11.11.13

Boston Express and Daily News

O título é em inglês porque estou em Boston a ler o Expresso e o Diário de Notícias e vejo novamente que para as pessoas prestarem atenção é preciso utilizar palavras estrangeiras , quanto mais melhor, mais espertos , cosmopolitas e modernos parecemos.

Na Notícias Magazine ficamos a conhecer o "work it" , espaço criativo e local de workshops, coaching e team building.Umas páginas a seguir é uma empresa de sabonetes de Marco de Canaveses que apresenta os seus sabões artesanais : Art , Mistery , Romance , Nature e History , palavras para as quais não há tradução em português e mesmo se lá se chegasse não tinha a mesma pinta.
 Na mesma página uma marca de "artesanato urbano" apresenta a linha Outono - Inverno com o tema "Warm in the Winter" . A seguir há uma rubrica que se esgotou há anos , "Portugueses Extraordinários". Não há maneira de num país tão pequeno apresentar uma pessoa extraordinária todas as semanas anos a fio sem desvalorizar o termo , e o nível de admissão está bastante baixo. Hoje é uma senhora que era professora , ficou sem colocação e criou uma escola de cozinha itinerante. Não sabemos nada da facturação , volume de negócios , empregados , ou clientes desta senhora , mas o facto de ter perdido o emprego e criado uma empresa faz dela uma Portuguesa Extraordinária aos olhos da Notícias Magazine . A empresa tem um nome inglês , nem podia ser de outra maneira , chama-se Forking Amazing. Este trocadilho infantil e brejeiro tem piada especialmente para pessoas que sabem pouco inglês , como é manifestamente o caso desta  extraordinária e de 90º% dos portugueses que acham que falam inglês. Garfo , de facto, diz-se "fork" , mas o verbo "to fork" , de onde o tal "forking amazing", não tem a ver com garfos nem comida , como mesmo os que não sabem de cor podem ver , por exemplo aqui . Se há coisa que me irrita mais do que a mania de dar nomes em inglês são pessoas que não sabem inglês a fazê-lo.

Há depois  uma peça sobre bullying , começa assim : "ainda não há palavra que o designe em português...". Minha senhora , não se canse , nunca vai haver , se não nos damos ao trabalho de usar palavras que correspondem perfeitamente não podemos esperar um esforço para traduzir conceitos difíceis como o bullying.

Antes disso  outro panegírico ao Cunhal, o homem fazia 100 anos se não tivesse morrido , e isso é razão para o país ( ou melhor , o PCP e a Comunicação Social) celebrarem o indivíduo que , se tivesse tido oportunidade , nos tinha tornado numa Albâniazinha à beira do Atlântico. Vomito os retratos do homem que vincam a sua coerência e firmeza , como se esses valores fossem intrinsecamente bons e a História não estivesse pejada de monstros coerentes e firmes. Claro que o Cunhal não foi nenhum monstro , gostava do seu país e era um homem culto e inteligente  , mas se virmos as coisas como elas são o seu projecto político era o totalitarismo soviético que falhou de modo abjecto depois de décadas a causar miséria e sofrimento por toda a Europa de Leste . O facto de o Cunhal nunca ter chegado ao poder parece que apaga as suas intenções e lhe vale estes louvores e homenagens. Isto de facto é um país um bocado estranho.

No DN o melhor foi a entrevista ao Adriano Moreira , que me fez descartar a hipótese "velhice a bordejar a senilidade" para explicar as aleivosias que o Mário Soares debita quase de cada vez que abre a boca em público ultimamente. O Adriano Moreira mostra que se pode ser vetusto e lúcido e exacto ao mesmo tempo. Não apaja o governo , tem aliás críticas duríssimas para a governação portuguesa e europeia , mas não recorre a falsificações e mentiras apegado a uma agenda política e vaidade pessoal que mistifica tudo à sua volta.

Outra peça é sobre o ranking das escolas. Não podia ser a escala ou a posição , tinha que ser ranking , ok. Vimos que uma escola da Damaia , sítio onde espero nunca ter que ir na vida , é a segunda melhor escola pública nesta escala de avaliação. Moeram-lhes os fígados porque decidiram separar as turmas e os alunos "bons" e "maus" , acontece que isto fez com que todos melhorassem a média. Como sempre e apesar das provas em contrário o Mário Nogueira diz que..bom , .não interessa nada o que diz esse elemento. 

No Expresso logo a abrir , Soares faz outro congresso contra a situação. O anterior foi um grande sucesso , com 2300 pessoas a juntar-se na Aula Magna , e teve nada como resultado , pelo que há que continuar com o modelo , se formos falando e falando e falando alguma coisa acabará por acontecer.

Quanto ao Miguel Sousa Tavares só li o primeiro parágrafo: "caminhamos para um confronto civil". Lembrei-me logo do que escrevi em Janeiro deste ano sobre o personagem , um bocado fastidiosamente : nessa altura o MST afirmava  que o ministro da economia da altura tinha "iniciado uma guerra civil". Afinal não , não começou nada , ainda caminhamos para lá. Daqui a um ano , se não se materializar o conflito vai haver outro aviso: está para começar ,  estou a avisar. Eu já me calava.
Depois há uma página inteira dedicada ao assunto que nesta altura provavelmente interessa menos aos Portugueses mas muito aos jornalistas , comentadores e possíveis candidatos : as eleições presidenciais , que são daqui a  mais de 2 anos .  Os jornalistas acham que é actualidade e matéria pertinente. Não sabemos se vai haver dinheiro daqui a 3 meses , mas interessa debater quem quer ser o Presidente.

Pertinente a sério  é a matéria de capa da revista: pelos vistos 67% do Portugueses dizem-se felizes. 67% é muita gente , é a larga maioria do população mesmo permitindo uma margem de erro grande . 
Ora bem , desde a falência do país e a chegada da troika que o pessoal do Contra , com o Soares quase à frente e o gajo da CGTP logo atrás , nos tenta fazer ver que Portugal está de rastos. As hipérboles mais idiotas sucedem-se , é o descalabro, a miséria, a desagregação social , a decomposição do País , um drama terrível que se desenrola à nossa frente , é uma ocupação estrangeira , e a humilhação suprema , venderam-nos , estão a destruir tudo ( para citar as mais ligeiras), é o colapso, a escravatura  e a fome estão à porta.
Das duas uma : ou os portugueses são masoquistas e a maioria consegue sentir-se feliz num país em ruínas , ou são estúpidos e não percebem que o país está destruído , como fazem questão de nos lembrar constantemente os Arménios Carlos desta vida, precisamente porque a ganham a espalhar a má nova da desgraça. 
Se calhar somos mesmo estúpidos , porque a lista dos livros de não ficção mais vendidos começa com "Acreditar , Rezar, Amar", obra à qual sugiro o sub título " O Segredo de uma Vida Sem Ter que Pensar" e o segundo é nada mais nada menos que "Confiança no Mundo" , de José Sócrates, autor do qual eu esperava algo intitulado "Como Portugal se Despenhou Comigo aos Comandos" . Este elemento nunca se ia contentar com um emprego de consultadoria e os rendimentos dos milhões que amealhou como Primeiro Ministro, porque é senhor de uma ambição , vaidade e fome de atenção desmedidas e tem a sorte de viver num país que realmente às vezes me parece bastante estúpido. Stupid , como se diz em estrangeiro , que fica sempre melhor.

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