5.12.13

Portobello



Portobello é dos maiores e melhores portos naturais da América Central e não foi ao acaso que os Espanhóis o escolheram para ser o centro dos transbordos e cargas da prata e ouro  roubadas aos índígenas a partir do século XVII. O saque vinha dos Andes em mulas , atravessava o istmo e aqui era contado e carregado nos galeões castelhanos uma vez por ano , e zarpavam para Sevilha.

Isto tirava o sono a todos os piratas do mundo , que sonhavam antes de todo o mais com expedições de rapina à Spanish Main , como chamavam a esta parte do mundo nesse tempo.Este porto viu  batalhas e ataques sem fim , os mais famosos foram o cerco do pirata Henry Morgan que em 1668 chegou ao porto com 500  piratas e 10 barcos  e apesar das fortificações tomou o porto e saqueou-o durante 14 dias. Não foi o único , e houve dezenas de ataques , uns fracassados outros de sucesso . A famosa Portobello Road em Londres foi baptizada assim em honra de uma vitória e um saque da cidade que produziu um espólio até então raramente visto.
Com o fim da colonização e saque dos Espanhóis Portobello depressa reverteu ao que é hoje , uma aldeola suja  e decrépita onde parece que as últimas pessoas a abrir um balde de tinta e pegar numa trincha ou a pregar uns pregos foram os espanhóis .

Passei aqui o ano de 2010 para 2011 , curiosamente sem descer a terra , primeiro porque não tinha bote e depois porque desconfiava muito dos indígenas e sobretudo de mim próprio à solta no Panamá numa passagem de ano e sem ter declarado a chegada à imigração nem meios de voltar ao barco rapidamente. Desta vez estava determinado a conhecer o sítio, e estava programado no cruzeiro dormir em Portobello na noite antes de cruzar o Canal. Cheguei e ancorei à hora que tinha previsto, desci a terra numa lancha à procura de internet e de uma t-shirt por já não ter nada lavado  . Os patrões estavam desejosos de descer a terra , ver a cidade histórica e jantar num restaurante , estavam encantados com a baía , viam-se as igrejas , a alfândega e as ruínas dos fortes, e ficaram espantados quando me viram regressar a bordo depois de nem meia hora em terra. Vim depressa porque aquilo não tinha realmente nada que ver que eu não visse melhor do barco, eles desceram todos numa lancha e eu fui-me deitar na vela , a descomprimir , a pensar que íamos ter o resto da tarde de descanso . Regressaram passado nem uma hora , um bocado pálidos e nervosos , a concordarem comigo que aquilo está muito mal cuidado , para dizer o mínimo ,  está cheio de gandulagem e não tem um sítio decente para jantar. Tudo verdade.

  No fundeadouro ao nosso lado estava um barco de pesca colombiano cuja marinhagem não tirava os olhos de nós e parecia que a qualquer momento se iam deitar ao mar de faca nos dentes para nos abordar. As lanchas passavam para trás e para a frente a grande velocidade a fazer tudo balançar na ancoragem. O chefe chamou-me e disse "Jorge , não queremos ficar aqui , o que achas de ir já esta noite dormir a Shelter Bay?" ."É para já" , que é a resposta que todos os patrões gostam de ouvir , e em 5 minutos zarpámos a todo o gás ( dá-le mango , pués , a minha expressão favorita do momento) e passadas 4 horas estávamos a atravessar a entrada do Porto de Colon e a chegar à marina sem  problemas nem nervos de maior , excepto que a dada altura tive que pedir ao patrão que se calasse , porque sempre que há uma situação qualquer ele gosta de estar ao meu lado a fazer-me perguntas , está no seu pleno direito mas às vezes enerva-me e desta vez tive que lhe dizer  eu não sou capaz de fazer isto e explicar o que estou a fazer ao mesmo tempo , não dá , ele percebeu bem e não só se calou como mandou calar toda a gente. Muitas vezes nesta viagem me apeteceu dar um berro assim à Jack Aubrey ,  silence fore and aft! decididamente espero que viajar com donos e convidados não se torne uma rotina.

 Aqui está um vídeo panorâmico da baía



1 comentário:

Isa disse...

ahahahaha, puseste o povo na ordem, que lindo :D