28.11.13

Bocas del Toro

Na marina que serve Colon , um enclave remoto que era uma base americana e que hoje além da marina tem um base militar panamenha  , terminámos a manutenção toda , não havia grande reparações , o único dano da viagem de 7 dias para cá foram dois cabos de rizos que se esgaçaram e partiram , o mais difícil é re-passá-los por dentro da retranca mas não é muito complicado. Mais demorada foi a manutenção dos motores , que são novos , como tal estão dentro da garantia e em princípio o serviço regular das 500 horas tem que ser feito por técnicos autorizados . Em Tortola pediram-me $1800 para fazer os dois motores , eu revirei os olhos e não os mandei ir roubar para a estrada mas foi quase , e disse ao patrão que tínhamos margem para chegar ao Panama e fazê-lo mais barato. Só porque o dinheiro é dele e há bastante não há que o gastar à toa. No Panamá os representantes pediram-me $1500 pelo mesmo serviço (incluindo os materiais , a maior parte do custo) mas depois não podiam vir antes de 3 dias. Como tínhamos ( e ainda temos) todos os filtros , correias , roletas , óleos e ferramentas a bordo, disse o chefe que o fazíamos nós e pronto, não espero que nas contas finais o patrão se lembre de que lhe poupei pelo menos $500 e lhe dei 4 horas extraordinárias enfiado nas casas das máquinas encharcado em suor e besuntado de óleo , mas lembro-me eu e compensa sempre no fim.Quase sempre.

Zarpei com o imediato para Bocas del Toro com a estranheza do costume dos habitantes da marina , população que geralmente leva 30 dias para avançar 50 milhas e para cada dia de navegação precisa de 8 em terra , por isso  costumam-se  espantar quando vêm um ritmo profissional imprimido à coisa .
Bocas del Toro , um arquipélago panamenho perto da fronteira com a Costa Rica , selva pura . Um sítio lindíssimo que hoje vive só do turismo , a razão que cá me trouxe .
Os donos do barco chegaram em duas “levas” . Gente simpatiquíssima sem nenhum toque de snobismo apesar de serem todos milionários , familiares ou amigos de outros milionários para os quais já trabalhei e que me abstenho de nomear ou referir as indústrias , são pessoas que apreciam a discrição e é sabido que tudo o que escrevemos aqui mais tarde ou mais cedo pode ser encontrado , e pode sê-lo para fins menos bons.
Dá-me gosto conhecer estas pessoas , porque às fontes “comuns” como livros de História e jornais e revistas do país junto as opiniões , ideias e raciocínios da oligarquia e depois como ainda passo muito mais tempo , convivo e partilho mais com os marinheiros , que estão na base da pirâmide , fico com um retrato aceitável do país e das pessoas . Da última vez que lá estive ofereceram-me um telefone xpto para usar na estadia ( que deixei cair à àgua) , e puseram-me um carro e motorista às ordens , mas conheci melhor a capital quando fui jantar e sair à noite com a família do meu imediato , garotos e tudo , num bairro "popular". 

Fomos então ao aeroportozito esperar um jacto particular .  “Assim chegas como um senhor!” disse-me o patrão depois de me dar um abraço , com um sorriso de satisfação completamente infantil no rosto . O avião não é dele , é de um amigo panamenho que  ele visita muito e sabendo que vinha para cá fez questão de lhe emprestar o jacto e o piloto para os trazer da cidade do Panama para aqui . Comentei com o imediato que custou mais a boleia do jacto do que eu e ele ganhamos juntos num ano , num ano bom , e rimo-nos. 
 

O barco está impecável , mas é uma multidão , e sem este imediato e o moço que chegou esta manhã , que já está a ser treinado não só como marujo mas como steward , ou criado como se diz em português arcaico , nunca conseguia realizar este cruzeiro com toda a gente satisfeita . No mundo dos iates de charter ou particulares grandes essas funções são 99% das vezes cumpridas por raparigas , que se chamam stewardesses ou hospedeiras apesar de 80% do seu trabalho é serem empregadas de servir e limpar. 
Lá escolheram as suas praias , as suas ilhas e os seus restaurantes , agora regressámos para Leste , parámos en Colon para meter gasóleo ( isto de ter um gerador a trabalhar 24/7 consome muito), daqui a duas horas vamos para Portobello e de lá para San Blas , que dizem  ser dos sítios mais bonitos deste planeta  espero que compense as 15 horas de trabalho por dia e o peso deste barco e esta gente nos ombros.


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