23.12.13

Tristan Jones & Lalo

Pelas marinas do mundo há quase sempre uma estante ou estantes para a troca de livros. Os velejadores são reconhecidos leitores vorazes , a maior parte das vezes não há livrarias ao alcance e assim se resolve o problema , uma pessoa deixa um livro que já leu e leva outro . Em Shelter Bay , no Panama , encontrei um título do Tristan Jones e levei-o logo.
 Quando estava a estudar  em Inglaterra no século passado descobrimos na biblioteca o Tristan Jones , galês nascido no mar que aos vinte e tal anos já tinha sido afundado três vezes , tinha feito prodígios de navegação aventureira desde a circumnavegação da Islândia a uma volta ao lago Titicaca , era tudo o que os jovens marujos em formação idolatravam e ainda por cima era um contador de histórias exímio , transformou-se numa espécie de guru da nossa classe . Ao longo dos anos comprei e devorei todos os livros dele , sempre fascinado , até que por fim encontrei um livro chamado “The Incredible Story” , a biografia do homem.
 Sucede que o Jones era um tremendo mentiroso , e para mim foi um choque sério ver um dos meus ídolos exposto como uma fraude. Desde o seu nascimento ao largo da ilha de Tristão da Cunha que lhe valeu o nome até à viagem à volta da Islândia passando pelas 24 travessias atlânticas e 400 mil milhas  , os livros dele estavam repletos de mentiras. Não era que o homem não fosse um marinheiro e navegador excepcional, que o era , fez muitas viagens épicas e o seu livro “One hand for yourself , one for the ship” ainda hoje devia ser lido por todos os marinheiros e aspirantes , mas teve a necessidade de embelezar os seus relatos com uma série enorme de patranhas e mistificações.
Posso compreender , ele tinha jeito para a escrita , descobriu que podia viver disso e que a maneira de vender mais era tornar sempre as suas histórias fascinantes usando “escrita criativa” e vendendo histórias de semi -ficção como relatos verídicos . Muito pior que isso para mim , muito pior que o embelezamento e dramatização extrema das suas viagens foi o ignorar puro e simples da sua tripulação em vários  livros. Várias viagens foram vendidas como “solo” quando havia tripulantes sem os quais teria fracassado. Perdoava-lhe a criatividade e o inflacionar de milhas navegadas por causa beleza da sua escrita , mas nunca lhe pude perdoar o ignorar ou descartar dos tripulantes que tornaram possíveis as suas aventuras. Uma grande parte dos seus livros e artigos são baseados ou contêm várias mentiras , que são como a gota de veneno que contamina o depósito de água inteiro . Já não lia nada dele desde a altura em que li essa biografia , comecei a ler esse livro que encontrei mas não passei do primeiro capítulo , escrevi uma advertência na contra capa e devolvi-o à estante da marina.
Talvez um dia eu escreva uma história de ficção baseada nas minhas experiências , mas enquanto não escrevo ficção e vou contando as minhas viagens tenho sempre presente que tal como as pessoas que me empregam confiam que sou um gajo sério as pessoas que me lêem confiam que l conto a verdade . Mantenho uma folha de excel com o registo de todas as minhas viagens , com datas , barcos , itinerários e tripulação , se digo que naveguei mais de 200 mil milhas posso fornecer os detalhes de cada uma , se digo que cruzei o Canal do Panamá seis vezes posso prová-lo , se passei por dado furacão ou tempestade isso pode ser verificado e a qualquer altura posso ir a esse registo saber o que estava a fazer em determinada altura em determinado sítio. Por isso tenho pouca tolerância para com aldrabões e inventores , mesmo que boas pessoas e bons marinheiros , e conheço alguns . Também por isso nunca , acho eu e espero bem , deixo de falar nos meus tripulantes , sem os quais nunca teria conseguido fazer uma fracção sequer do que fiz ,e acho que regra geral nunca digo “eu” onde devia dizer “nós” .
O reencontro com o Tristan Jones obriga-me a falar com mais detalhe do Lalo , o meu imediato neste barco que vai ser a partir de hoje o capitão. Se esta viagem e o cruzeiro no Panamá foram um sucesso enorme deve-se em grande parte a ele , um tipo experiente , calmo , inteligente , competente , organizado e dedicado que nesta altura conhece melhor este barco do que eu. Um tipo conscencioso até ao detalhe , ao qual nunca escapa nada , que não tem muita experiência de alto mar mas leva quase 20 anos a trabalhar em barcos , marinheiro dos 7 costados com o qual me entendi às mil maravilhas e que me permitiu dormir descansado e saber que os detalhes estavam tratados e assegurados , que nada ficava para trás , que o barco estava impecável . Um tipo cujo dia só termina quando está tudo limpo, ordenado e arrumado , que não descansa enquanto não resolver um problema por menor que seja , que faz com gosto todos os serviços chatos de bordo ( como as incessantes limpezas) sempre desejoso de aprender mais , sempre respeitoso sem deixar de ser companheiro , enfim , o imediato desejado por qualquer capitão , e basta vê-lo a trabalhar para saber que vai ser um excelente capitão , tão bom como os melhores.
 Quando fazia as contas com o patrão disse-lhe tudo isto , e também lhe disse que não tinha a certeza , dado que tinham o Lalo , que iam precisar de mim no futuro . O patrão não me respondeu mas esta manhã quando o Lalo subiu a bordo perguntou-me com um sorriso enorme : “então vamos à Costa Rica para o ano?” . Há coisas que não têm preço.

1 comentário:

Rui Silva disse...

È mesmo isso, há coisas que não têm preço!