhar o nosso primeiro milhão , seja individualmente seja em família. Um deles é escrito por um jovem que deve ser um génio , e além do mais altruísta. Achei muito curioso que na nota biográfica não se referia a fortuna pessoal do autor , coisa que para mim seria crucial. Eu estaria eventualmente interessado em ler as opiniões e métodos de um gajo que ganhou milhões , não necessariamente de um gajo que mexe em milhões , são coisas diferentes.

Depois uma capa que  dizia mais ou menos isto : Você vai ser chamado a votar em breve . Leia este livro. Fui logo pegar no livro , era um embrulho de um livro do Saramago , "Ensaio sobre a Lucidez" . Não li nem vou ler , para mim "lucidez" e "comunismo"  excluem-se mutuamente e tenho muito mais que fazer com o meu tempo de leitura do que ler o Saramago , fiquei foi muito intrigado com um acto declarado de campanha eleitoral e activismo político da parte de uma editora , e da colaboração das livrarias que se prestam ao truque de marketing a propaganda política. 

De regresso à ilha, tudo em paz, estão as eleições à porta , e sobre isso falo mais tarde

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