22.12.13

O Peru , sem ser de Natal

Anteontem uma das senhoras tinha vindo visitar o barco e comentado que “amanhã casamos o filho de fulana” , e eu fiquei a pensar que aqui  ( e se calhar noutros sítios) não são as pessoas que se casam , são os pais que os casam . Ontem estava à porta da lavandaria à espera da minha roupa e vejo passar uma limousine dos anos 80 toda enfeitada com um casal de noivos lá dentro.“Olha que curioso , os peruanos casam-se às sextas , já o casamento do outro era hoje , porque é que será isto?”
 Voltei ao yate club e estavam os marinheiros prontos para ir para casa , despedimo-nos , desejo-lhes bom fim de semana e disse-lhes que no Domingo ia passear a Lima. 
-Amanhã então .
 -Não , Domingo. 
-É amanhã. 
Resumindo , há quase duas semanas , desde que mandei mudar as pilhas ao relógio no Panamá, que ando a viver no dia anterior . Curiosamente isto não me fez diferença nenhuma, mas ainda bem que reparei a tempo porque tenho um avião para apanhar na segunda feira e não era nada bom chegar ao aeroporto na terça. 

 Fui ao que me parece o único bar de La Punta , uma tasca pequenina onde há 5 anos me tinha desgraçado de tal maneira com pisco sour que o dono do bar me meteu num taxi que me descarregou no yate club e os seguranças me meteram na lancha e depositaram no convés do barco , sem eu dar por nada. 
Estava um grupo de meia duzia de amigos , pessoas de já uma certa idade , a falar de futebol , a U foi campeã do Peru mas naquela mesa todos pareciam não só detestar a U como o futebol peruano em geral. Um declarava-se do Barcelona , é para mim das coisas mais ridículas , diria mesmo estúpidas que eu conheço no mundo da bola , alguém dizer que é adepto de um clube de outro país. Ainda me lembro de uns pretensos notáveis que aqui há uns anos em forma de protesto contra o estado lastimável do futebol português declararam à imprensa que eram adeptos do Barcelona que iam passar a ir à bola a Camp Nou . A nossa imprensa , limitadinha como é , não os cobriu de ridículo como mereciam.
Uma coisa é ter simpatia por um clube , como eu tenho pelo Ginásio de Alcobaça ou o Liverpool, mas uma pessoa só pode ser de um clube. Começaram a falar do Mundial , muito originalmente diziam que os favoritos eram o Brasil e a Alemanha, e depois iam discutindo jogadores . Lá veio à baila o Ronaldo e um tipo falou do Figo , jogador tremendo .Não me contive. 
-Senhores , desculpem a interrupção , mas eu sou Português e do Sporting , pelo que me dá muitíssimo gosto ouvi-los falar assim desses jogadores , criados no meu clube. 
E começámos na conversa , juntámos as mesas , mandámos vir mais umas . Havia uma professora portuguesa em La Punta já há muitos anos , uma comunista.Voltámos ao futebol. 
-No meu clube temos um peruano , que eu gosto muito de ver , rapidíssimo , buenazo , está a crescer e pode ser um jogador fantástico, é o André Carrillo que comprámos ao Alianza. 
 -Vocês dêm-lhe de comer porque esses pretos são todos canibais , ainda come os outros todos. 
Fiquei siderado. Virei-me para um que estava mesmo ao lado para mudar de assunto. Era da marinha mercante , passou pelos Açores , “o tempo é sempre horrível , mares medonhos” , tinha estado em Viana do Castelo , mostrou-me um cartão do Continente que ainda trazia na carteira , lamentou a aparente ausência de bordéis em Viana e concordava com o outro quanto à natureza selvagem dos pretos , peruanos ou não. Falaram-me dos cholos , como chamam aos descendentes dos peruanos originais , como irremediavelmente estúpidos e atrasados , nas serras isso era porque mascavam muita coca , quanto ao resto do país não ofereceram grande explicação para esse atraso , e eu não me aventurei a oferecer que eram atrasados porque há 500 anos que eram oprimidos , explorados , discriminados e desprezados pelos brancos , o Estado , o Poder , na sua própria terra.
 -Não me digas que deixavas a tua filha casar com um preto? 
-Depende do preto , entre um branco estúpido e mandrião e um preto esperto e trabalhador , preferia que se casasse com o preto.
Estes argumentos não colhem com pessoas cujo preconceito está enraizado e é imune à lógica e ao senso comum. Fui-me embora a pensar na sorte que temos em ter em Portugal um país homogéneo de norte a sul incluindo as ilhas , todos os tugas se parecem uns com os outros , desde o Mello aos Zé dos Anzóis . 
Aqui o Mello é invariavelmente branco e o Zé dos Anzóis é invariavelmente cholo. A televisão , os jornais , a esmagadora maioria do Parlamento e dos políticos , as “100 maiores empresas peruanas” , tudo é domínio exclusivo dos descendentes dos Espanhóis , que ao contrário dos nossos antepassados não eram nada adeptos da miscigenação . 
O Peru tem 28 milhões de habitantes ,  5% são brancos , 1,5% são pretos  e a vastíssima maioria são cholos , termo  que inclui tudo o que não seja branco nem preto, e os pretos são os que têm a pior sorte  porque são discriminados pelos dois lados e precisam de trabalhar 20 vezes mais que os outros para subir na vida. 
Isto está a mudar , e não é pelos métodos da esquerda radical ( lembremo-nos dos 20 anos de conflito que aqui como na Colômbia são simplesmente conhecidos como “la violência” ) que só serviram para entrincheirar as elites , discriminar os pobres , cimentar a desconfiança e atrasar o país . Está a mudar graças ao crescimento económico contínuo , este ano de mais de 5% , o maior da América Latina , e à compreensão da parte das elites de que isto não é possível sem incluir toda a gente , melhorar a educação , a saúde , a segurança , as infra estruturas. Os filhos dos meus amigos marinheiros ( todos cholos , claro) têm possibilidades que eles não tiveram e que os seus pais nunca sonharam , e isto , é bom lembrar , deve-se ao capitalismo , digam o que disserem Boaventuras Sousas Santos , Raqueis Varelas e outros doutorados em Negação das Evidências.
 Fui ontem a um desses templos capitalistas , um mall , principalmente a uma loja de ferragens gigante comprar uns materiais para o barco . Como escrevi aí no outro dia , parecem-me iguais em todo o mundo , mas pensando melhor não são. Têm Starbucks ,  Batta ,  Cinnabon , Berska , milhões de lojecas de bugigangas e o diabo a quatro mas não têm uma única livraria, e é essa a diferença entre os centros comerciais gigantes que conheço na Europa e nos EU e nos do antigo terceiro mundo : a nossa globalização consumista não é feita exclusivamente de ecrans planos e roupas de marca, há um espacinho para os livros. Por aqui não , os livros estão excluídos e há que correr muito para encontrar uma livraria .É do que vou à procura agora em Lima , mesmo sendo Domingo.

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